13:20 23 Junho 2021
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    Ambientalistas estão acusando o governo brasileiro de criar uma jogada de marketing para tentar camuflar uma política antiambiental que vem levando a cabo no país desde 2019, como explica em entrevista à Sputnik o secretário-executivo do Observatório do Clima.

    Nesta semana, o governo do presidente Jair Bolsonaro anunciou o programa Adote um Parque, que prevê que empresas privadas ou indivíduos deem dinheiro ao Ministério do Meio Ambiente para conservar áreas protegidas. No entanto, de acordo com ambientalistas, o projeto seria uma tentativa do Planalto de criar uma "cortina de fumaça" em torno de práticas de destruição ambiental que seguem em curso no país sob a responsabilidade do governo.

    De acordo com o Executivo federal, o Adote um Parque tem o potencial de canalizar R$ 3,2 bilhões ao ano, através do Instituto Chico Mendes de Conservação da Biodiversidade (ICMBio), para custear a conservação de 132 parques nacionais. Os recursos deverão ser investidos em serviços como monitoramento, proteção, prevenção e combate a incêndios florestais, prevenção e combate ao desmatamento ilegal e recuperação de áreas degradadas. Mas especialistas da área desconfiam da área desconfiam das intenções do governo. Por quê? 

    ​"Eu tenho certeza de que a intenção do governo é de desmontar os mecanismos de proteção às florestas, de enfraquecer os órgãos de fiscalização e de facilitar o crime ambiental e o desmatamento no país. Não tenho nenhuma dúvida sobre isso", declara, em entrevista à Sputnik Brasil, o secretário-executivo do Observatório do Clima, Marcio Astrini. 

    O ambientalista cita uma série de ações tomadas pelo presidente Bolsonaro e o ministro Ricardo Salles que configuram uma política claramente antiambiental, motivo que o faz acreditar que essa novidade apresentada pelo governo não passa de uma estratégia de marketing pouco convincente. Entre essas ações, ele aponta a decisão de reduzir a necessidade de comprovação da legalidade de madeiras extraídas da Amazônia, a redução das operações de fiscalização de campo, a paralisação das cobranças de multas ambientais, a tentativa de permitir a mineração dentro de terras indígenas, o fim das políticas climáticas, o favorecimento da grilagem, a intenção de extinguir o ICMBio e de rever todas as unidades de conservação federais. 

    "Este governo fez apenas uma jogada de marketing. Enquanto ali, diante dos holofotes e dos microfones, eles criaram o nome de algo, de algum programa, e fizeram uma cena pública, no dia a dia, por trás daqueles microfones, longe daqueles palcos, a realidade é essa outra, a realidade é de uma operação de guerra contra o meio ambiente no Brasil."

    ​O Carrefour, que esteve envolvido em algumas polêmicas ao longo dos últimos anos, foi a primeira empresa a anunciar participação no novo programa do Ministério do Meio Ambiente, com um investimento de R$ 4 milhões. Na opinião de Astrini, se o governo resolveu apostar no Adote um Parque como uma grande jogada de marketing, o mesmo pode ser dito sobre a rede de supermercados francesa. 

    "A jogada que aconteceu com o Carrefour foi de marketing, que serviu tanto para o governo, que acabou fazendo ali um ato público para dizer que cuida do meio ambiente — um ato mentiroso —, e para o Carrefour, que nem esperou o ato terminar e, no dia seguinte, já estava colocando em jornais que protege a Amazônia e o meio ambiente no Brasil etc. Não vai passar disso, de um ato de marketing", argumenta. "O Carrefour, inclusive, poderia fazer a sua lição de casa, ao invés de só subir no palco junto com o governo. O Carrefour poderia criar um sistema rígido para evitar que carne proveniente de desmatamento da Amazônia frequentasse as gôndolas do supermercado do Carrefour." 

    Para o ambientalista, mentiras, teorias de conspiração e fuga da realidade são características marcantes do atual governo brasileiro. Umas das evidências disso na área ambiental, segundo ele, diz respeito à questão orçamentária. Isso porque, ao mesmo tempo em que cria uma nova fonte de financiamento para supostas ações de preservação, reduz o orçamento do Meio Ambiente, tem quase R$ 3 bilhões parados no Fundo Amazônia e já admitiu, em resposta a uma proposta da Alemanha, que não precisava de mais dinheiro para esse fim. 

    "Então, não é falta de dinheiro, é falta de governo, é falta de vergonha na cara desse governo que está aí." 

    As opiniões expressas nesta matéria podem não necessariamente coincidir com as da redação da Sputnik

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    Tags:
    programa, Amazônia, ambientalistas, Ricardo Salles, Jair Bolsonaro, meio ambiente, Brasil
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