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    Após saída da União Europeia, Londres deve lidar com ameaça de reunificação da Irlanda e de separatismo na Escócia. O que o Reino Unido pode fazer para evitar seu próprio desmembramento?

    A saída do Reino Unido da União Europeia trouxe consequências inesperadas para Londres. Ao defender a desunião com o bloco europeu, poucos britânicos anteciparam que poderiam estar promovendo o desmembramento do próprio país.

    Formado pela Inglaterra, Escócia, País de Gales e Irlanda do Norte, o Reino Unido enfrenta dificuldades para coibir movimentos independentistas dentro de suas fronteiras.

    "O Brexit e a pandemia colocaram a agenda social em primeiro plano, e com ela o debate sobre a separação do Reino Unido e adesão à União Europeia", disse a pesquisadora do Instituto de Europa da Academia de Ciências da Rússia, Kira Godovanyuk, à Sputnik Brasil. 

    Os casos mais preocupantes são o da independência da Escócia e da secessão da Irlanda do Norte. Quais as possibilidades desses territórios abandonarem Londres? E o que Reino Unido pode fazer para evitar o seu próprio desmembramento?

    Independência da Escócia

    Após a saída definitiva do Reino Unido da União Europeia, em 31 de dezembro de 2020, a primeira-ministra escocesa, Nicola Sturgeon, defendeu a convocação de novo referendo de independência na Escócia.

    De acordo com a premiê, os escoceses votaram majoritariamente pela manutenção do Reino Unido no bloco europeu, logo deveriam ter o direito de reabrir o debate sobre sua independência.

    "A questão da separação ganhou maior apoio da população", frisou Godovanyuk. "Mas a autorização para o referendo deve ser dada por Westminster, isto é, pelo poder central em Londres."

    Em 2014, Londres permitiu a condução de referendo de independência na Escócia, no qual 55% dos eleitores optaram por permanecer no Reino Unido.

    Pedestre passa pela ponte de Westminster, ao lado do Parlamento britânico, Londres, Reino Unido, 8 de janeiro de 2021
    © AP Photo / Frank Augstein
    Pedestre passa pela ponte de Westminster, ao lado do Parlamento britânico, Londres, Reino Unido, 8 de janeiro de 2021

    "O referendo de 2014 contou com o apoio de Westminster [...] e o processo foi totalmente legítimo", lembra Godovanyuk.

    De lá para cá, no entanto, "o apoio aos nacionalistas escoceses aumentou muito". 

    "Nas eleições gerais de 2019, os nacionalistas escoceses se fortaleceram. Eles ainda contam com um aumento de bancada nas eleições locais, previstas para maio deste ano", disse Godovanyuk.

    A primeira-ministra de Escócia Nicola Sturgeon
    A primeira-ministra de Escócia Nicola Sturgeon

    No entanto, o primeiro-ministro britânico, Boris Johnson, declarou reiteradamente que não tem a intenção de autorizar um novo referendo na Escócia.

    "Caso o referendo seja realizado sem o apoio de Westminster [...] o resultado não será reconhecido por Londres. Haveria um problema de legitimidade", explicou Godovanyuk.

    O movimento escocês quer evitar repetir o cenário da região espanhola da Catalunha, que realizou referendo de independência em 2017 que, sem o apoio de Madri, não obteve reconhecimento internacional.

    Bandeira da Escócia vista durante ato pela independência da Catalunha, em Barcelona, Espanha, 11 de setembro de 2014 (foto de arquivo)
    © AP Photo / Manu Fernandez
    Bandeira da Escócia vista durante ato pela independência da Catalunha, em Barcelona, Espanha, 11 de setembro de 2014 (foto de arquivo)

    Apesar das dificuldades, a independência da Escócia "vai dominar o debate público" e "os nacionalistas escoceses vão pressionar Westminster", garante Godovanyuk.

    Para ela, "a questão do referendo será utilizada como instrumento de barganha entre o governo da Escócia e Londres", além de ser "um trunfo político para os nacionalistas escoceses nas eleições locais de maio".

    Reunificação da Irlanda

    O principal desafio à unidade do Reino Unido, no entanto, é a possibilidade de reunificação da Irlanda.

    A Irlanda tornou-se independente do Reino Unido em 1921. Após sangrenta guerra civil, a Irlanda do Norte foi mantida sob controle britânico.

    "Em 2021 é comemorado o jubileu da independência da Irlanda, o que traz questão da reunificação da ilha de volta para a agenda", notou a pesquisadora.

    Além disso, após a saída do Reino Unido da União Europeia, Londres encontra-se separada da Irlanda do Norte por uma fronteira marítima.

    Pedestre passa por mural com ilustração sobre o movimento separatista irlandês, em Belfast, Irlanda do Norte, Reino Unido (foto de arquivo)
    © AP Photo / Peter Morrison
    Pedestre passa por mural com ilustração sobre o movimento separatista irlandês, em Belfast, Irlanda do Norte, Reino Unido (foto de arquivo)

    "Uma das principais consequências do processo do Brexit foi a instalação de fronteira entre o Reino Unido e a Irlanda do Norte, onde há controle alfandegário. Uma situação sem precedentes", comentou Godovanyuk.

    A alternativa teria sido estabelecer uma fronteira terrestre entre a Irlanda e a Irlanda do Norte, mas isso poderia incitar à mobilização de grupos armados que lutam pela reunificação da ilha.

    A fronteira marítima, no entanto, deixou a Irlanda do Norte mais longe de sua metrópole, Londres, e mais próxima da Irlanda, que é membro da União Europeia.

    "A reunificação da ilha se torna cada vez mais popular", declarou Godovanyuk. "Mas é um fato que Westminster vai trabalhar para impedir esse movimento."

    Ainda mais, "é difícil dizer como essa agenda vai avançar no governo da Irlanda do Norte, que é formado tanto por nacionalistas quanto por unionistas, que defendem a manutenção do Reino Unido", notou Godovanyuk.

    Mesmo assim, ela acredita que a unificação irlandesa vai "dominar a agenda política local nos próximos anos".

    Adesão à União Europeia

    Tanto o movimento de independência da Escócia quanto o pela unificação da Irlanda reivindicam o direito de manter-se parte da União Europeia.

    Porém, no caso escocês, a adesão ao bloco não estaria garantida.

    "Caso a Escócia venha a se tornar independente, ela terá que entrar com pedido de adesão à União Europeia e passar por um longo processo, cujo resultado ninguém sabe qual é", ponderou a pesquisadora.

    A adesão da Escócia ao bloco também poderia enfrentar oposição de países-membros que lutam contra o separatismo interno, como a Espanha.

    Manifestantes empunham bandeiras da Escócia e da União Europeia durante ato em Edimburgo, Escócia, 4 de setembro de 2019 (foto de arquivo)
    © AP Photo / Francois Mori
    Manifestantes empunham bandeiras da Escócia e da União Europeia durante ato em Edimburgo, Escócia, 4 de setembro de 2019 (foto de arquivo)

    "Já no caso da unificação da Irlanda, a Irlanda do Norte se tornaria membro da União Europeia de forma automática", disse Godovanyuk.

    Ela lembra que "quando a Alemanha Oriental se tornou parte da Alemanha, ela foi automaticamente incorporada à União Europeia", o que abriu um precedente para o caso irlandês.

    Nesse sentido, "seria mais simples para Bruxelas reconhecer esse ato, do que uma eventual independência da Escócia", argumentou Godovanyuk.

    E o que Londres pode fazer?

    O governo central em Westminster tem um triplo desafio a enfrentar: a pandemia de COVID-19, a saída da União Europeia e a ameaça de desmembramento territorial.

    "Aqui com certeza Londres precisará fazer concessões econômicas, realizar mais investimentos e aumentar a autonomia monetária desses territórios", acredita Godovanyuk.

    No entanto, não está claro "se o Reino Unido terá recursos suficientes para essa investida, dado o recuo da atividade econômica".

    Soldados britânicos durante funeral de colega, na capital da Irlanda do Norte, Belfast, Reino Unido (foto de arquivo)
    © AP Photo / Peter Morrison
    Soldados britânicos durante funeral de colega, na capital da Irlanda do Norte, Belfast, Reino Unido (foto de arquivo)

    "Será um grande desafio manter o crescimento econômico do país depois da saída da União Europeia", notou Godovanyuk. 

    A integridade britânica dependerá, em grande medida "da estabilidade do governo central e de quão acertadas serão as políticas adotadas para manter a integridade do Reino Unido", concluiu a pesquisadora.

    Caso contrário, Londres pode precisar de conselhos de Bruxelas sobre como lidar com regiões que pedem para seguir o próprio rumo, torcendo para não provar de seu próprio veneno.

    As opiniões expressas nesta matéria podem não necessariamente coincidir com as da redação da Sputnik

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    Tags:
    Espanha, Catalunha, União Europeia, Irlanda do Norte, Irlanda, Escócia, Reino Unido, Brexit
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