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    A Espanha começa o ano com o pé direito ao selar acordo histórico com o Reino Unido sobre Gibraltar. Será que Madrid terá o mesmo sucesso quando o assunto é o Brasil de Jair Bolsonaro?

    Na semana passada, documento vazado obtido pelo jornal espanhol El País revelou os bastidores das negociações entre Reino Unido e Espanha sobre o status do território de Gibraltar.

    Cedida ao Reino Unido em 1713, o pequeno território encontra-se localizado em ponto estratégico da costa do Mediterrâneo, ao sul da Espanha.

    O acordo analisado pelo jornal estipula que, após o Brexit, o pequeno território manterá diversos acordos com a União Europeia, mantendo laços mais estreitos com Madrid do que com sua metrópole, Londres.

    O acordo foi considerado a mais importante reconfiguração nas relações entre os países nos últimos 300 anos e um lembrete de como arranjos dos tempos coloniais seguem pautando a agenda no século XXI.

    Após o Brexit, a Espanha se prepara para novo momento em suas relações comerciais, que poderá contar com papel mais acentuado do Brasil e da América Latina.

    Relações com o Brasil

    Brasil e Espanha mantêm fortes laços econômicos: Madrid figura entre os cinco maiores investidores na economia brasileira, com de cerca de € 40 bilhões (aproximadamente R$ 252 bilhões) e mais de 500 empresas atuando no país sul-americano.

    "A Espanha possui fortes laços com a América Latina e mantém excelentes relações com o Brasil", disse a professora de Relações Internacionais e doutoranda da Universidade de São Paulo (USP), Flavia Loss de Araujo, à Sputnik Brasil.

    O tratado de livre-comércio entre Mercosul e União Europeia, assinado em 2019 depois de 20 anos de negociação, prometia estreitar ainda mais os laços entre Madrid e Brasília.

    "Nesse momento difícil da economia mundial, o acordo entre o Mercosul e a União Europeia pode ser uma alternativa relevante para ambos [...] ainda que os detalhes sobre os benefícios e perdas para os setores econômicos sul-americanos precisem ser melhor estudados", ressaltou Araujo.

    No entanto, a política ambiental do governo Bolsonaro, considerada pela Europa uma violação ao Acordo de Paris, está colocando em xeque essa parceria.

    Manifestantes seguram cartazes durante protesto contra a política ambiental e indigenista do governo Bolsonaro, em Barcelona, Espanha, 23 de agosto de 2019
    © AFP 2021 / Lluis Gene
    Manifestantes seguram cartazes durante protesto contra a política ambiental e indigenista do governo Bolsonaro, em Barcelona, Espanha, 23 de agosto de 2019

    De acordo com o advogado, professor e doutorando da Universidade de Salamanca (Espanha), Leonam Lucas Nogueira Cunha, a corrosão da imagem do Brasil na Espanha vem desde a campanha eleitoral de 2018.

    "Há uma certa constância em relação aos comentários críticos dirigidos ao presidente [Bolsonaro] desde o período de sua campanha eleitoral", disse Cunha à Sputnik Brasil. "Porém, é notório que o caso dos incêndios na Amazônia e da crise do coronavírus catapultaram ainda mais essa imagem negativa."

    Países europeus liderados pela França passaram a defender o cancelamento da ratificação do acordo com o Mercosul, em função da política ambiental bolsonarista.

    "As perspectivas de ratificação do acordo são baixas", disse Araujo. "Por se tratar de um acordo de categoria mista, ou seja, que necessita da aprovação das instituições supranacionais e da ratificação individual dos países membros, o processo se torna ainda mais demorado e complexo."

    Manifestantes protestam contra incêndios na Amazônia em Barcelona, Espanha, 23 de agosto de 2019
    © AFP 2021 / Lluis Gene
    Manifestantes protestam contra incêndios na Amazônia em Barcelona, Espanha, 23 de agosto de 2019

    Nesse contexto, a Espanha se coloca como uma mediadora entre Brasília e Bruxelas, onde lobbies contrários ao acordo aproveitam o desgaste do governo Bolsonaro para enterrar o documento.

    "Em relação à Espanha, percebemos que [...] existe um esforço para que o diálogo com o governo brasileiro se mantenha e certa intermediação a favor do Brasil junto aos demais países europeus", disse Araujo.

    O esforço da Espanha pela ratificação do acordo "não é uma surpresa, porque os negociadores espanhóis foram mediadores importantes em vários momentos de crise ao longo dos 20 de tratativas para a assinatura do acordo", apontou a professora.

    Segundo ela, "o governo espanhol parece acreditar que aumentar o isolamento do governo Bolsonaro pode ter consequências ainda mais nefastas".

    Membro da delegação brasileira durante a Conferência do Clima COP24, em Madri, Espanha, 25 de dezembro de 2019
    © AP Photo / Bernat Armangue
    Membro da delegação brasileira durante a Conferência do Clima COP24, em Madri, Espanha, 25 de dezembro de 2019

    Esse apoio, no entanto, é restrito à esfera econômica, uma vez que, politicamente, seria muito custoso para o governo espanhol, liderado pelo socialista Pedro Sánchez, se vincular à figura de Bolsonaro.

    "Seria um pouco comprometedor, para a imagem do partido do governo, manter relações estreitas com o presidente brasileiro, por estarem em 'trincheiras ideológicas' opostas", notou Cunha.

    O premiê, que também preside o Partido Socialista Operário Espanhol (PSOE), enfrenta oposição ferrenha do partido de extrema direita local Vox.

    "Os discursos de Vox e Bolsonaro são iguais: 'ideologia de gênero', anticomunismo, teorias conspiratórias em relação ao coronavírus, etc", explicou Cunha. "O líder desse mesmo partido tem relação com um dos filhos de Bolsonaro e ostentam foto juntos."

    Manifestantes seguram cartaz de repúdio à família Bolsonaro, próximo à Embaixada do Brasil em Madrid, Espanha, 11 de junho de 2020
    © AFP 2021 / Oscar del Pozo
    Manifestantes seguram cartaz de repúdio à família Bolsonaro, próximo à Embaixada do Brasil em Madrid, Espanha, 11 de junho de 2020

    De fato, em outubro de 2020, Eduardo Bolsonaro e líderes do partido espanhol Vox lançaram uma aliança internacional de partidos de extrema direita chamada "Carta de Madri", que tem o objetivo de se contrapor ao Foro de São Paulo, fórum internacional de partidos de esquerda.

    A desarmonia entre Bolsonaro e Sánchez ficou clara quando, em junho de 2020, o espanhol excluiu Bolsonaro da reunião de lançamento da iniciativa "Juntos por uma resposta para a América Latina perante a COVID-19", capitaneada pela Espanha e instituições financeiras internacionais. 

    De olho em Guedes

    Apesar da inimizade no primeiro escalão, as autoridades comerciais e executivas de ambos os países trabalham a toque de caixa.

    Em novembro de 2020, a secretária de Comércio da Espanha, Xiana Margarida Méndez Bértolo, veio ao Brasil, em sua primeira visita transatlântica desde o início da pandemia de COVID-19.

    Ela visitou as obras da linha seis do metrô de São Paulo, tocadas pela empresa espanhola Acciona, que firmou o maior contrato da história do grupo com o governo João Doria, com valor estimado de € 2,3 bilhões (cerca de R$ 14 bilhões), em julho do ano passado.

    Na ocasião, Bértolo disse que a Espanha tem interesse em participar dos processos de privatização no Brasil, com destaque para os setores de infraestrutura e telecomunicações.

    "Com a situação econômica europeia agravada pela pandemia, é natural que as concessões e privatizações prometidas pelo governo brasileiro chamem a atenção dos investidores", disse Araujo.

    A secretária também defendeu as reformas empreendidas pelo Ministério da Economia brasileiro, que seriam "um sinal de que o Brasil está dando os passos certos e tomando decisões corajosas", conforme reportou o UOL.

    Presidente do Brasil, Jair Bolsonaro (à direita), conversa com o ministro da Economia, Pulo Guedes (à esquerda) e com o vice-presidente, Hamilton Mourão (centro), no Palácio do Planalto, Brasília, 12 de janeiro de 2021
    © REUTERS / Adriano Machado
    Presidente do Brasil, Jair Bolsonaro (à direita), conversa com o ministro da Economia, Pulo Guedes (à esquerda) e com o vice-presidente, Hamilton Mourão (centro), no Palácio do Planalto, Brasília, 12 de janeiro de 2021

    A postura espanhola de criticar Bolsonaro pela política ambiental, mas apoiar Guedes na sua pauta econômica, não é contraditória, acredita Araujo.

    "A Espanha está sendo coerente com seus interesses políticos e econômicos e [...] a contradição está no governo brasileiro, que enxerga a economia e o meio ambiente como áreas antagônicas", argumentou Araujo.

    Segundo ela, "as críticas do governo espanhol à condução brasileira das questões sobre o meio ambiente estão em sintonia com as expectativas de seus cidadãos e consumidores".

    No entanto, o interesse nas privatizações e apoio às reformas podem não ser suficientes para garantir um bom relacionamento entre Madrid e Brasília no médio prazo.

    "As perspectivas, infelizmente, não são amistosas", acredita Cunha. "Diria até que, futuramente, potencialmente difíceis."

    Araujo concorda, e lamenta que o Brasil tenha "rompido sistematicamente compromissos caros aos europeus [...] e isso está estremecendo as relações".

    Portanto, uma melhora do relacionamento entre os países dependeria de uma mudança "Por isso, acredito que as relações com a Espanha e com os demais países europeus dependem mais da postura do lado brasileiro, pelo menos nesse momento, para prosperarem", concluiu Araujo.

    As opiniões expressas nesta matéria podem não necessariamente coincidir com as da redação da Sputnik

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    Tags:
    Paulo Guedes, privatização, Pedro Sánchez, partido socialista, extrema direita, Vox, Eduardo Bolsonaro, Jair Bolsonaro, Amazônia, Espanha, Brasil
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