21:21 16 Janeiro 2021
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    Para analistas ouvidos pela Sputnik, o presidente brasileiro tem feito escolhas equivocadas de política externa, baseadas em ideologia, e constrói uma narrativa para atribuir unicamente a uma hipotética fraude a sua possível derrota na próxima eleição.

    Após os graves incidentes registrados na última quarta-feira (6) nos Estados Unidos, onde apoiadores do presidente Donald Trump promoveram um verdadeiro motim no Congresso, durante a certificação do pleito de novembro, vencido pelo democrata Joe Biden, o presidente brasileiro, Jair Bolsonaro, voltou a demonstrar apoio às alegações não comprovadas de que teria havido fraude nas eleições americanas.

    "Eu acompanhei tudo hoje [6]. Você sabe que sou ligado ao Trump. Então, você sabe qual a minha resposta aqui. Agora, muita denúncia de fraude, muita denúncia de fraude", disse Bolsonaro em conversa com seus eleitores no Palácio da Alvorada. 

    No mesmo contexto, o chefe de Estado do Brasil também voltou a afirmar que a eleição vencida por ele, em 2018, também foi objeto de irregularidades que lhe tiraram uma vitória ainda em primeiro turno. E, nesta quinta-feira (7), alertou para o risco de algo parecido com o que ocorreu ontem (6) nos EUA acontecer por aqui em 2022.​

    Mais uma vez, destacando sua suposta proximidade ao presidente Donald Trump, apesar de sua iminente saída da Casa Branca, Jair Bolsonaro opta por escolher um lado nessa acirrada disputa política norte-americana, ao contrário de outros chefes de Estado, que, em geral, preferiram adotar uma posição mais neutra e se limitaram a pedir um respeito à ordem democrática nos Estados Unidos. Tal posicionamento do presidente brasileiro, segundo analistas ouvidos pela Sputnik, além de não fazer muito sentido, pode trazer prejuízos importantes para o Brasil no médio prazo. 

    ​"Primeiro, eu acho que o presidente Bolsonaro está sendo vítima de uma desinformação. Acho que ele não percebeu exatamente o contexto atual, atualíssimo, da política norte-americana. De alguma forma, primeiro, o novo presidente, o presidente Biden, vai governar com algo que não existe, não acontecia nos Estados Unidos havia quase 30 anos. No primeiro governo [Bill] Clinton isso aconteceu: ele terá maioria nas duas casas, tanto no Senado como na Câmara dos Representantes. Esse fato dá ao presidente Biden uma tranquilidade para ter a nação norte-americana ao lado dele em suas decisões que o mundo inteiro notou", afirma, em entrevista à Sputnik Brasil, o especialista em relações internacionais Leonardo Trevisan, professor da Escola Superior de Propaganda e Marketing de São Paulo (ESPM/SP). 

    De acordo com Trevisan, está ocorrendo, neste momento, uma mudança profunda no cotidiano do exercício do poder nos Estados Unidos, algo que só o governo brasileiro parece não ter percebido. Ele destaca que, mesmo dentro do Partido Republicano, se criou uma divisão muito significativa entre o grupo que preferiu se manter ao lado de Trump e a ala ligada ao "poderoso" senador conservador Mitch McConnell, líder da maioria republicana no Senado, que defendeu o respeito à escolha dos eleitores americanos e às instituições democráticas. 

    "Talvez, o presidente Bolsonaro precisasse ter uma assessoria para assuntos internacionais mais ágil e, talvez, mais competente."

    Para o professor, ao colocar em dúvida a lisura do processo eleitoral em outro país, e, mais especificamente, na maior potência mundial, o chefe de Estado brasileiro tende a aumentar o isolamento do Brasil no cenário internacional, destino que líderes de outros países também aliados a Trump — Boris Johnson (Reino Unido), Benjamin Netanyahu (Israel) e Recep Tayyip Erdogan (Turquia) — conseguiram contornar ao evitar intromissões em assuntos internos dos EUA.

    "Quando nós olhamos para esse contexto, nós percebemos que há uma desorientação na política externa brasileira. O Brasil está bastante, digamos assim, mal informado sobre mudanças muito sérias."

    Pensando na próxima eleição presidencial brasileira, daqui a menos de dois anos, Trevisan argumenta que a tendência, internacionalmente, nesse período, é a de caminharmos para um "clima de pacificação". Até importantes nomes da direita radical, ele cita, já estão deixando de apostar na polarização. Nesse sentido, ele acha pouco plausível a ideia defendida por Bolsonaro de que o caos visto ontem (6) nos Estados Unidos tornará a ocorrer em um cenário tão diferente como o que se desenha. 

    Rodrigo Prando, cientista político da Universidade Presbiteriana Mackenzie, lembra que não é novidade essa estratégia do presidente Bolsonaro de incitar dúvidas quanto à legitimidade do processo eleitoral. E faz isso, de acordo com o especialista, para, em última instância, colocar em dúvida a própria democracia. E, ao contrário do professor Trevisan, ele acredita que isso pode, sim, indicar um problema que o Brasil deverá enfrentar daqui a dois anos, no caso de um resultado eleitoral desfavorável ao atual chefe de Estado.

    "Isso, para a gente, já é um prenúncio do que pode vir a acontecer em 2022 caso o presidente Bolsonaro seja derrotado, enfim, não saia vitorioso da disputa pela reeleição", diz Prando, também em declarações à Sputnik. 

    A política externa do governo Bolsonaro substituiu, segundo o especialista da Mackenzie, toda a tradição, respeitada internacionalmente, da diplomacia brasileira. Em seu lugar, instituiu-se uma política baseada na ideologia pessoal do ministro das Relações Exteriores Ernesto Araújo, "que nunca escondeu também a sua predileção pelo Trump e pelos Estados Unidos". A grande questão, em sua opinião, é que presidentes, como é o caso de Bolsonaro, não devem ter amigos quando se trata de geopolítica e interesses nacionais, mas, sim, aliados de ocasião.

    "O fato é que Bolsonaro, seguindo a trajetória de seu chanceler e, na verdade, legitimando a trajetória do chanceler Ernesto Araújo, substituiu o pragmatismo, a relação cordial com outros países, por conta de valores ligados à ideologia. E isso, obviamente, atrapalha. Agora, esse aspecto também está ligado ao fato de que, sem dúvida nenhuma, o presidente Bolsonaro já está dando, aqui, a dica do que pode acontecer em 2022." 

    ​Em resumo, Prando acredita que, ao usar o caso dos EUA para falar do Brasil, o presidente brasileiro se dedica a construir uma narrativa segundo a qual sua eventual derrota nas próximas eleições só será possível por meio de fraude eleitoral, e não por meio de uma escolha legítima dos eleitores.

    "Agora, isso [as alegações de fraude de Bolsonaro e Trump] entra no campo da pós-verdade e, neste caso, as crenças pessoais, a visão de mundo passam a contar com mais importância do que os fatos e os dados da realidade. E a pós-verdade, quando ela é conjugada a fake news e teorias da conspiração, elas são perigosíssimas para o desenvolvimento de uma democracia, de uma sociedade." 

    As opiniões expressas nesta matéria podem não necessariamente coincidir com as da redação da Sputnik

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    Tags:
    Mitch McConell, Partido Republicano, Partido Democrata, Bill Clinton, Joe Biden, Ernesto Araújo, democracia, eleições, eleição, EUA, Donald Trump, Washington, Brasil, Estados Unidos, Jair Bolsonaro
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