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    Brasil luta contra COVID-19 no final de dezembro (60)
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    Após diversos países proibirem a chegada de voos do Reino Unido devido à nova cepa do coronavírus descoberta no país, a Sputnik conversou com um pesquisador para saber quais os riscos dessa nova vertente e que medidas devem ser tomadas para evitar sua chegada ao Brasil.

    No último sábado (19), o governo do Reino Unido anunciou que não aliviará as medidas de restrição de circulação em seu território durante as festas de fim de ano. A decisão foi tomada com base em evidências de que uma nova cepa do vírus que provoca a COVID-19, o SARS-CoV-2, estaria circulando pelo país.

    Ontem (20), as autoridades sanitárias do Reino Unido afirmaram que a nova variante do vírus, chamada de B.1.1.7., estava "fora de controle", o que justificaria o aumento das restrições durante o feriado. Além disso, depois que o governo britânico informou que a nova cepa do vírus estava circulando no país, mais de 40 nações barraram os voos vindos do território britânico.

    ​A Organização Mundial da Saúde (OMS), por outro lado, assinalou hoje (21) que a nova variante não está fora de controle. O diretor de Emergências da entidade, Michael Ryan, disse que a cepa detectada no Reino Unido pode ser detida, mas ressaltou que seria "prudente" a imposição de restrições, com base no princípio da precaução.

    Segundo o diretor-geral da OMS, o etíope Tedros Adhanom Ghebreyesus, a "nova variante é transmitida com mais facilidade, mas não há evidências, até o momento, de que seja mais provável que ela cause doença grave ou mortalidade".

    Em entrevista à Sputnik Brasil, o virologista do Centro de Tecnologia de Vacinas e pesquisador do Departamento de Microbiologia da Universidade Federal de Minas Gerais (UFMG), Flávio Guimarães da Fonseca, segue na mesma linha da afirmação do diretor da OMS de que não há evidências de que essa nova variante seja mais patogênica que o vírus originário.

    "Não se trata exatamente de um novo vírus, ele surgiu há alguns meses e só agora se tornou prevalente em algumas populações, como por exemplo no Reino Unido. Ele, no entanto, não causa uma alteração nos quadros de virulência, ou seja, a pessoa que adquire essa nova variante do SARS-CoV-2 não fica mais doente, mas ele tem sim um aspecto que o torna mais perigoso, que é o fato de que ele entra na célula humana hospedeira com mais eficácia e, consequentemente, se reproduz mais dentro dessas células. Em outras palavras, ele tem um potencial de disseminação maior em relação a outras amostras do SARS-CoV-2, o que traz um potencial de espalhamento mais grave", opina Flávio.

    Para o pesquisador da UFMG, as medidas que devem ser adotadas para evitar a propagação dessa nova cepa são idênticas às que já vêm sendo tomadas desde o começo da pandemia, como "manter o distanciamento social, utilizar máscara e outras intervenções não farmacológicas que já vêm sendo utilizadas".

    Contudo, Flávio esclarece que, em termos de manutenção e de vigilância sanitária para a saúde pública, talvez fosse importante limitar o trânsito de pessoas de países onde já existe uma prevalência muito alta dessa nova variante, exatamente por causa de sua capacidade de se disseminar de forma mais rápida.

    "Em um país onde a epidemia está absolutamente descontrolada como o Brasil, o vírus que se dissemina mais eficazmente não é uma boa notícia. No entanto, eu acredito que não adianta fechar a fronteira com o Reino Unido, se essa nunca foi uma política sanitária brasileira, e se esse vírus também está circulando em outros países. Seria necessário fechar com todos esses outros países, o que é uma decisão difícil", destaca o especialista.

    Ao ser questionado se o Brasil teria condições de detectar essa nova cepa se ela já estivesse circulando no país, Flávio afirmou que existem profissionais e laboratórios brasileiros capacitados para essa tarefa, mas que seria necessário um aporte maior de recursos para a aquisição de insumos que permitam uma análise em massa, pois são testes caros que demandam equipamentos e pessoal especializado, o que não é trivial.

    "Para monitorar a chegada do vírus, a ação seria mais complexa do que um exame de PCR, pois não basta fazer uma reação de PCR para saber se a pessoa está infectada ou não, é preciso fazer o sequenciamento do genoma, do RNA, que é detectado pelo PCR. Só assim é possível detectar as assinaturas, as mutações, que são típicas dessa nova variante. Só assim seria possível fazer o monitoramento para saber se esse vírus está circulando no Brasil e com qual intensidade", esclarece o especialista.

    Flávio assinala que os únicos laboratórios que podem realizar esse monitoramento são os de pesquisa, como os da Fiocruz, do Instituto Butantan e de universidades. Além disso, o pesquisador ressalta que o Ministério de Ciências, Tecnologia, Inovações e Comunicações já tem uma rede chamada "Rede Vírus", que tem o sequenciamento em massa como um de seus projetos e está entrando em serviço. O momento não seria mais oportuno, no entanto, por se tratar de um projeto caro, o mesmo depende da aplicação de recursos proporcionais, avalia o especialista.

    Por fim, o pesquisador da UFMG ressalta que as mutações nos vírus são esperadas, e que é preciso evitar um certo alarmismo em relação à nova cepa, pois trata-se de um comportamento natural desses organismos.

    "É importante que se mantenha a atenção a essas novas variantes que vão surgindo, mas sem alarme excessivo. É natural que os vírus sofram mutações, é assim que eles existem entre nós e são os organismos mais abundantes na face da Terra", conclui Flávio Guimarães da Fonseca. 

    As opiniões expressas nesta matéria podem não necessariamente coincidir com as da redação da Sputnik

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    Tags:
    mutação, Brasil, pandemia, COVID-19
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