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    Entre espionagem, notícias falsas e tarifas comerciais, as relações entre Austrália e China se deterioram a olhos vistos. Saiba qual papel de Washington e o que as potências asiáticas precisam fazer para sair dessa crise.

    Em 2020, a relação entre a China e a Austrália atingiu o nível mais baixo de sua história, contaminada por acusações de má gestão da pandemia, espionagem e imposição de restrição a investimentos.

    A mais recente escalada girou em torno de uma postagem feita pelo porta-voz do Ministério das Relações Exteriores da China, em 30 de novembro, com uma foto montada sobre a conduta de soldados australianos no Afeganistão.

    Antes disso, em 27 de novembro, a China havia imposto restrições comerciais contra vinhos produzidos na Austrália. O ministro do Comércio australiano, Simon Birmingham, classificou a ação de "injusta", parte de uma "estratégia deliberada" da China para pressionar Camberra.

    Vinhos australianos à venda em loja de Pequim, China, 27 de novembro de 2020
    © REUTERS / Florence Lo
    Vinhos australianos à venda em loja de Pequim, China, 27 de novembro de 2020

    A decisão deve provocar grande prejuízo à Camberra, que exporta mais de US$ 900 milhões (cerca de R$ 4 bilhões) em vinhos para o parceiro asiático, seu principal mercado.

    Mas a Austrália também tomou várias medidas consideradas hostis por Pequim, como o bloqueio de dez projetos de investimento, além do cancelamento de vistos a estudantes e jornalistas chineses.

    Por que as relações entre Pequim e Camberra atingiram um nível tão baixo? Quem sai mais prejudicado e quais os riscos dessa confrontação?

    A Sputnik Brasil conversou com sinólogos para compreender a crise sino-australiana e como esses países podem superar a má fase.

    Atendentes de casa de câmbio chinesa no aeroporto de Melbourne, Austrália, 5 de março de 2020
    © AFP 2021 / William West
    Atendentes de casa de câmbio chinesa no aeroporto de Melbourne, Austrália, 5 de março de 2020

    Em primeiro lugar, a crise não é hoje, mas se estende desde meados de 2012:

    "Observamos um incômodo por parte de Camberra desde a posse de Xi Jinping e o maior engajamento da China na política internacional", disse a mestra pela Escola de Guerra Naval e editora da plataforma Shumian, Rita Feodrippe, à Sputnik Brasil.

    O ponto crítico no relacionamento, no entanto, pode ter sido atingido com "a disputa do 5G e a guerra comercial-tecnológica travada pelo governo Trump contra a China", acredita Feodrippe.

    Em 2018, a Austrália baniu as empresas chinesas Huawei e ZTE de sua rede nacional de 5G, causando consternação em Pequim.

    "A Austrália também embarcou na questão da 'origem do vírus' e na condenação [...] da China como um 'país irresponsável que não controlou a pandemia'", disse o mestre em economia pela Universidade de Pequim e editor sênior da plataforma Shumian, Jordy Pasa, à Sputnik Brasil.

    Interdependência

    Apesar dos atritos, Austrália e China mantêm relações comercias estreitas e dividem o espaço geopolítico do sudeste asiático.

    "A Austrália é uma grande nação mineradora, que fornece carvão e minério de ferro para a China, estando a uma distância marítima próxima", notou Feodrippe.

    Além disso, a Austrália, é um dos "mais importantes fornecedores de itens e commodities alimentares" de Pequim, mantendo "posição relevante para a [...] segurança alimentar chinesa", lembrou Pasa.

    Locais preparam petiscos em mercado de rua de Wuhan, Hubei, 6 de dezembro de 2020
    © REUTERS / Aly Song
    Locais preparam petiscos em mercado de rua de Wuhan, Hubei, 6 de dezembro de 2020

    "Com uma população cada vez mais rica de mais de um bilhão de pessoas e limitações ambientais e materiais relevantes, os chineses vêm dependendo cada vez mais de importações para suprir suas necessidades alimentares domésticas", disse o sinólogo.

    No entanto, a China tem "alternativas viáveis" à Austrália para garantir seu suprimento de alimentos, ampliando as compras de parceiros na África e na América do Sul, notou Pasa. 

    Por outro lado, "a Austrália é a economia desenvolvida com maior nível de dependência da China no mundo".

    "A economia australiana, que enfrenta sua primeira recessão em três décadas, está em posição vulnerável e não pode se dar ao luxo de abrir mão de um parceiro tão importante quanto a China", acredita Pasa.

    Para ele, "a Austrália conta com muito menos recursos para lidar com essa crise do que os chineses, portanto, arrisca muito mais com as hostilidades com Pequim do que o contrário".

    Triângulo com os EUA

    Os sinólogos são unânimes ao considerar que a influência dos EUA é fator essencial para compreender as desavenças entre a Austrália e a China.

    "A questão não é estritamente bilateral, há uma influência fundamental vinda de Washington sobre a atual crise sino-australiana", disse Pasa.

    De acordo com Feodrippe, a "Austrália é um dos membros do QUAD, Quadrilateral Security Dialogue (Diálogo Quadrilateral de Segurança, na tradução), capitaneado pelos Estados Unidos", uma "iniciativa clara de contenção da China na região".

    USS Nimitz (CVN 68) navega ao lado do porta-aviões destacado da Marinha dos EUA USS Ronald Reagan (CVN 76, não está na foto) no mar do Sul da China, 6 de julho de 2020
    © AP Photo / Kimani J. Wint / Marinha dos EUA
    Porta-aviões USS Ronald Reagan e USS Nimitz dos EUA no mar do Sul da China

    Além disso, "Camberra também compõe o FVEY [Five Eyes, ou 'cinco olhos', em português], uma aliança de inteligência e compartilhamento de informações estratégicas, que conta com Canadá, Nova Zelândia, Reino Unido e Estados Unidos", lembrou a especialista. 

    Portanto, "há a percepção chinesa de que é necessário manter uma política de boa vizinhança com os australianos, pois sua posição geográfica é estratégica para a atuação de outros países aliados na região (principalmente, Estados Unidos e Reino Unido)".

    "Do ponto de vista estratégico-militar, a Austrália [...] pode servir como ponto de apoio logístico para frotas aeronavais de seus aliados ocidentais", explicou Feodrippe.

    Pasa concorda, e considera que "aos olhos de Pequim não há nenhum cenário em que a Austrália não se aliaria ao Ocidente em caso de operações militares contra a China".

    Saídas para a crise

    As potências asiáticas ainda têm como se desvencilhar da crise, evitando um enfrentamento na Ásia-Pacífico.

    "A Austrália, como parte mais vulnerável nessa crise, precisa dar o primeiro passo", acredita Pasa.

    "Reverter o banimento da Huawei na construção da rede 5G australiana, caso ainda possível, pode ser um bom começo: uma decisão como essa sinalizaria uma disposição mais concreta por parte do país em restaurar as relações com os chineses", acredita o sinólogo.

    © AFP 2021 / Patrick Hamilton
    Grupo de ballet sino-australiano ensaia em Brisbane, Austrália, 3 de setembro de 2020

    Nesse cenário, a China talvez pudesse se retratar "pelo episódio recente do compartilhamento em redes sociais da imagem do soldado australiano e da criança afegã por um oficial do Ministério das Relações Exteriores da China e [retirar] novas tarifas sobre importações de vinhos australianos", acredita Pasa.

    Para Feodrippe, a "aposta é que o recém-acordo da Parceria Econômica Regional Abrangente (RCEP) sirva também como plataforma multilateral para reaproximação da China e da Austrália".

    Em 15 de novembro, os dez países da Associação de Nações do Sudeste Asiático (ASEAN), mais a China, Japão, Coreia do Sul, Nova Zelândia e Austrália, firmaram o RCEP, um acordo de comércio ambicioso, que abrange cerca de 35% do PIB mundial.

    Líderes durante 4º reunião da Parceria Econômica Regional Abrangente (RCEP), conduzida por videoconferência a partir de Hanói, Vietnã, 15 de novembro de 2020
    © REUTERS / Kham
    Líderes durante 4º reunião da Parceria Econômica Regional Abrangente (RCEP), conduzida por videoconferência a partir de Hanói, Vietnã, 15 de novembro de 2020

    Pasa, no entanto, lembra que não haverá melhora nas relações se os países não agirem de maneira independente na arena internacional.

    "É importante [...] que os australianos trabalhem para construir um posicionamento de mais independência em relação aos estadunidenses", disse Pasa. "Se não for assim, será difícil para os chineses dissociarem o país dos Estados Unidos em seus cálculos de segurança nacional", concluiu o sinólogo.

    Austrália e China estabeleceram relações diplomáticas em 1972. Desde meados da década de 2010, a China é o principal parceiro econômico de Camberra, absorvendo cerca de 33% de suas exportações, de acordo com dados do Departamento de Relações Exteriores e Comércios da Austrália. 

    As opiniões expressas nesta matéria podem não necessariamente coincidir com as da redação da Sputnik

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    Tags:
    China, Austrália, EUA, crise, diplomacia, comércio, tarifas, Associação de Nações do Sudeste Asiático (ASEAN), Segurança Alimentar
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