23:59 26 Outubro 2021
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    Coronavírus no Brasil no início de dezembro (59)
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    Especialistas ouvidos pela Sputnik Brasil se manifestaram sobre as ações anunciadas pelo futuro secretário de Saúde do Rio de Janeiro contra o surto do novo coronavírus na cidade, explicando que, talvez, essas medidas não sejam suficientes.

    O futuro secretário municipal de Saúde do Rio de Janeiro, Daniel Soranz, anunciou ontem (30) algumas ações que deverá tomar assim que assumir o cargo, em janeiro, para enfrentar o surto da COVID-19 na capital fluminense.

    As medidas planejadas são: oferta de testes de maneira desburocratizada em todas as unidades de saúde, busca por parcerias para dar celeridade aos resultados dos exames, capacitação de equipes para rastreamento de contatos dos pacientes e interrupção da cadeia de transmissão, reabertura de leitos, abastecimento das unidades de saúde com medicamentos, parcerias com universidades para realizar levantamentos epidemiológicos, integração com a assistência social, investimento na área de saúde mental, retomada de cirurgias eletivas e preparação da cidade para a campanha de vacinação contra a doença.

    Ao apresentar o seu secretário de Saúde, o prefeito eleito, Eduardo Paes, afirmou, citado pela Agência Brasil, que a população carioca "está desamparada em meio à pandemia da COVID-19". Segundo dados do Ministério da Saúde, o Rio de Janeiro possui atualmente a maior taxa de mortalidade entre as capitais do país: 198 óbitos por 100 mil habitantes. 

    Novas medidas são corretas, mas, possivelmente, insuficientes​

    Ao analisar, a pedido da Sputnik Brasil, as medidas anunciadas pelo novo governo, a especialista em saúde pública Ligia Bahia, professora da Universidade Federal do Rio de Janeiro (UFRJ), explicou que, embora as mesmas sejam corretas, elas serão "possivelmente, insuficientes", por estarem mais "voltadas para o tratamento de casos do que para redução da transmissão" em si. 

    "O futuro secretário não faz referência à necessidade de fechamento de bares, restaurantes, academias de ginástica, eventos e controle do horário e fluxo de pessoas em transportes coletivos e no comércio. Além disso, seria importante convocar desde já um comitê científico para que as decisões da prefeitura sejam orientadas pela situação de saúde", disse a especialista.

    Apesar das limitações, Bahia considera "louvável" a mudança no tom e no conteúdo da nova gestão em relação à atual. Segundo ela, Soranz, médico e pesquisador da Fundação Oswaldo Cruz (Fiocruz) que já chefiou a pasta municipal entre 2014 e 2016, "tem conhecimento sobre o tema".

    Para a professora, Paes tem razão ao criticar a condução da pandemia no Rio pela administração de Marcelo Crivella, cujos erros, de acordo com ela, "se expressam nas elevadíssimas taxas de mortalidade". 

    ​"A população carioca se viu muito exposta ao contágio em função de políticas incorretas, prioridade às atividades econômicas e não à preservação das vidas. Houve um processo caótico, praticamente não tivemos lockdown, os transportes públicos e inúmeros trabalhadores circularam no momento de altas taxas de transmissão da COVID-19 e, posteriormente, foram reabertas atividades não essenciais. A redução da renda dos indivíduos e famílias em função do desemprego não foi objeto de políticas sistêmicas — até hoje, as crianças que moram em favelas e bairros periféricos não têm acesso de qualidade à Internet. A organização dos serviços de saúde foi tardia e inadequada, e o atual Prefeito chegou a alocar equipamentos caros e estratégicos para o diagnóstico de casos graves em igrejas e não em unidades de saúde", argumenta a acadêmica.

    Prefeitura pode precisar de ações para além da área de saúde

    Guilherme Werneck, médico epidemiologista e professor do Instituto de Medicina Social da Universidade do Estado do Rio de Janeiro (UERJ), também vê uma "mudança substancial" entre o que tem sido feito contra o novo coronavírus na cidade do Rio até agora e o que "poderá ser feito mais adiante", pela nova administração.

    Também em entrevista à Sputnik Brasil, o especialista afirma que, em teoria, são muito positivas as ações anunciadas pelo novo governo, porém, é preciso aguardar um detalhamento desses planos para se ter uma ideia de como essas medidas serão colocadas em prática.

    "Eu diria que são indicativos ainda genéricos. E eu entendo que é assim que tem que ser, porque ele ainda vai precisar conversar, especificar melhor essas questões. Mas é um leque de ações em que todas elas fazem sentido", afirma.

    O especialista concorda com Soranz sobre a necessidade de se aumentar a testagem na população carioca, aumentar o número de convênios e parcerias com instituições de pesquisa, reabrir leitos e melhorar as condições de atenção básica. Todos os aspectos apontados, segundo ele, são "muito importantes", e indicam que tudo que foi feito até agora está muito abaixo do necessário para um enfrentamento eficaz do surto na cidade.

    "É claro que, quando o futuro secretário apresenta um leque tão ampliado de coisas que precisam ser feitas, é porque pouco foi feito de forma séria para o enfrentamento da pandemia no Rio de Janeiro", afirma.

    Para Werneck, as parcerias que a nova administração pretende firmar com universidades e institutos serão um dos pontos fundamentais em termos de planejamento dos detalhes das medidas a serem implementadas no ano que vem na capital fluminense, uma vez que os problemas a serem encarados são muitos e exigem um trabalho em conjunto. 

    "Então, existe uma parte relacionada a insumos, mas existe uma outra parte, muito importante, que é a contribuição que essas universidades e instituições têm para pensar, por exemplo, a organização de serviços de saúde, a necessidade de ampliação ou não de leitos e profissionais de saúde para o enfrentamento não só da epidemia no campo hospitalar, mas também na atenção primária e também no campo da vigilância epidemiológica - o que pode ser feito para tentar melhorar, digamos assim, a ação de controle da epidemia." 

    ​Assim como a professora Ligia Bahia, o epidemiologista da UERJ destaca que é preciso ter em mente que, embora essenciais, as medidas anunciadas pelo futuro secretário de Saúde podem, realmente, não ser o bastante, dado o "momento crítico" em que o Rio de Janeiro se encontra.

    "Nós estamos vendo um aumento no número de casos e óbitos de COVID-19 neste momento, chegando no final do ano em uma situação em que as pessoas estão se encontrando cada vez mais. E é importante que a prefeitura tenha também algumas palavras a dizer sobre que ações pretende fazer em termos de educação em saúde, comunicação sobre a pandemia e, eventualmente, restrições de algum tipo de atividade que aumente o risco de transmissão. A situação é muito crítica e somente ações na área da saúde podem ser insuficientes para o enfrentamento da epidemia nos próximos meses."

    As opiniões expressas nesta matéria podem não necessariamente coincidir com as da redação da Sputnik

    Tema:
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    Tags:
    Brasil, Rio de Janeiro, pandemia, epidemia, Eduardo Paes, prefeito, cidade, secretário, saúde, COVID-19, novo coronavírus
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