08:55 19 Abril 2021
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    Discurso de Eduardo Paes (DEM) após ser eleito prefeito do Rio de Janeiro, embora não tenha citado o presidente diretamente, marcou posição contra bolsonarismo, disse cientista política à Sputnik Brasil.

    O ex-prefeito da capital fluminense obteve 64,07% dos votos válidos (1.629.319), enquanto Marcelo Crivella (Republicanos) ficou com 35,93% (913.700) e não conseguiu se reeleger. 

    Para a cientista política Alessandra Maia Terra de Faria, o Rio de Janeiro ainda vive uma "sensação de ressaca muito forte" com a eleição de 2018. "A cidade, infelizmente, tornou-se o berço do bolsonarismo, um entremeado de milícia com uma tentativa muito forte de setores religiosos, como o grupo de Crivella, de usar a religião para convencer seus fiéis a votarem naquilo que seus líderes recomendam", disse.

    Nesse sentido, ela avalia que, com a vitória de Paes, o "Rio vence uma etapa importante". Segundo a professora da PUC-Rio e da UFFRJ (Universidade Federal Rural do Rio de Janeiro), em seus discurso após ser declarado eleito, feito ao lado do presidente da Câmara, Rodrigo Maia (DEM-RJ), o ex-prefeito "marcou uma posição contra o bolsonarismo".  

    "Ainda que não tenha falado explicitamente do presidente, ele buscou se identificar como algo que vai no sentido oposto da negação da política que o Crivella e o presidente Jair Bolsonaro representam", opinou. 

    Abstenção foi maior que votação de Paes

    "Foi uma vitória da política", disse Paes em seu pronunciamento. "Passamos os últimos anos radicalizando a política brasileira. O resultado desses quadros de extremos, de muito ódio, de muita divisão, não fez bem a nenhum de nós cariocas e brasileiros", acrescentou. 

    Para a especialista, a conquista de Paes, embora não seja uma vitória do campo progressista, "foi um ajuste que mostrou ao bolsonarismo que ele não está com o suporte que já recebeu anteriormente". 

    Para a cientista política Clarisse Gurgel, por sua vez, um dado marcante da eleição do Rio de Janeiro foi a alta abstenção, que, no segundo turno, alcançou 35,45%, ou 1.720.154 ausentes, número maior do que a eleição do próprio Eduardo Paes, fenômeno que já tinha ocorrido no primeiro turno. 

    "O que traduz a política no Rio é muito menos o voto no Crivella e no Paes e mais a sensação de que não é nenhum dos dois. A eleição indica um desalento muito grande da população. Algo que é muito preocupante, que serve de alimento para aquilo que vem substituindo a política na cidade, que é a violência direta. Esses votos para o Crivella, principalmente, foram votos por coerção, o antigo voto de cabresto, o coronelismo urbano se expressa hoje pela milícia", lamentou a professora da Universidade Federal do Estado do Rio de Janeiro (Unirio). 

    Eleitorado caminhou para o centro

    Por outro lado, ela avalia que a eleição de um político do DEM, como Eduardo Paes, era algo previsível após Bolsonaro chegar ao poder, com uma polarização grande no país e um discurso extremista de rejeição à política. 

    "Esse voto na tradição já era um prognóstico para as eleições posteriores à vitória do Bolsonaro. Que era o prognóstico do eleitorado ir mais para o centro. Um voto na tradição, que se manifestou, evidentemente, em um voto no DEM e no PSDB, por exemplo", afirmou Gurgel.

    ​2022: Bolsonaro é 'incógnita'

    Apoiado por Bolsonaro, no primeiro turno Crivella chegou a ficar em empate técnico com outros candidatos, como Martha Rocha (PDT), mas o prefeito conseguiu ir para a segunda etapa. Na fase decisiva, a esperada transferência de votos não ocorreu. 

    No Rio de Janeiro, o prefeito e candidato à reeleição, Marcelo Crivella (Republicanos), vota de máscara, em meio à pandemia da COVID-19, durante as eleições municipais, em 15 de novembro de 2020
    © Folhapress / Futura Press / Saulo Angelo
    Apoiado por Bolsonaro, Marcelo Crivella não conseguiu se reeleger prefeito do Rio de Janeiro. Ele ficou com 35,93% dos votos, contra 64,07% de Eduardo Paes

    Para o cientista político Carlos Sávio Gomes Teixeira, professor do Departamento de Ciência Política da Universidade Federal Fluminense (UFF), "o bolsonarismo não conseguiu se consolidar como uma força política institucional". 

    Por outro lado, "do ponto de vista eleitoral, a gente não pode avaliar de forma muito precisa, porque ele não conseguiu sequer criar um partido e sua base social e ideológica ficou fragmentada em vários partidos menores", afirmou Sávio.

    "É uma incógnita como Bolsonaro vai se sair em 2022. Vai depender do desempenho de seu governo. Se ele chegar com avaliação positiva em torno de 30%, será um candidato competitivo. Mas a eleição municipal influenciou pouco. Se não podemos dizer que saiu derrotado, foi o primeiro presidente que ao se eleger, na Nova República, não conseguiu fazer sua força política aumentar nas eleições municipais seguintes", opinou o cientista político.

    As opiniões expressas nesta matéria podem não necessariamente coincidir com as da redação da Sputnik

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    Jair Bolsonaro, milícias, republicanos, DEM, Eduardo Paes, Marcelo Crivella, prefeitura, eleições, Rio de Janeiro
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