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    Brasil combatendo coronavírus no fim de novembro (45)
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    Uma nova prorrogação do auxílio emergencial vem sendo apontada como uma possibilidade após a pandemia dar sinais de crescimento no Brasil. Para discutir o assunto, a Sputnik Brasil ouviu a cientista política Clarisse Gurgel, que acredita que a questão se tornou um incômodo para o Planalto.

    Com o crescimento dos casos e mortes causadas pela pandemia da COVID-19 no Brasil, a possibilidade de uma nova prorrogação do auxílio emergencial tem rondado Brasília. O ministro da Economia, Paulo Guedes, chegou a admitir recentemente que a extensão do auxílio poderia ocorrer, mas depois voltou atrás dizendo que acredita que "a pandemia está cedendo", como publicou o jornal Folha de São Paulo. Na terça-feira (24), ao ser questionado sobre a ideia, o presidente Jair Bolsonaro (sem partido), chegou a dizer a um apoiador que fosse "perguntar ao vírus", acrescentando que sua equipe espera que isso não seja necessário.

    Para Clarisse Gurgel, cientista política e professora da Universidade Federal do Estado do Rio de Janeiro (Unirio), a fala de Bolsonaro denuncia que a ideia do auxílio emergencial o incomoda.

    "O que ele sugere aí quando fala 'vai perguntar para o vírus' é que apenas um quadro extraordinário de pandemia obrigaria ele a fazer essa inflexão para o social. Só que, ao mesmo tempo, o que vai fazer com que ele atenda a essa demanda de auxílio emergencial não é propriamente o vírus, é muito curioso isso", afirma a professora em entrevista à Sputnik Brasil.

    Para Gurgel, a fala de Bolsonaro pode ser interpretada como um recado ligado ao aumento de sua popularidade em consequência da introdução do auxílio emergencial nos primeiros meses da pandemia. Segundo ela, o presidente não demonstra apreço por valores democráticos e a pressão por uma política social como o auxílio emergencial parte de assessores e da necessidade de garantir votos.

    "'Vai perguntar ao vírus' é 'vai perguntar ao eleitor'. O único capaz de imprimir essa inflexão social ao governo Bolsonaro é essa 'praga' chamada eleitor, que pode pressioná-lo, através dos assessores pela necessidade de uma pauta mais populista, uma pauta com apelo mais popular, mesmo que seja uma medida paliativa, sem grandes consequências na estrutura social do país", aponta, lembrando da recente aproximação do presidente com o Centrão, um apoio político fundamental para o governo.
    Presidente Jair Bolsonaro ao lado do ministro Paulo Guedes (Economia)  durante cerimônia de lançamento do programa de taxa fixa no crédito imobiliário da Caixa, no Palácio do Planalto
    © Folhapress / Pedro Ladeira
    Presidente Jair Bolsonaro ao lado do ministro Paulo Guedes (Economia) durante cerimônia de lançamento do programa de taxa fixa no crédito imobiliário da Caixa, no Palácio do Planalto

    Para a professora da Unirio, o retorno do auxílio emergencial pode impulsionar um novo aumento na popularidade do presidente, que já demonstra sinais de queda após a redução do valor do auxílio. Segundo ela, essa relação direta está ligada a um elemento de pragmatismo do eleitor brasileiro.

    "A gente encontra aí alguns aspectos que são da história da sociedade brasileira, um traço da consciência do povo brasileiro, que é de um pragmatismo muito grande, ao ponto de você conseguir entender como você faz um giro de um populismo de esquerda [...] para um giro radical para um populismo de direita", referindo-se à transição dos governos eleitos do PT para a gestão Bolsonaro. Segundo Gurgel, "tudo está no campo da formação política, muito precária, e que permite que essa consciência se limite ao que Bolsonaro exatamente quer".
    Em Santos, litoral do estado de São Paulo, pessoas transitam de máscara em meio à pandemia da COVID-19 no Brasil, em 16 de agosto de 2020
    © Folhapress / Fernanda Luz / Agif
    Em Santos, litoral do estado de São Paulo, pessoas transitam de máscara em meio à pandemia da COVID-19 no Brasil, em 16 de agosto de 2020

    Com a percepção de aumento de popularidade do governo, a equipe de Bolsonaro chegou a pensar propostas para dar seguimento ao auxílio, remodelando o Bolsa Família. No entanto, propostas como o Renda Cidadã e o Renda Brasil tiveram problemas na articulação política após divergências na proposta de financiamento do possível programa. Para Gurgel, essa posição é encontrada também em outros países do Ocidente, e é fruto das relações econômicas, nas quais o emprego tem como finalidade principal impulsionar o consumo.

    "O Bolsonaro, como qualquer outro governo na pandemia, está encarregado de gerar no mínimo uma política de créditos e de facilitações para empreendimentos para que se sustente alguma taxa de consumo e, portanto, alguma taxa de lucro. Do ponto de vista político e do ponto de vista econômico a gente vai entender que as políticas sociais, mesmo que sejam de fachada, elas são políticas fundamentais para o patamar de consciência não só do povo brasileiro como do povo como um todo nesse modelo de democracia ocidental", avalia, acrescentando que a promoção de valores de solidariedade é uma forma de minar essa situação e ampliar a consciência política.

    As opiniões expressas nesta matéria podem não necessariamente coincidir com as da redação da Sputnik

    Tema:
    Brasil combatendo coronavírus no fim de novembro (45)

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    Tags:
    COVID-19, Paulo Guedes, Brasil, Jair Bolsonaro
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