20:44 05 Dezembro 2020
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    Após críticas de Barack Obama ao Brasil, a Sputnik ouviu dois especialistas sobre a possibilidade de as declarações do ex-presidente americano indicarem algo sobre a agenda do futuro governo dos EUA.

    Em entrevista à Folha nesta semana, por ocasião do lançamento de seu novo livro de memórias, "Uma Terra Prometida", o ex-presidente americano Barack Obama, ao comentar sobre Luiz Inácio Lula da Silva, disse que o ex-chefe de Estado brasileiro "era uma presença dominante na política brasileira e uma figura influente no palco mundial", mas que, ao mesmo tempo, "sempre havia rumores girando em torno dele sobre clientelismo". Para Obama, está claro também que "o Brasil ainda tem problemas profundos com a corrupção sistêmica" e ele espera que "o trauma político recente possa levar a um tipo diferente de política" no país. 

    Os então presidentes de Brasil e EUA, Luiz Inácio Lula da Silva e Barack Obama, se cumprimentam durante encontro do G20 na Coreia do Sul (arquivo)
    © AP Photo / Eric Feferberg / Pool
    Os então presidentes de Brasil e EUA, Luiz Inácio Lula da Silva e Barack Obama, se cumprimentam durante encontro do G20 na Coreia do Sul (arquivo)

    Depois de participar mais ativamente da campanha de Joe Biden, sobretudo na reta final, Obama também tem estado nos holofotes por conta de uma série de análises que tem feito em declarações à imprensa sobre os rumos da política e da democracia nos Estados Unidos. 

    Apesar de sua proximidade ao presidente eleito, que foi seu vice de 2009 a 2017, e de sua relevância para os debates internos e internacionais, analistas ouvidos pela Sputnik Brasil acreditam que Barack Obama deve seguir a tradição e adotar uma postura discreta em relação à provável nova administração na Casa Branca, evitando eventuais ou aparentes interferências no governo Biden. 

    ​"Não é tradição nos Estados Unidos que os ex-presidentes se envolvam muito na política partidária e nos governos do seu próprio partido. Há muito mais uma tendência de que eles fiquem dedicados a atividades filantrópicas, que desenvolvam seus próprios projetos sociais. No caso do Obama, isso tem sido, sobretudo, por meio da sua fundação, que tem desempenhado uma série de atividades ligadas a políticas sociais, a políticas para a juventude, mas também no seu trabalho como escritor, como comentarista político. E ele tem se manifestado muito, sistematicamente, em levantar os riscos para a democracia americana", afirma, em declarações à Sputnik o professor Mauricio Santoro, do Departamento de Relações Internacionais da Universidade do Estado do Rio de Janeiro (UERJ). 

    Para o acadêmico, as observações de Obama quanto à política brasileira não teriam ligação com a agenda na qual a equipe de Joe Biden vem trabalhando para o Brasil, dizendo respeito apenas ao seu livro de memórias, que faz algumas menções ao país sul-americano. Ainda assim, de acordo com o professor, é possível destacar semelhanças entre as posições do ex-presidente e de seu ex-vice em relação ao Brasil.

    "No que diz respeito ao governo Biden, a agenda que vem sendo anunciada para o Brasil não é tanto uma agenda de corrupção. É uma agenda voltada para questões da Amazônia, do meio ambiente, da mudança climática. O que existe em comum entre as duas posições é uma visão mais crítica do Brasil, ainda que, claro, o cenário do Brasil de hoje, com o presidente [Jair] Bolsonaro, com uma outra orientação política no país, é totalmente diferente do que era no período do governo Obama, há dez, 12 anos."

    Embora descarte uma interferência de Obama no novo governo, Santoro considera plausível que pessoas que estiveram junto com o ex-presidente durante sua gestão sejam chamadas para compor de alguma forma a nova administração. 

    "Não é tanto a questão da interferência pessoal do Obama no governo Biden, mas, provavelmente, o que nós veremos serão muitas pessoas que trabalharam no governo Obama voltando, agora, para a Casa Branca, voltando para os ministérios, para as agências públicas americanas agora, com o Biden, que, claro, foi o vice do Obama durante os oito anos do governo anterior." 

    Vinícius Guilherme Rodrigues Vieira, especialista em relações internacionais da Fundação Armando Alvares Penteado (FAAP), também não vê motivos para imaginar que o ex-presidente Obama, apesar de seu "carisma" e de sua "projeção internacional", possa romper com a tradição e participar de alguma forma, mesmo que informal, do novo governo dos EUA. 

    Também em entrevista à Sputnik Brasil, o professor ressaltou que, na tradição norte-americana, ex-presidentes costumam ser convocados apenas para missões muito pontuais, como aconteceu quando Bill Clinton e George W. Bush juntaram esforços para arrecadar fundos em socorro ao Haiti, atingido, em 2010, por um intenso terremoto que devastou o país. Nesse sentido, Vieira acredita que Obama possa ser convidado para alguma missão específica, como de promoção da democracia ao redor do mundo ou algo parecido.

    "Talvez, nós tenhamos aí Obama como uma espécie de embaixador informal, sem, obviamente, ocupar nenhum cargo — deixo isso muito claro, vejo essa hipótese remotíssima, para não dizer impossível —, e, assim, contribuir para com o governo de seu ex-vice-presidente", opina.

    Mesmo também descartando, portanto, uma influência mais direta do ex-presidente americano sobre o governo de seu colega democrata, o analista da FAAP admite ver mais do que uma simples conversa sobre sua obra literária nas declarações do ex-chefe de Estado sobre o Brasil.  

    Considerando a participação de Barack Obama na eleição de Joe Biden e Kamala Harris, o especialista acredita que o ex-presidente pode ter aproveitado a situação para fazer sinalizações importantes ao Brasil. Em primeiro lugar, que os problemas de corrupção por aqui não são restritos aos escândalos envolvendo o Partido dos Trabalhadores e que o país precisa fazer algo contra isso. E, em segundo lugar, que os Estados Unidos, sob Joe Biden, terão interesse em uma reaproximação com o Brasil, que poderá ser um aliado estratégico naquele que deve ser o foco da política externa do novo presidente: conter a China.

    "A contenção da China será uma prioridade no governo Biden, embora os métodos devam ser distintos. Talvez, haja, aí, um retorno ao multilateralismo. E os Estados Unidos vão precisar de aliados. E, claramente, o governo Bolsonaro, hoje, não está disposto."

    Para Vinícius Vieira, "vem a calhar" a colocação de Obama sobre esse "desafio que o Brasil enfrenta" com a corrupção, deixando implícita uma disposição do próximo governo americano em cooperar com o país "para superar os seus problemas".

    "Obama também foi entrevistado pelo programa Conversa com Bial, da Rede Globo, na última segunda-feira (16), de segunda para terça-feira (17). E, ali — eu vi a entrevista —, também me pareceram interessantes outras analogias que ele fez entre Brasil e Estados Unidos, principalmente na questão racial, a questão dos desafios que os países enfrentam. Ou seja, vejo ali um aceno — se não ao governo Bolsonaro, pelo menos à opinião pública — de que Estados Unidos e Brasil têm desafios mútuos e, portanto, devem, independentemente dos governos de plantão, desenvolver uma agenda mútua."

    As opiniões expressas nesta matéria podem não necessariamente coincidir com as da redação da Sputnik

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    Tags:
    governo, relações bilaterais, Jair Bolsonaro, Barack Obama, China, EUA, Estados Unidos, Brasil, Joe Biden
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