13:40 02 Dezembro 2020
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    Dois projetos brasileiros de combate à malária foram premiados pela ONU durante a crise global do novo coronavírus e a Sputnik Brasil conversou com um especialista para saber mais detalhes sobre essa temida doença.

    As iniciativas dos municípios de Atalaia do Norte (AM) e Oeiras (PA) receberam na última semana o prêmio "Campeões contra a Malária nas Américas", concedido por duas agências da ONU, ao lado de outros projetos em Colômbia, Haiti e Honduras.

    As distinções foram entregues no Dia de Combate à Malária nas Américas pela Organização Pan-Americana da Saúde (OPAS) e pela Organização Mundial da Saúde (OMS). A escolha foi feita com base em vídeos dos projetos apresentados no fórum "Zerar a malária começa comigo: combata a COVID-19, proteja os trabalhadores de saúde e acabe com a malária".

    O projeto de Atalaia do Norte, no Amazonas, mostra a participação da comunidade na vigilância e no controle do vetor, além de ajudar a detectar a infecção e a buscar o tratamento com a população indígena. Já a iniciativa de Oeiras, no Pará, ajudou a reduzir a incidência de malária de 11 mil casos em 2018 para menos de mil casos este ano, fazendo com que o município caísse da terceira maior área endêmica da doença para a 27ª posição.

    Jarbas Barbosa, diretor da OPAS, disse que, apesar da pandemia de COVID-19, o apoio da agência no combate à malária segue mais forte do que nunca.

    A Sputnik Brasil conversou com o médico infectologista Marcus Lacerda, da Fundação de Medicina Tropical Dr. Heitor Vieira Dourado, em Manaus, no Amazonas, sobre a importância dessa premiação internacional no combate à malária, e também sobre as características da doença, que predomina na região amazônica no país. 

    O que é a malária e como a doença é transmitida?

    De acordo com Lacerda, a malária é contraída, quase sempre, quando um indivíduo é picado pelo vetor da doença, que é um mosquito do gênero Anopheles, comumente chamado de mosquito-prego no Brasil.

    "Geralmente a fêmea pica o indivíduo no período noturno, o que acaba sendo uma diferença para doenças como a dengue, em que o mosquito pica durante o dia. Excepcionalmente, em casos mais raros, pode haver a transmissão da doença por transfusão sanguínea, ou da mãe para o bebê, caso esta esteja infectada. Mas a maior parte dos casos se deve mesmo pelo contato com o mosquito transmissor" afirma o especialista.

    O infectologista ressalta que a malária não é uma doença contagiosa de pessoa para pessoa. Assim, para acontecer a transmissão, é necessário que um mosquito pique um indivíduo infectado e, depois de alguns dias, esse mesmo mosquito se torna apto a picar outra pessoa e transmitir a doença. "O contágio necessita de um ciclo que envolva uma pessoa doente e o mosquito, mas não há contágio de pessoa para pessoa", diz.

    Segundo Lacerda, a malária acontece no Brasil, quase em sua totalidade, na região amazônica, porque é onde existem as condições necessárias e ideais para a procriação do mosquito. Além disso, o fato de a umidade e a temperatura serem altas durante o ano todo favorecem a transmissão da doença.

    No entanto, o especialista acrescenta que há casos relatados fora da Amazônia, especialmente na região da Mata Atlântica, onde existe um tipo de vetor diferente.

    "Nessa região existem alguns poucos casos relatados de transmissões autóctones. Podemos dizer então que 99% dos casos acontecem na região amazônica. Além disso, há muitos casos relatados em outros países da América Latina que possuem floresta úmida, como Venezuela, Colômbia e Peru", destaca.

    A doença tem como principal característica a ocorrência de febre, que começa a se manifestar cerca de 14 dias após o contato do mosquito transmissor com a pessoa. Além da febre, que geralmente é muito alta, é comum a ocorrência de dores no corpo, tremores e calafrios. Caso a doença não seja diagnosticada a tempo, pode levar a complicações mais graves, inclusive à morte.

    "São complicações que podem acontecer no cérebro, nos pulmões, rins, fígado e isto é o que pode eventualmente levar ao óbito do paciente", comenta Lacerda.

    Portanto, o especialista alerta que qualquer caso de febre na região amazônica necessita de acompanhamento, pois há sempre a possibilidade de diagnóstico de malária.

    Por outro lado, Lacerda explicita que os casos mais graves são mais comuns na África, "onde o parasita predominante, o Plasmodium falciparum, causa morte com mais facilidade do que aqui no Brasil, onde a espécie do protozoário mais frequente, é o Plasmodium vivax, que é considerada uma espécie mais benigna da doença. Por isso, o número de mortes no Brasil é muito menor em comparação com a África".

    Campeões contra a Malária nas Américas

    Sobre as premiações recebidas pelos municípios de Atalaia do Norte e Oeiras, o infectologista da Fundação de Medicina Tropical Dr. Heitor Vieira Dourado assinala que ONU e OPAS têm premiado há alguns anos as localidades que tiveram destaque no controle da malária, para que as experiências bem-sucedidas sirvam de exemplo para outros lugares.

    "No caso de Oeiras, o que chama a atenção é que o município ficou durante quase três anos sem transmissão da doença, e como não havia malária, todo o programa de controle foi desfeito. No entanto, a doença acabou sendo reintroduzida, e esse é um grande desafio depois que a malária é eliminada, evitar a sua reintrodução. Isso aconteceu em Oeiras e, mesmo assim, o município enfrentou isso de forma exemplar, por isso foi premiado", diz.

    Para Lacerda, a premiação é muito positiva porque o município se vê reconhecido por seu esforço e ganha visibilidade em nível internacional. Além disso, as distinções são acompanhadas de vídeos que relatam um pouco da experiência do município, permitindo uma troca muito importante.

    Vista aérea do município de Atalaia do Norte (AM)
    © Foto / Nailson Tenazor / ABr / CC
    Vista aérea do município de Atalaia do Norte (AM)
    "No caso de Atalaia do Norte, a maior dificuldade é que se trata de um município cuja maioria da população é indígena, especialmente índios isolados, e também as grandes distâncias que devem ser percorridas pelos rios, especialmente o rio Javari. Mesmo com todos esses desafios, Atalaia do Norte conseguiu uma redução expressiva do número de casos da doença, o que é um primeiro grande passo para se atingir a meta principal que é a eliminação, ou seja, chegar a zero casos", acrescenta.

    Na opinião de Marcus Lacerda, enquanto houver um único caso de malária, existe sempre a chance de que esse caso se multiplique. Por isso, a grande meta, não só no Brasil, mas em todo o mundo, deve ser a eliminação da doença.

    "O combate à malária depende hoje da criatividade de cada município, pois as realidades são muito diferentes e nenhum município conseguirá controlar a doença usando uma fórmula mágica, é preciso adaptar as diretrizes do controle da doença para a sua realidade local e para a sua população. Só assim vamos conseguir uma eliminação da doença que seja sustentável e que vai garantir mais qualidade de vida para as pessoas no futuro", conclui o infectologista. 

    As opiniões expressas nesta matéria podem não necessariamente coincidir com as da redação da Sputnik

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    Tags:
    Região Amazônica, ONU, Organização Pan-Americana da Saúde (OPAS), OMS, Brasil, malária
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