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    Saiba por que o acordo de normalização de relações diplomáticas selado entre Israel e Sudão é tão importante para Tel Aviv e o que está em jogo para esse país árabe, considerado um bastião de apoio à causa palestina.

    No dia 20 de outubro, o presidente dos EUA, Donald Trump, anunciou ter mediado com sucesso um acordo de normalização de relações entre Israel e Sudão.

    Comemorado como uma grande vitória pelo governo israelense, o acordo com o Sudão é menos substantivo do que aqueles assinados entre Israel, Emirados Árabes Unidos (EAU) e Bahrein.

    Por enquanto, não haverá troca de embaixadas nem o estabelecimento oficial de relações diplomáticas.

    Presidente dos EUA, Donald Trump, conversa por telefone com líderes de Sudão e Israel na Casa Branca, Washington (EUA), 23 de outubro de 2020
    © AP Photo / Alex Brandon
    Presidente dos EUA, Donald Trump, conversa por telefone com líderes de Sudão e Israel na Casa Branca, Washington (EUA), 23 de outubro de 2020

    No entanto, o acordo está recheado de valor simbólico, uma vez que foi na capital do Sudão, Cartum, que os países árabes se comprometeram, em 1967, com a política dos "três nãos": não à diplomacia, não ao reconhecimento e não à paz com Israel.

    Em troca da normalização com Israel, o governo dos EUA acenou com a retirada do Sudão da lista de Estados financiadores do terrorismo, o que poderia fornecer algum alívio econômico para a economia do país árabe, em recessão há quase uma década.

    Os EUA, no entanto, ainda não retiraram o Sudão da lista e o assunto poderá ser objeto de debate no Congresso norte-americano.

    Mas por que o Sudão? Qual a importância para Israel de normalizar relações com um país tão turbulento?

    "O Sudão é prioridade para Israel e a normalização foi bastante comemorada em Tel Aviv", disse o coordenador da Rede China-África da Universidade de Oxford, Reino Unido, e conselheiro sênior do Instituto Europeu para a Paz, Harry Verhoeven, à Sputnik Brasil.

    Estratégia de Israel na África

    De acordo com Verhoeven, a política externa israelense para a África tem três eixos centrais: segurança, comércio e reconhecimento diplomático.

    "Israel tenta garantir que alguns países africanos parem de apoiar a causa palestina, de fornecer apoio à Autoridade Palestina, ao Hamas, à Jihad Islâmica e, mais recentemente, ao Hezbollah", explicou o especialista.

    Um outro objetivo que tem ganhado importância nas últimas décadas é "a defesa dos interesses comerciais".

    Família de imigrantes sudaneses em seu restaurante na região sul de Tel Aviv, Israel, 27 de outubro de 2020
    © AP Photo / Oded Balilty
    Família de imigrantes sudaneses em seu restaurante na região sul de Tel Aviv, Israel, 27 de outubro de 2020

    "Há um número crescente de empresas israelenses do ramo de alta tecnologia, manejo de recursos hídricos e [...] segurança, normalmente com ligações com o Estado de Israel [...] que expandem sua atuação não só na África Ocidental , mas também em países como Quênia, África do Sul e Angola", relatou Verhoeven.

    Mas um objetivo permanente de Israel é "a obtenção de reconhecimento diplomático por parte dos países africanos".

    "A causa palestina tem muito apoio na Assembleia Geral da ONU, e a África tem mais de cinquenta votos, um quarto do total", lembrou Verhoeven.

    Israel estaria empenhado em diminuir esse apoio à causa palestina na ONU estabelecendo relações diplomáticas com os países do continente africano.

    Reconhecimento de Israel

    Nos anos que se seguiram à criação do Estado de Israel, o país estabeleceu relações amistosas com muitos países da África.

    "Inicialmente [...] a situação era muito positiva, pois Israel era encarado como um Estado pós-colonial, um país que se libertava da opressão europeia", disse Verhoeven.

    "Havia uma grande simpatia, e Israel foi capaz de capitalizar e se posicionar como um país que compartilhava os mesmos interesses dos países africanos."

    No entanto, esse quadro "começou a mudar com as guerras de 1967 e 1973, depois das quais Israel é visto progressivamente como um país ocupante, como um aliado do imperialismo ocidental".

    Nesse contexto, "o número de países que reconheciam Israel declinou de forma acentuada, especialmente nos países muçulmanos", notou o especialista.

    Fiéis se reúnem para comemorar o feriado muçulmano do Eid al-Fitr, em Cartum, Sudão, 24 de maio de 2020
    © AP Photo / Marwan Ali
    Fiéis se reúnem para comemorar o feriado muçulmano do Eid al-Fitr, em Cartum, Sudão, 24 de maio de 2020

    Além disso, Israel teve relações próximas com o regime do apartheid na África do Sul, o que foi considerado "inaceitável para muitos países da África negra".

    Agora, "Israel tenta recuperar, ainda que devagar, esses reconhecimentos, o que explica os seus esforços para se aproximar de países como a Mauritânia e Sudão, e intensificar laços com a Eritreia, Etiópia e Quênia", explicou Verhoeven.

    E o Sudão com isso?

    Dentre os países do Norte da África, as relações entre Israel e Sudão têm sido particularmente ruins ao longo dos anos.

    "Desde a sua independência, o Sudão tem sido um dos principais opositores do Estado de Israel, fornecendo apoio à causa palestina de maneira bastante significativa", relatou Verhoeven. "É nesse sentido que a normalização com o Sudão é tão importante para os israelenses."

    Além disso, Sudão e Irã construíram "uma relação muito próxima", que incluía "a fabricação de armas e o apoio conjunto ao Hamas e ao Hezbollah e, até certo ponto, à Jihad Islâmica", contou Verhoeven.

    Nesse contexto, Israel tem interesse em cortar os vínculos entre o Sudão e grupos que considera hostis.

    "Israel tem realizado ataques aéreos e operações de inteligência na rota de suprimento de armas do Sudão do leste com direção à Faixa de Gaza", relatou o especialista.

    A rivalidade entre os dois países leva muitos a acusar Israel de ter favorecido a divisão do Sudão em dois países, com a independência do Sudão do Sul em 2011.

    Palestinos protestam contra a normalização de relações entre Sudão e Israel, na Cidade de Gaza, 24 de outubro de 2020
    © AFP 2021 / Said Khatib
    Palestinos protestam contra a normalização de relações entre Sudão e Israel, na Cidade de Gaza, 24 de outubro de 2020

    "É possível detectar sinais de apoio israelense [aos rebeldes do Sudão do Sul], mas não a ponto de afirmarmos que Israel é a causa do desmembramento do Sudão", acredita Verhoeven. "Israel pode ter jogado um pouco de lenha na fogueira, mas não começou o incêndio."

    Nesse sentido, o acordo de normalização "será um sinal poderoso para os demais países árabes", que fortalece o argumento de que "se o Sudão, um país com uma história tão longa de oposição à Israel, pôde assinar um acordo, qualquer um pode", disse Verhoeven.

    Incentivo econômico

    Segundo o especialista, o "Sudão tem sido alvo de sanções internacionais por muito tempo, sanções por vezes mais duras do que as impostas contra o Irã".

    Com uma "economia que está em recessão há praticamente dez anos", o Sudão "tem uma das maiores dívidas do mundo".

    Em troca da normalização com Israel, os EUA ofereceram a retirada do Sudão da lista de estados financiadores do terrorismo.

    "Sem ter o nome retirado desta lista, um país não pode obter recursos do Fundo Monetário Internacional [FMI], do Banco Mundial, ou ter suas dívidas perdoadas pelo Clube de Paris", explicou Verhoeven.

    Manifestantes realizam ato exigindo reformas na capital do Sudão, Cartum, 17 de agosto de 2020
    © AP Photo / Marwan Ali
    Manifestantes realizam ato exigindo reformas na capital do Sudão, Cartum, 17 de agosto de 2020

    "A verdade é que as atuais instituições sudanesas estão sob risco real de perder apoio popular em função da magnitude da crise econômica", ponderou.

    Nesse contexto, "os EUA têm colocado pressão repetidamente nas lideranças sudanesas, deixando claro de que não há outra forma de sobreviver sem engolir essa pílula amarga", disse o especialista.

    Para um governo de transição frágil em Cartum "tem sido difícil recusar a escolha entre literalmente deixar seu povo passar fome ou tomar algumas medidas em direção à normalização [com Israel]".

    Perspectivas

    Apesar do clima de vitória em Tel Aviv, o acordo de normalização foi recebido com frieza pela opinião pública sudanesa.

    "A opinião pública sudanesa é bastante simpática aos palestinos e crítica a Israel, assim como nos demais países árabes", lembrou Verhoeven.

    Para ele, o estabelecimento de contatos interpessoais entre as sociedades israelense e sudanesa "será muito difícil".

    Pirâmides de Meroe, na cidade de al-Bagrawiya, Sudão (foto de arquivo)
    © AP Photo / Mosa'ab Elshamy
    Pirâmides de Meroe, na cidade de al-Bagrawiya, Sudão (foto de arquivo)

    "Mas o principal interesse de Israel não é necessariamente o estabelecimento de relações profundas [com o Sudão], mas sim minar o apoio a organizações palestinas proveniente desse país", considerou.

    "Se isso puder ser extirpado, já será uma enorme vitória para os israelenses", concluiu o especialista.

    Em 23 de outubro de 2020, Israel e Sudão acordaram normalizar relações diplomáticas. Os dois países se enfrentaram em diversos momentos das guerras árabe-israelenses de 1967 e 1973 e Israel era considerado um Estado inimigo pelo Sudão.

    As opiniões expressas nesta matéria podem não necessariamente coincidir com as da redação da Sputnik

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    Tags:
    israel, Sudão, normalização, relações exteriores, Relações diplomáticas, Norte da África
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