08:54 28 Novembro 2020
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    Foi divulgado na última quinta-feira (29) que a China fechou um acordo para importar soja da Tanzânia. O objetivo seria diminuir a dependência que Pequim tem da soja do Brasil e dos EUA, que são os maiores produtores do mundo.

    De acordo com dados divulgados pelo Instituto Brasileiro de Economia da Fundação Getulio Vargas (Ibre/FGV), a China importou 9,79 milhões de toneladas de soja em setembro, o que representou um aumento de 19% em relação ao ano anterior. Cerca de três quartos dessas importações vieram do Brasil.

    Em entrevista à Sputnik Brasil, a economista e professora da Fundação Armando Álvares Penteao (FAAP), Anapaula Iacovino, afirmou que, no curto prazo, o acordo entre a China e a Tanzânia não deve afetar as exportações brasileiras para o mercado chinês, pois a produção de soja da Tanzânia é "bastante incipiente".

    De acordo com ela, os países do continente africano, mesmo em seu conjunto, acabam sendo pouco representativos na produção de soja, comparando com países como Brasil, EUA e Argentina, por exemplo.

    "O continente africano aparece sempre no grupo de outros países que somam algo me torno de 5% da produção mundial de soja, e a Tanzânia faz parte disso, algo absolutamente incipiente. Então para que esse acordo com a Tanzânia realmente causasse um impacto, precisaria haver um volume mais significativo de produção", argumentou.

    A especialista em agronegócio, ao comentar a alta demanda chinesa sobre a soja brasileira, observou que o país asiático despontou como um grande consumidor do produto há cerca de 20 anos. Na época, a produção dos EUA estava em cerca de 80 milhões de sacas e o Brasil produzia na faixa de 50-55 milhões de sacas de soja. No entanto, desde então, o Brasil conseguiu superar a produção norte-americana, o que acompanhou e satisfez o grande crescimento do consumo chinês.  

    "O ritmo do crescimento brasileiro foi maior, a nossa produtividade na soja é bastante respeitada, então o Brasil conquistou esse mercado a partir da eficiência. A Tanzânia não só tem uma produção incipiente como trata-se ainda de um país rudimentar, e para que ela consiga entrar nesse mercado competitivo da soja, são necessários muitos investimentos", afirmou. 

    Colheita de safra de soja no Brasil (foto de arquivo)
    © REUTERS / Jorge Adorno
    Colheita de safra de soja no Brasil (foto de arquivo)

    Ao comentar sobre a possibilidade da atual tendência de alta demanda da China em relação à soja brasileira sofrer uma reversão, Anapaula Iacovino disse quando se fala da China, que é um "país que trabalha com planejamento de longo prazo", é sempre possível considerar estas alterações comerciais, mas destacou que tal perspectiva ainda não está no horizonte.

    "Em um primeiro momento, a China não tem como ficar livre da soja brasileira, porque o consumo deles é muito alto e nós, junto com os EUA, que conseguimos dar conta dessa oferta", acrescentou a especialista. 

    Anapaula Iacovino disse também que, do ponto de vista do Brasil, é interessante também para o Brasil buscar diversificar o seu mercado, considerando que é "sempre recomendável que a política comercial seja plural". No entanto, ela destacou que, para o curto e médio prazo, é importante manter o diálogo com a China.

    "O prudente é manter um diálogo com a China, evitar desgastes desnecessários, evitar provocações desnecessárias, porque, no mínimo, trata-se do nosso principal parceiro comercial, e não só da soja, mas de toda a pauta de exportações do país", completou. 

    As opiniões expressas nesta matéria podem não necessariamente coincidir com as da redação da Sputnik

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    Tags:
    Agronegócio, economia, soja, Brasil, China
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