17:31 25 Fevereiro 2021
Ouvir Rádio
    Análise
    URL curta
    7137
    Nos siga no

    "Para alguns países é muito melhor apontar dedo para Brasil e associá-lo" ao desmatamento para "deslegitimar" produtos nacionais, e assim ganhar novos mercados, disse advogada ambiental à Sputnik Brasil.

    Segundo estudo da rede de entidades internacionais Fair Finance, o setor financeiro europeu, principalmente Noruega, Alemanha e Holanda, investe mais de R$ 60 bilhões em 26 empresas do setor agropecuário brasileiro. 

    De acordo com o levantamento da Fair Finance, essa injeção de dinheiro está em risco, pois muitas dessas empresas poderiam contribuir para o desmatamento no Brasil. A entidade alerta que aumento dos incêndios no país pode contribuir não só para o aumento das barreiras aos produtos brasileiros, mas também para uma diminuição dos investimentos. 

    Por outro lado, a advogada ambiental Maria Cristina Gontijo, professora da Unisanta (Universidade Santa Cecília) em Santos, afirma ser preciso levar em consideração que muitos países têm interesse em uma campanha para "deslegitimar a sustentabilidade do produto brasileiro".  

    "Vamos lembrar que o Brasil ainda é um país responsável por grande parcela da agricultura sem desmatar sua área, o que não foi feito por países da Ásia e da Europa", afirmou a professora. 

    O argumento é parecido ao já usado pelo presidente Jair Bolsonaro para repudiar as críticas à política ambiental do governo. Em julho, em transmissão ao vivo nas redes sociais, ele disse que a "Europa é uma seita ambiental", onde "não preservaram nada". Segundo o presidente, os ataques de nações do continente ao Brasil eram injustos e frutos de "uma briga comercial". 

    'Brasil precisa cumprir acordos'

    Por outro lado, Gontijo disse que o Brasil, "como Estado, firmou acordos internacionais de preservação da Amazônia, da biodiversidade e de diminuição da propagação de gases de efeito estufa". 

    "O Brasil precisa cumprir esses acordos, e a pressão internacional, se ela existir, vai existir para que cumpra esses acordos e prove que os está cumprindo. Se não cumprir, fato é que vai sofrer sanções internacionais", avaliou a advogada. 

    A especialista opina que, apesar da "tentativa" de associar o "produto brasileiro" ao desrespeito ao meio ambiente, "em realidade o empresário brasileiro quer cumprir" com normas de boas práticas no setor.

    "Outra situação é o Brasil, como poder público, não auxiliar o seu empresariado a cumprir, ao exigir que as políticas públicas de preservação sejam cumpridas para respeitar esses acordos internacionais firmados", disse Gontijo. 

    'Incêndios não são todos criminosos'

    Segundo a rede Fair Finance, 90% da vegetação primária perdida no Brasil nos últimos 35 anos foi devido a atividades agropastoris. Em contrapartida, o grupo aponta que, atualmente, estudo recente identificou que 62% do desmatamento ilegal na Amazônia está concentrado em 2% das propriedades rurais, embora o modelo predominante ainda seja o de expandir a área de pasto e plantação em detrimento do aumento de produtividade, o que preservaria a floresta. 

    Para Gontijo, o governo brasileiro "precisa de uma melhor comunicação com os países estrangeiros", para demonstrar "que vem tomando as medidas necessárias" para manter a biodiversidade do país. Segundo ela, é preciso "provar" essas ações e "reafirmar seu compromisso de preservação da floresta". Caso contrário, o Brasil "vai pagar por isso" e pode perder investimento internacional. 

    "É importante constar que os incêndios que estão ocorrendo e ocorreram no Pantanal e na Amazônia não são todos criminosos. Há sim incêndios criminosos, que precisam ser apurados, precisam ser combatidos, como vêm sendo combatidos, principalmente na região do Pantanal, por parte das autoridades", disse a professora. 

    'Mídia precisa auxiliar governo'

    A advogada diz ainda que a mídia precisa ajudar o governo a divulgar as ações corretas que estaria praticando para a preservação do meio ambiente, o que não seria noticiado, segundo ela, por questões "ideológicas". 

    "O governo brasileiro precisa não só dar uma resposta para a comunidade internacional, mas reafirmar esse compromisso de preservação ambiental, comprovar que está tomando as medidas adequadas, e isso a mídia precisa auxiliar o governo também, porque, por conta de questões partidárias ou ideológicas, muitas vezes a mídia não noticia isso. E governo precisa estar alinhado para poder justamente blindar o empresário brasileiro que tem boas práticas ambientais, que não é um desmatador, que tem a sua produção certificada, que se utiliza de compliance ambiental na logística da entrega do seu produto", afirmou Maria Cristina Gontijo.

    As opiniões expressas nesta matéria podem não necessariamente coincidir com as da redação da Sputnik

    Mais:

    Pandemia provoca queda de 66% no setor de turismo do Amazonas
    Ameaças internas: pesquisador avalia uso das Forças Armadas na Amazônia
    Ambientalista rebate tese do governo: 'Não é o boi que vai salvar o Pantanal'
    Tags:
    Pantanal, Amazônia, Noruega, Holanda, Alemanha, Europa, Jair Bolsonaro, desmatamento, meio ambiente, Brasil
    Padrões da comunidadeDiscussão
    Comentar na SputnikComentar no Facebook
    • Comentar