15:07 29 Outubro 2020
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    O analista paquistanês Sabtain Ahmed Dar crê que a vitória do candidato democrata Joe Biden levaria a um regresso às políticas de guerra das eras de George W. Bush e Barack Obama.

    O plano afegão de Donald Trump pode trazer um fim ao conflito que dura quase duas décadas, e abrir as portas à formação de um novo governo nacional islâmico, segundo o analista político paquistanês Sabtain Ahmed Dar, que acredita que a possível vitória de Joe Biden em novembro pode fazer descarrilar as conversações de paz.

    Recentemente, uma guerra de palavras irrompeu sobre o porta-voz do Talibã (organização terrorista proibida na Rússia e em vários outros países), Zabihullah Mujahid, devido a uma entrevista por telefone ao canal norte-americano CBS News, na qual ele foi citado como dizendo que o grupo espera que Donald Trump "vença as eleições e acabe com a presença militar americana no Afeganistão".

    Depois que Tim Murtaugh, diretor de comunicações da campanha de reeleição de Trump, rejeitou o "apoio" do Talibã, o porta-voz do grupo afegão afirmou que a mídia havia interpretado e publicado suas observações "incorretamente".

    "Nada do gênero foi comunicado como divulgado por eles", enfatizou Mujahid.

    Plano Trump é positivo

    Independentemente de uma possível má interpretação, o Talibã vê o plano afegão de Trump, que prevê retirada do contingente militar norte-americano do país se as negociações intra-afegãs e os esforços do Talibã para combater grupos terroristas como Daesh da Província de Khorasan (organização terrorista proibida na Rússia e em vários outros países) forem bem-sucedidas, de acordo com Sabtain Ahmed Dar, escritor e especialista político paquistanês.

    Secretário de Estado dos EUA, Mike Pompeo durante negociações de paz do Afeganistão, em Doha, no Catar, 11 de setembro de 2020
    © AFP 2020 / Karim Jaafar
    Secretário de Estado dos EUA, Mike Pompeo durante negociações de paz do Afeganistão, em Doha, no Catar, 11 de setembro de 2020

    "Os diplomatas talibãs veem este plano de paz como vital para as futuras gerações afegãs", disse à Sputnik Internacional.

    "Estes acordos têm sido vistos como passos iniciais significativos e potentes para as negociações intra-afegãs, e, portanto, para alcançar a paz e a tranquilidade no Afeganistão, mas ainda assim não garantem que as negociações intra-afegãs se tornem uma situação vantajosa para todos, pois depende de múltiplas variáveis no contexto do sistema de equilíbrio de poder no sul da Ásia."

    O Talibã, também conhecido como o Emirado Islâmico do Afeganistão, é um movimento político islâmico e uma organização militar que ocupou o poder sobre a maior parte do país entre 1996 e 2001.

    Apesar da invasão militar liderada pelos EUA em 2001, o Talibã continuou mantendo controle sobre várias províncias e distritos do país desde então, com um conjunto separado de leis e regulamentos para os residentes que vivem dentro do território que controla, recusando a reconhecer o governo de Cabul.

    Termos do acordo

    Para compreender os fundamentos e implicações dos acordos entre EUA e Talibã, é importante especificar o que o Talibã e os EUA acordaram, segundo o analista:

    • o Talibã concordou que não representará nenhuma ameaça para os militares dos EUA e seus aliados no Afeganistão, pelo contrário, todos os grupos armados declarados como terroristas pelos EUA serão combatidos e exterminados pelo Talibã;
    • os EUA concordaram em retirar todas as suas tropas, forças aliadas e empresas contratadas pelo Pentágono em 14 meses. A tarefa de fechar cinco bases militares e reduzir o número de forças dos EUA no Afeganistão para 8.600 tropas já foi realizado;
    • o início das negociações entre o governo de Cabul e o mulá Baradar, o chefe do Talibã, começaria com a troca e a libertação dos prisioneiros de ambos os lados, o que começou em março de 2020;
    • os EUA saúdam o papel prospectivo do Talibã em um novo governo islâmico afegão pós-acordo, conforme determinado pelas negociações intra-afegãs.

    No entanto, não há unidade nos círculos de poder afegãos, pois o dr. Abdullah Abdullah, diretor do Conselho Superior de Reconciliação Nacional (HCNR), está há muito tempo em desacordo com o presidente do país Ashraf Ghani.

    Após as eleições presidenciais afegãs de 2019, Abdullah e Ghani fizeram o juramento presidencial em cerimônias de posse separadas em 9 de março de 2020. Em maio, os dois políticos assinaram um acordo de partilha de poder que previa a nomeação de Abdullah como o chefe da HCRN encarregado das conversações de paz intra-afegãs com o Talibã.

    Chefe do conselho de paz do Afeganistão, Abdullah Abdullah, fala durante uma entrevista com a agência Reuters em Islamabad, Paquistão, 30 de setembro de 2020
    © REUTERS / Saiyna Bashir
    Chefe do conselho de paz do Afeganistão, Abdullah Abdullah, falando durante uma entrevista

    O futuro político de Ghani parece vago se a possível reeleição de Trump puder completar as obrigações remanescentes do processo de paz afegão, acredita Dar, sugerindo que é provável que o Talibã faça sua aposta em Abdullah.

    Vitória de Biden seria retrocesso

    No entanto, se Trump não se reeleger em 3 de novembro, seu ousado plano de paz para o Afeganistão será severamente marginalizado, adverte Sabtain Ahmed Dar à Sputnik.

    Fontes de esquerda da mídia norte-americana têm manifestado repetidamente ceticismo sobre o plano de paz afegão de Trump, com a revista The Atlantic afirmando que enquanto George W. Bush e Barack Obama procuraram aniquilar ou degradar substancialmente o Talibã, respectivamente, o atual presidente chegou ao ponto de assinar um acordo com o grupo militar.

    "Joe Biden não é apenas um democrata, amigo de falcões de guerra em Washington, mas um poderoso representante do 'estado profundo' dos EUA que há muito faz parte da estrutura de poder dos EUA desde 1973", comenta o analista político.

    "A crise do Afeganistão e a generosidade da guerra na forma de lítio, cobalto, ópio etc. é uma grande fonte de renda para o complexo industrial militar dos EUA."

    O líder da delegação Talibã, Abdul Ghani Baradar assinando o acordo de paz com o emissário dos EUA para o Afeganistão, Zalmay Khalilzad, no Qatar
    © REUTERS . Ibraheem Al Omari
    O líder da delegação Talibã, Abdul Ghani Baradar assinando o acordo de paz com o emissário dos EUA para o Afeganistão, Zalmay Khalilzad, no Qatar

    Durante uma entrevista por telefone para o jornal Stars and Stripes no início de setembro, o candidato presidencial democrata disse que manteria um contingente militar norte-americano limitado no Afeganistão e no Iraque para ajudar a combater grupos terroristas.

    "Estas guerras eternas têm que acabar [...], mas aqui está o problema, ainda temos que nos preocupar com o terrorismo", disse Biden.

    O sistema da política externa dos EUA usou o Afeganistão como base para manter o controle sobre a Ásia Central e, além disso, para "desintegrar o Paquistão nuclear", aponta o autor, lembrando que a Operação Liberdade Duradoura (2001-2014) dos EUA armou o Islã político (Jihad bil Saif) contra a fundação islâmica do Paquistão para criar anarquia tanto dentro das Forças Armadas do país como na população civil.

    "É por isso que os pacifistas nos Estados Unidos, Afeganistão, Talibã e Paquistão apoiariam tacitamente Donald Trump para seu segundo mandato", destaca Sabtain Ahmed Dar. "Senão, a mesma história de tumultos sem fim se repetiria no Afeganistão se Joe Biden fosse de alguma forma eleito pelos americanos na votação de novembro."

    As opiniões expressas nesta matéria podem não necessariamente coincidir com as da redação da Sputnik

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    Tags:
    CBS News, Sputnik, Abdullah Abdullah, Ashraf Ghani, The Atlantic, Stars and Stripes, Paquistão, Talibã, Barack Obama, George W. Bush, Donald Trump, Joe Biden, Afeganistão, EUA
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