20:33 28 Novembro 2020
Ouvir Rádio
    Análise
    URL curta
    COVID-19 no Brasil em meados de outubro (54)
    1123
    Nos siga no

    O Brasil terá a segunda maior dívida bruta entre países emergentes em 2020, segundo o Fundo Monetário Internacional (FMI). Para explicar os efeitos disso, a Sputnik Brasil conversou com o economista Josilmar Cordenonssi, que defende que o país precisa de um ajuste fiscal duradouro.

    A estimativa publicada pelo FMI aponta que o endividamento bruto do país alcançará 101,4% do Produto Interno Bruto (PIB), a soma de todos os bens e serviços produzidos no Brasil. Esse quadro representa o segundo pior cenário entre 40 países de economias emergentes analisados pela organização. Apenas a Angola, que deve chegar ao patamar de 120,3% de endividamento em relação ao PIB neste ano, tem um quadro pior que o brasileiro.

    O economista Josilmar Cordenonssi, professor da Universidade Presbiteriana Mackenzie, em São Paulo, recorda que o Brasil já era o país com o maior endividamento bruto entre países emergentes, que alcançava cerca de 87% do PIB já em 2018.

    Segundo ele, o país aumentou a dívida bruta ao longo dos últimos anos, mas esse processo foi agravado pelos efeitos econômicos da pandemia da COVID-19. Para o economista, a continuação de uma agenda de reformas no país deixaria a situação "relativamente bem".

    "Só que essa agenda de reformas parou, veio a pandemia, que fez com que o PIB caísse muito e ao mesmo tempo a arrecadação do governo caiu e a necessidade de aumentar gastos veio de uma forma imperativa", explica o professor do Mackenzie em entrevista à Sputnik Brasil.

    Cordenonssi aponta que, apesar do histórico recente da dívida, essa combinação de fatores com aumento de gasto público criou a situação descrita pela análise do FMI. O economista aponta que sair desse quadro será "um desafio nacional".

    "A gente vai ter que, de uma certa forma, crescer – a ideia é crescer e a dívida crescer menos que o PIB. Então, na verdade [com] a ideia que está sendo discutida aí, temos um desafio a mais, que é manter um certo nível de assistência [social], o [presidente brasileiro Jair] Bolsonaro quer transformar o Bolsa Família em Renda Cidadã, ampliando os gastos, e isso possivelmente vai estourar o teto de gastos do ano que vem", afirma.
    Presidente Jair Bolsonaro e o ministro da Economia, Paulo Guedes
    © REUTERS / Adriano Machado
    Presidente Jair Bolsonaro e o ministro da Economia, Paulo Guedes

    Para o economista, projetos sociais como o Bolsa Família e seu possível substituto são justos, mas exigem uma trajetória sustentável da dívida.

    "Para implementar esse projeto social, para ampliar esse projeto social, que é socialmente bastante justo e legítimo, mas por outro lado tem que manter uma trajetória sustentável da dívida, ou seja, tem que diminuir outros gastos. É aí que está o ponto, o nó político que a gente não consegue desatar. A gente precisa cortar gastos e todos os gastos são muito sensíveis politicamente", avalia o especialista.

    Segundo o economista, o mercado financeiro está incomodado com essa possibilidade, uma vez que ultrapassando o teto de gastos há riscos de aumento da inflação e taxa de juros.

    "O mercado financeiro fica nervoso em refinanciar a dívida. O risco está em refinanciar a dívida, esse refinanciamento da dívida pública que já está acontecendo, já tem um certo tumulto, um problema no refinanciamento da dívida no curto prazo, principalmente, está tendo muito ruído", aponta.

    Para o economista, o ruído permanecerá enquanto o governo federal não resolver essa questão, já postergada para depois das eleições. Cordenonssi recorda que a proposta apresentada semanas atrás pelo governo federal para o Renda Cidadã, com cortes no pagamento de precatórios e no Fundeb, já foi considerada problemática pelo mercado.

    Previsão para 2022 é ainda mais grave

    Ainda segundo as estimativas do FMI, a dívida bruta brasileira deve piorar em 2022 e chegar a 103,5%, tornando-se a maior dívida entre os países emergentes. Para o economista, se concretizado, esse é um quadro de ruína da economia brasileira.

    "Se os políticos ficarem pensando apenas na reeleição e não nas próximas gerações - como são as cabeças de estadistas, que ficam olhando as próximas gerações e não as próximas eleições -, se nós focarmos nas próximas gerações, nós temos que fazer um ajuste fiscal profundo e duradouro, de forma a melhorar a distribuição de renda", afirma.
    © AP Photo / Silvia Izquierdo
    Moradores carregam doações de alimentos durante a pandemia do novo coronavírus da favela do Mandela, no Rio de Janeiro, em 21 de abril de 2020.

    O economista aponta que o Brasil tem muitas desigualdades nos gastos do setor público e que subsidia muitos ricos, deixando as camadas mais pobres desassistidas. Para ele, o Estado brasileiro deveria ser um ente que diminui a desigualdade de renda, não o contrário.

    "Aqui no Brasil as transferências de renda, [com] a forma como o governo gasta, muitas vezes nós concentramos renda. A gente tem que mudar essa forma do Estado brasileiro funcionar, em prol da sociedade, favorecendo o crescimento e automaticamente a sustentabilidade da dívida. Isso está em nossas mãos", afirma.

    Cordenonssi também defende que o Brasil privatize ativos nesse processo, ressaltando que o valor desses ativos está se depreciando com o tempo.

    "A gente está perdendo tempo em adiar essa privatização e fazer um ajuste duradouro nas contas públicas", conclui.

    As opiniões expressas nesta matéria podem não necessariamente coincidir com as da redação da Sputnik

    Tema:
    COVID-19 no Brasil em meados de outubro (54)

    Mais:

    Entidade de defesa de renda básica e relator do Fundeb criticam uso do fundo para programa social
    Pânico pelo aumento da dívida de curto prazo brasileira é exagerado, dizem especialistas
    Dívida federal dos EUA vai ultrapassar PIB do país, diz fiscalizadora norte-americana
    Cercado de críticas, Renda Cidadã 'assusta' mercado e será adiado para 2021, apontam analistas
    Impasse do Renda Cidadã deixa pobres 'à mercê da discussão partidária' do governo, diz especialista
    Tags:
    COVID-19, Bolsa Família, Jair Bolsonaro, FMI, Brasil
    Padrões da comunidadeDiscussão
    Comentar na SputnikComentar no Facebook
    • Comentar