15:32 29 Outubro 2020
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    Em vez de defender a transformação do Pantanal em um grande pasto, as autoridades federais deveriam assumir mais responsabilidade na fiscalização e no combate aos incêndios na região, avalia a ambientalista Suely Araújo, pesquisadora do Observatório do Clima.

    Na última terça-feira (13), o ministro do Meio Ambiente, Ricardo Salles, defendeu a polêmica tese do chamado "boi bombeiro", segundo a qual a pecuária seria uma arma importante na contenção dos focos de queimadas na região do Pantanal. O argumento, citado na última semana também pela ministra da Agricultura, Tereza Cristina, é de que a criação de gados reduziria o volume de matéria orgânica disponível, diminuindo, assim, a quantidade de combustível para queimar. 

    Após críticas recebidas pela ministra, o presidente Jair Bolsonaro saiu rapidamente em sua defesa. No sábado (10), o chefe de Estado usou as redes sociais para explicar porque, no seu entendimento, Tereza Cristina teria razão em suas colocações. 

    "No Pantanal, você sempre pôde criar boi à vontade. E boi come capim. [O capim] uma vez seco, pega fogo. Então, o boi comia capim e não ia pegar fogo. Daí, os ambientalistas xiitas proibiram, e, agora, passa um ou dois anos sem pegar fogo em nada. Aí, acumula uma massa de combustível enorme e, quando pega fogo na frente, é uma desgraça", disse Bolsonaro. 

    ​Ninguém nega o fato de a pecuária ser uma atividade tradicional no bioma pantaneiro, o problema, segundo ambientalistas, é o tipo de argumentação que está sendo feita por membros do governo federal sobre esse assunto. 

    Em entrevista à Sputnik Brasil, Suely Araújo, especialista sênior em políticas públicas do Observatório do Clima, rebate a teoria do "boi bombeiro" dizendo que, se a mesma fosse verdade, os dados indicariam uma relação direta entre o aumento no número de cabeças de gado e a redução dos focos de incêndio na região, o que não ocorre. 

    Considerando o período dos últimos 20 anos, Araújo destaca que houve um aumento significativo na quantidade de cabeças de gado no Pantanal, de 38%. No entanto, quando esse número é relacionado às queimadas na região, não há relação direta, apenas variação. 

    Fonte: IBGE – Pesquisa Pecuária Municipal (22 municípios de MT e MS) / Inpe – Focos de calor no bioma Pantanal
    © Foto / Fakebook.eco
    Fonte: IBGE – Pesquisa Pecuária Municipal (22 municípios de MT e MS) / Inpe – Focos de calor no bioma Pantanal

    "A questão dos incêndios florestais descontrolados, eles têm aumentado nos últimos anos, principalmente, por secas mais severas, que têm relação com a questão climática, com períodos mais secos e mais quentes, mas têm relação direta com o bicho-homem. Alguém está colocando fogo, inclusive em épocas proibidas", afirma. 

    A solução para os incêndios no Pantanal não é, definitivamente, o gado, ressalta a especialista. Seguindo esse raciocínio defendido pelo governo, segundo ela, se o bioma fosse todo revestido com ladrilhos, também não haveria muito combustível para ser queimado.  

    Atualmente, já é possível observar uma substituição dos campos naturais do Pantanal por outro tipo de terreno, campos artificiais, pastagens. Isso, de acordo com a pesquisadora do Observatório do Clima, está levando a um desequilíbrio ambiental, o que deveria ser suficiente para rebater a ideia de que seria interessante para o bioma aumentar a intensidade da pecuária na região.

    "Não é o boi que vai salvar o Pantanal dos incêndios."

    Quase quatro milhões de hectares de vegetação pantaneira já foram perdidos em Mato Grosso e Mato Grosso do Sul devido aos incêndios, em uma das piores crises ambientais das últimas décadas, em que coincidiram baixos níveis de chuva, aumento das queimadas e redução na fiscalização por parte do governo.

    Em vez de aumentar o número de cabeças de gado, o poder público, em suas diferentes esferas, deveria atuar de maneira mais incisiva nos esforços de combate aos focos de incêndio, avalia a ambientalista. 

    "Eu queria chamar a atenção que a responsabilidade do Ministério do Meio Ambiente é sobre o país como um todo. Não importa se a área é federal. O ministério tem uma política nacional e ele é o órgão central do Sistema Nacional do Meio Ambiente", sublinhou Suely Araújo, rebatendo uma recente afirmação do ministro Salles de que o governo federal só seria responsável por 6% do Pantanal. 

    ​Para a especialista, quando há uma tragédia como a que afeta hoje o Pantanal, comprometendo mais de 25% do bioma, não importa qual é a área nem a competência primária de fiscalização, dado que seu impacto se reflete em todo o país. 

    "Em uma tragédia como essa, o ministro tem que ser ministro do Meio Ambiente do país como um todo. Se ele não entende isso, então, a gente está com um problema sério na gestão do ministério. Porque ele não é gestor de terras federais, ele é gestor do meio ambiente do país."

    A Sputnik Brasil também tentou contato com associações de pecuaristas, mas não obteve respostas até o fechamento da matéria. 

    As opiniões expressas nesta matéria podem não necessariamente coincidir com as da redação da Sputnik

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    Tags:
    Jair Bolsonaro, Tereza Cristina, Ricardo Salles, meio ambiente, boi, gado, clima, queimadas, incêndio, Mato Grosso do Sul, Mato Grosso, Pantanal
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