00:24 22 Outubro 2020
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    O ministro do Meio Ambiente, Ricardo Salles, opta por administrar sua pasta de dentro do gabinete, ao invés de ir para o campo de batalha, disse especialista em direito ambiental à Sputnik Brasil.

    Segundo levantamento feito pelo jornal Folha de S.Paulo, Salles teve em 2020 quatro vezes mais compromissos oficiais em São Paulo do que na Amazônia e no Pantanal, biomas que vêm registrando recordes de incêndios e desmatamento. 

    De acordo com o jornal, Salles esteve até setembro de 2020 em eventos e reuniões na capital paulista pelo menos em 25 dias. Na região da Amazônia, foram quatro dias, e no Pantanal, outros dois. A apuração da Folha levou em conta apenas viagens oficiais, já que o ministro tem residência em São Paulo. 

    Para o advogado Antonio Fernandes Pinheiro Pedro, especialista em direito ambiental, o fato representa uma "disfunção muito grande quando se trata de uma pasta de controle territorial, de afirmação de soberania, como é o caso da gestão ambiental".

    'Glória feita de sangue', de Kubrick 

    Como metáfora da situação, Pinheiro Pedro cita o filme "Glória feita de sangue" (1957), do diretor Stanley Kubrick, estrelado por Kirk Douglas e ambientado na Primeira Guerra Mundial. 

    "Essa questão me lembra muito o filme, no qual um general francês ordena um ataque suicida contra uma trincheira alemã e, após o desastre, se desculpa buscando chamar à corte marcial os soldados que sobraram, que ele escolhe aleatoriamente", disse o especialista. 

    Para o advogado, trata-se de uma película "terrível, que mostra a enorme desconexão entre o que se decide em um gabinete e a realidade do que acontece no teatro de operações". 

    'Despachando atrás da mesa'

    "É mais ou menos o paralelo que a gente pode traçar dessa opção que um gestor ambiental faz de permanecer despachando atrás da mesa, e não ir efetivamente ao local da batalha", afirmou Pinheiro Pedro, em referência à Amazônia e ao Pantanal. 

    Segundo dados do Instituto Nacional de Pesquisas Espaciais (INPE), o fogo já devastou 21% da área do Pantanal. Na Amazônia, o desmatamento cresceu 34% de agosto de 2019 a julho de 2020. 

    Sobre o grande número de compromissos em São Paulo, o especialista diz que o ministro privilegia o local "porque é a base política dele, um vício natural da República brasileira". 

    "Não há outra explicação maior do que essa. O que é uma pena, porque isso é um fator comum na política tradicional do Brasil, e se esperava que nesse governo a gente fugisse desse tipo de agenda", afirmou o advogado.

    Ministro 'indicado pelo empresariado paulista'

    De acordo com a Folha de S.Paulo, entre as agendas do ministro em São Paulo, houve compromissos frequentes com representantes do mercado imobiliário. Nos últimos três meses, Salles manteve seis agendas com o setor, entre almoço, reuniões e participação em eventos.

    O especialista critica esse fato, argumentando que isso explica a atual "crise ambiental" vivida no país. 

    "O ministro foi indicado, prioritariamente, pelo empresariado paulista, em especial da área imobiliária e industrial. O engraçado é que, de certa maneira, a gestão do Ministério do Meio Ambiente não guarda relação direta com as questões relacionadas ao ramo imobiliário, muito menos ao ramo imobiliário paulista. Realmente há uma desconexão entre os encontros e a atividade precípua do ministério, que é cuidar de extensos biomas. É uma pena que esteja ocorrendo esse tipo de disfunção, mas isso se reflete exatamente na enorme crise ambiental que vivemos", disse Antonio Fernandes Pinheiro Pedro.

    As opiniões expressas nesta matéria podem não necessariamente coincidir com as da redação da Sputnik

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    Tags:
    desmatamento, queimadas, Ministério do Meio Ambiente, São Paulo, meio ambiente, Amazônia, Pantanal, Ricardo Salles
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