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    Após 15 anos divididos, as principais forças políticas palestinas, Hamas e Fatah, selaram acordo para realizar novas eleições na Palestina. Que acordo foi esse e quais as perspectivas para a questão Palestina?

    No dia 24 de setembro, os principais partidos políticos palestinos, liderados pela Fatah e o Hamas, chegaram a um acordo para a realização das primeiras eleições na Palestina em quase 15 anos.

    Após longas negociações na cidade turca de Istanbul, as lideranças palestinas se comprometeram a realizar eleições legislativas daqui a seis meses.

    "Desta vez chegamos a um consenso real", disse representante do Hamas, Saleh al-Arouri, à AFP. "As divisões causaram prejuízos à nossa causa nacional e nós estamos trabalhando para superá-las.”

    Como resultado do acordo, "foi constituída uma comissão que está encarregada de preparar as eleições e estabelecer o calendário eleitoral", disse o presidente da Federação Árabe Palestina do Brasil (FEPAL), Ualid Rabah, à Sputnik Brasil.

    "Ficou definido que primeiro serão realizadas as eleições legislativas", explicou Rabah. "Em seguida, haverá eleições presidenciais e para o Conselho Nacional Palestino."

    Criança palestina se esconde de blindado israelense (foto de arquivo)
    © AFP 2020 / Thomas Coex
    Criança palestina se esconde de blindado israelense (foto de arquivo)

    "O Conselho é a máxima instituição palestina em todo o mundo, que reúne inclusive deputados da diáspora", relatou Rabah.

    "Também foi constituída uma comissão encarregada de unificar a luta popular, criando uma liderança nacional palestina unificada", informou o presidente da FEPAL.

    As últimas eleições legislativas realizadas na Palestina ocorreram em 2006, quando o grupo islâmico Hamas obteve uma vitória inesperada e significativa.

    Divisão

    Após a divulgação dos resultados eleitorais de 2006, Hamas e Fatah formaram um governo de unidade nacional que durou pouco tempo. O não reconhecimento internacional da vitória do Hamas e divisões internas prejudicaram a manutenção da unidade.

    Desde então, a Palestina passou a ter dois governos paralelos: um na faixa de Gaza, liderado pelo Hamas, e outro na cidade de Ramallah, na Cisjordânia ocupada, liderado pelo Fatah.

    "O desenho político palestino hoje consiste em dois partidos islamitas, um partido de centro, que é a Fatah, e duas forças político-militares que estão à esquerda, a Frente Democrática e a Frente Popular", disse Bruno Lima Rocha Beaklini, cientista político e professor de relações internacionais na Unisinos e Unifin, à Sputnik Brasil.

    "Atualmente, 25 partidos políticos atuam na Palestina, mas a Fatah e o Hamas se destacam por liderar governos, ou melhor, semigovernos sob ocupação do inimigo", disse.

    Soldado israelense discute com mulheres na vila de Al-Zawieh, na Cisjordânia ocupada (foto de arquivo)
    © AFP 2020 / Jaafar Ashitiyeh
    Soldado israelense discute com mulheres na vila de Al-Zawieh, na Cisjordânia ocupada (foto de arquivo)

    Para Rabah, é essencial que a Palestina consolide a união nacional para poder resistir à ocupação estrangeira de seu território.

    "Existe uma máxima que diz: 'divida-os e reinarás'", disse Rabah. "Por isso, é necessária uma resistência unificada, para mostrarmos ao mundo que a Palestina é um povo unido."

    De acordo com Beaklini, a divisão das forças políticas palestinas pode ser "perfeita do ponto de vista maquiavélico, mas é terrível do ponto de vista humano".

    "Além de estar ocupada e cercada por Israel e parcialmente [...] abandonada por países árabes, a Palestina ainda tem uma divisão de lideranças que só favorece ao poder ocupante", disse Beaklini.

    "Nesse sentido, é da ordem da política que o povo palestino não pode se dar ao luxo de ser bicéfalo e não ter uma alternativa unificada", acredita o cientista político.

    Eleições sob ocupação

    O acordo para a realização das eleições prevê a realização do pleito em Jerusalém e na região sitiada da Faixa de Gaza. Em função da ocupação israelense, garantir a organização das eleições nessas localidades pode ser um grande desafio.

    "A Palestina não tem poder eleitoral constituído, afinal está sob ocupação", disse Beaklini. "O mais sensato para garantir o resultado eleitoral é um acordo entre as lideranças palestinas para que as sessões eleitorais sejam transparentes, tanto no escrutínio quanto na fiscalização."

    Manifestantes palestinos durante protesto na cidade de Kfar Qaddum, na Cisjordânia ocupada, 2 de outubro de 2020
    © AFP 2020 / Jaafar Ashtiyeh
    Manifestantes palestinos durante protesto na cidade de Kfar Qaddum, na Cisjordânia ocupada, 2 de outubro de 2020

    Mesmo assim, dificilmente a contagem de votos poderá ocorrer em um único local, uma vez que "trânsito entre Gaza e Cisjordânia está bloqueado por Israel".

    Por isso, Rabah acredita que a comunidade internacional deve agir para garantir que a Palestina possa organizar suas eleições.

    "É muito importante a atuação de Rússia, China, França, Inglaterra e da ONU, para garantir que as eleições palestinas se realizem de forma transparente, sem os efeitos deletérios da ocupação em Jerusalém, em Gaza e na Cisjordânia", disse Rabah.

    Beaklini lembra, no entanto, que o sucesso do processo eleitoral palestino também depende "do respeito mútuo e acordo entre as cinco maiores forças políticas [locais]”.

    Soldado aponta armas para crianças palestinas no subúrbio de Issawiya, Jerusalém (foto de arquivo)
    © AFP 2020 / Awad Awad
    Soldado aponta armas para crianças palestinas no subúrbio de Issawiya, Jerusalém (foto de arquivo)

    "Ter um processo legítimo, democrático, pluripartidário é muito importante aos olhos do mundo e aos olhos dos próprios palestinos, para mostrar que existem condições para o autogoverno", disse o cientista político.

    Ofensiva diplomática israelense

    O acordo histórico veio pouco depois da consolidação da bem-sucedida ofensiva diplomática israelense para normalizar suas relações diplomáticas com países do mundo árabe.

    Em 15 de setembro, um acordo entre Israel, EAU e Bahrein foi assinado na Casa Branca. Nesta quinta-feira (1º), Líbano e Israel, países formalmente em guerra, anunciaram o início de negociações para delimitação de fronteira marítima.

    Segundo Beaklini, os acordos de normalização podem ter "acelerado os tempos da diplomacia no mundo árabe", favorecendo o acordo entre Hamas e Fatah.

    Palestinos protestam contra países árabes que selaram acordos de normalização de relações diplomáticas com Israel, Nablus, Cisjordânia ocupada, 15 de setembro de 2020
    JAAFAR ASHTIYEH
    Palestinos protestam contra países árabes que selaram acordos de normalização de relações diplomáticas com Israel, Nablus, Cisjordânia ocupada, 15 de setembro de 2020

    Para o presidente da FEPAL, esses acordos de Israel com países árabes representam um "perigo existencial" e agravaram a posição internacional da Palestina, tornando "necessária a coordenação entre todas as forças".

    A diplomacia israelense defende que os acordos de normalização das relações diplomáticas podem trazer ganhos econômicos a toda a região, favorecendo, portanto, a paz no Oriente Médio.

    No entanto, Rabah acredita que "só haverá paz no Oriente Médio quando houver paz na Palestina".

    "E só haverá paz na Palestina quando os direitos nacionais humanitários e civis dos palestinos forem respeitados e houver um Estado palestino, à luz do direito internacional. Esse é o real caminho da normalização", concluiu Rabah.

    No dia 24 de setembro, as principais lideranças palestinas, reunidas na cidade turca de Istambul, assinaram acordo para a realização de eleições legislativas, presidenciais e para o Conselho Nacional Palestino. As eleições, que estão previstas para ocorrerem em seis meses, serão as primeiras realizadas na Palestina em quase 15 anos.

    As opiniões expressas nesta matéria podem não necessariamente coincidir com as da redação da Sputnik

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    Fatah, Hamas, Organização para Libertação da Palestina, Autoridade Palestina, Palestina, Israel
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