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    Nesta quarta-feira (30), a Rússia marcou os cinco anos de sua operação militar na Síria. Apesar das inúmeras vitórias militares, o país deve se focar na conquista da paz, acredita especialista.

    Nesta quarta-feira (30), o clube de discussões Valdai realizou debate entre especialistas para marcar os cinco anos da intervenção russa no conflito sírio.

    Em 30 de setembro de 2015, o Conselho da Federação da Rússia concordou que o presidente do país, Vladimir Putin, mobilizasse as Forças Armadas russas para intervirem na Síria. A decisão foi uma resposta ao pedido de intervenção oficial feito por Bashar Assad.

    "Cinco anos é tempo suficiente para que possamos avaliar os impactos e resultados da intervenção russa", disse o diretor do programa do clube Valdai, Ivan Timofeev.

    Nos últimos anos, a Rússia pôde expandir seu papel no país árabe para abranger não só a dimensão militar, mas também operações humanitárias e de manutenção de paz.

    "O conflito sírio ficou por muito tempo em 'fase quente', mas agora se assemelha a um conflito latente", disse o vice-presidente do Conselho de Relações Internacionais da Rússia (RSMD, na sigla em russo), Aleksander Aksenenok. "A guerra parece ter acabado, mas a paz ainda não foi alcançada."

    Resultados

    De acordo com Aksenenok, "a Rússia atingiu vários de seus objetivos estratégicos na Síria".

    "A destruição da infraestrutura do Daesh [organização terrorista proibida na Rússia e demais países] foi uma das principais conquistas, já que esse era o principal objetivo das operações antiterroristas conduzidas pela Rússia na Síria", disse Aksenenok.

    Desde o início de 2019, a organização Daesh perdeu o controle sob o território que considerava ser seu "califado" em território sírio e sofreu baixas irreparáveis para a organização do que o ministro da Defesa da Rússia, Sergei Shoigu, chamou de "primeiro verdadeiro exército terrorista do mundo".

    Orquestra do Teatro Mariinsky de São Petersburgo faz concerto na cidade de Palmira, em 5 de maio de 2016
    © Sputnik / Maksim Blinov
    Orquestra do Teatro Mariinsky de São Petersburgo faz concerto na cidade de Palmira, em 5 de maio de 2016

    Além da erradicação da base territorial do Daesh, a Rússia teve papel essencial na manutenção de Bashar Assad na liderança do governo sírio.

    "A Rússia conseguiu impedir a mudança de regime pelo uso da força na Síria, o que é uma grande conquista geopolítica", acredita Aksenenok. "Hoje, não existem ameaças concretas ao governo de Assad."

    O mais importante, no entanto, foi a "preservação do estatuto de Estado na Síria", que estava em risco de colapso.

    Tanquistas russos em patrulha na província síria de Idlib, em 22 de julho de 2020
    © Sputnik / Handout
    Tanquistas russos em patrulha na província síria de Idlib, em 22 de julho de 2020

    A intervenção russa garantiu "a restauração de cerca de 77% da integridade territorial síria e o controle governamental sobre 68% dessa área", relatou Aksenenok.

    No entanto, "existem territórios relevantes, nos quais vivem cerca de oito milhões de pessoas, ou 30% da população do país, que ainda não estão sob controle governamental", alertou.

    "Outro resultado dessa campanha foi a experiência única adquirida pelas Forças Armadas russas", disse o coordenador do programa de pesquisa sobre Oriente Médio do RSMD, Ruslan Mamedov.

    De acordo com o Ministério da Defesa da Rússia, durante a "fase ativa" de sua operação na Síria, entre 30 de setembro de 2015 e 11 de dezembro de 2017, bombardeiros Tu-22M3 realizaram 47 ataques em grupo contra alvos terroristas nas províncias de Deir ez-Zor, Homs e Raqqa e realizaram 369 missões, percorrendo uma distância total de 2,5 mil km e destruindo 215 alvos terroristas.

    Bombardeiro Tu-22M3 realiza bombardeio na província de Deir ez-Zor, na Síria, 26 de novembro de 2017
    © Sputnik / Ministério da Defesa da Rússia
    Bombardeiro Tu-22M3 realiza bombardeio na província de Deir ez-Zor, na Síria, 26 de novembro de 2017

    "A Rússia voltou para o Oriente Médio, o que deve ser considerado um resultado de sua campanha na Síria", disse Mamedov.

    Para ele, a Rússia havia se ausentado da região desde a década de 90, "quando se focou exclusivamente em suas relações com o Ocidente".

    "No sentido geopolítico, a Rússia mostrou que não é somente uma potência regional – como foi classificada pelo [então presidente dos EUA, Barak] Obama – e que tem capacidade militar e diplomática para ser um ator relevante", disse Aksenenok.

    Principais ameaças

    Os especialistas concordam que o maior desafio que a Síria enfrenta hoje é de ordem socioeconômica.

    "O grande risco que a Síria corre hoje é a deterioração econômica, agravada pelas consequências da guerra e da pandemia de COVID-19", acredita Aksenenok.

    "Hoje, 4,6 milhões de crianças na Síria enfrentam a desnutrição e a fome", relatou o diretor da missão da Oxfam na Síria, Moutaz Adham.

    "Isso é resultado de uma série de fatores: o impacto de quase dez anos de guerra, deslocamentos, má gestão, corrupção, sanções, o impacto da COVID-19 e a atual situação no Líbano", enumerou Adham.

    De acordo com o Alto Comissariado das Nações Unidas para os Refugiados (ACNUR), cerca de 1,5 milhões de refugiados sírios foram recebidos pelo Líbano.

    Armas abandonadas e máscara protetora no chão na cidade Tadmor, na Síria, 14 de setembro de 2020
    © Sputnik / Screenshot do vídeo
    Armas abandonadas e máscara protetora no chão na cidade Tadmor, na Síria, 14 de setembro de 2020

    No entanto, a deterioração da economia libanesa, fatalmente golpeada pela explosão no porto de Beirute em 4 de agosto, forçou a volta precipitada de refugiados sírios ao seu país de origem.

    "A situação no Líbano desacelerou a transição do modelo de economia de guerra [adotado] na Síria para uma economia de tempos de paz", explicou Aksenenok.

    Sanções econômicas

    Para Mamedov, todavia, é impossível "debater o futuro econômico da Síria sem mencionar as sanções".

    A Síria é alvo de sanções norte-americanas desde a década de 1970. No entanto, desde 2011 "o governo dos EUA vem calibrando as sanções para privar o regime de recursos", informa o Departamento de Estado dos EUA em seu site oficial.

    Militares russos durante operações de desminagem na cidade síria de Palmira, em 19 de março de 2017
    © Sputnik / Ministério da Defesa da Rússia
    Militares russos durante operações de desminagem na cidade síria de Palmira, em 19 de março de 2017

    Para Mamedov, as sanções são o principal obstáculo para a retomada econômica e reconstrução da Síria.

    "A participação de uma empresa em qualquer projeto na Síria levará necessariamente à imposição de sanções por parte dos EUA, e isso é um fardo muito grande para qualquer empresa privada", disse Mamedov.

    Segundo ele, isso impede que "países do Golfo e da União Europeia participem da reconstrução da Síria".

    "Não importa se [o próximo presidente dos EUA] for Joe Biden ou Donald Trump: as sanções continuarão, e não há nada que possa ser feito em relação a isso", lamentou o especialista.

    Conquistar a paz

    Para os especialistas do clube Valdai, a Rússia está bem posicionada para contribuir para o processo de paz na Síria.

    "Desde 2015, a imagem internacional da Rússia melhorou significativamente no Oriente Médio", disse Mamedov, respondendo à pergunta da Sputnik Brasil.

    "Líderes regionais passaram a realizar visitas frequentes a Moscou para entender a posição russa, selar acordos de cooperação e planejar a convivência futura", acredita o especialista.

    No entanto, Aksenenok lembra que a "Rússia pode perder esse 'capital' se demorar para enfrentar a questão da reconciliação na Síria".

    Ministro das Relações Exteriores, Sergei Lavrov, e o enviado especial do secretário-geral da ONU para a Síria, Geir Otto Pedersen, em Moscou, 3 de setembro de 2020.
    © Sputnik / Ministério das Relações Exteriores da Rússia
    Ministro das Relações Exteriores, Sergei Lavrov, e o enviado especial do secretário-geral da ONU para a Síria, Geir Otto Pedersen, em Moscou, 3 de setembro de 2020

    Ele lembrou que "apesar da Rússia ter papel relevante, não podemos dizer que o processo de paz depende inteiramente de Moscou. Muito também depende de seus aliados".

    "Às vezes a Rússia ganha guerras, mas perde a paz. Neste momento, é necessário focar em conquistar a reconciliação, o que pode ser muito difícil", concluiu Aksenenok.

    Em 30 de setembro de 2020, a Rússia marcou os cinco anos da intervenção militar do país na Síria. De acordo com a ACNUR, mais de 5,6 milhões de pessoas se refugiaram fora do país, que ainda conta com 6,6 milhões de deslocados internos.

    As opiniões expressas nesta matéria podem não necessariamente coincidir com as da redação da Sputnik

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    Tags:
    paz, antiterrorismo, militar, operação, Síria, Rússia
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