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    Economia em recessão, Olimpíadas na berlinda e pandemia de COVID-19 formam um quadro nada favorável para o novo primeiro-ministro do Japão, Yoshihide Suga. Como ele vai governar e quais os impactos para as relações entre Brasil e Japão?

    Nesta quarta-feira (16), Yoshihide Suga foi escolhido como novo primeiro-ministro do Japão, após oito anos de governo do seu correligionário do Partido Liberal Democrata (PLD) Shinzo Abe.

    Discreto e conservador, Suga montou um "gabinete de continuidade" e manteve boa parte dos secretários nomeados por Abe no cargo.

    "A ideia de continuidade é importante para o Japão agora, e Suga veio nesse sentido", disse o coordenador acadêmico do Centro Brasileiro de Estudos sobre Negócios Internacionais & Diplomacia Corporativa (CBENI) da Escola Superior de Propaganda e Marketing (ESPM), Alexandre Uehara, à Sputnik Brasil.

    "Suga tem uma missão difícil ao substituir Shinzo Abe, já que terá de manter a estabilidade política, promover o crescimento econômico e lidar com dilemas regionais. Tudo isso frente ao cenário adverso da pandemia de COVID-19", disse a professora do curso de Relações Internacionais da Universidade Paulista (UNIP) de Brasília, Aline Dantas, à Sputnik Brasil.

    Segundo o Banco Mundial, "há uma perspectiva de retração para o ano de 2020 correspondente a -6,1%, embora se espere um crescimento em 2021 de 2,5%", notou Dantas.

    Além disso, a "perspectiva do cancelamento das Olimpíadas de Tóquio" agrava a situação, disse Silvio Miyazaki, professor do Programa de Pós-Graduação em Língua, Literatura e Cultura Japonesa da USP, à Sputnik Brasil.

    Com tantos desafios, existe a perspectiva de que "Suga não fique muito tempo no cargo" acredita Uehara.

    Daqui a um ano, em setembro de 2021, haverá eleições parlamentares no Japão e eleições para a presidência do PLD, partido que governa o país desde 1955 com pequenos intervalos.

    "Acredito que o partido resolverá mudar o presidente, porque o Suga tem um perfil discreto, que não empolga", acredita Uehara.

    Yoshihide Suga posa para foto, em seu gabinete, após assumir a liderança do Partido Liberal Democrático do Japão, em Tóquio, 14 de setembro de 2020
    © REUTERS / Nicolas Datiche
    Yoshihide Suga posa para foto, em seu gabinete, após assumir a liderança do Partido Liberal Democrático do Japão, em Tóquio, 14 de setembro de 2020

    Para as eleições parlamentares, "a ideia seria trazer alguém mais carismático, com uma imagem de político mais forte", disse.

    "No Japão, todo mundo conhece o Suga porque ele era porta-voz do Abe, então aparecia bastante na televisão", disse Uehara. "Mas, ao mesmo tempo, ninguém sabia exatamente o que ele fazia. Suga é conhecido, mas não reconhecido."

    Para Uehara, o PLD "tem políticos mais fortes que podem concorrer no ano que vem", como Taro Kono, atual ministro para Reforma Administrativa, e Taro Aso, o atual vice-primeiro-ministro.

    Recém-empossado vice-primeiro-ministro e ministro das Finanças, Taro Aso, durante coletiva de imprensa, Tóquio, Japão, 16 de setembro de 2020
    © REUTERS / Kim Kyung-Hoon
    Recém-empossado vice-primeiro-ministro e ministro das Finanças, Taro Aso, durante coletiva de imprensa, Tóquio, Japão, 16 de setembro de 2020

    "O Aso é interessante, uma vez que ele já ocupou o cargo de primeiro-ministro e parece ter interesse em retomar", disse Uehara. "Mas tudo dependerá do jogo de bastidores dentro do PLD."

    Política externa japonesa

    Não bastando a situação interna tumultuada, o Japão ainda encara desafios de política externa, como a "nuclearização da Coreia do Norte e o relacionamento com a China", apontou Dantas.

    Para Uehara, o fator mais determinante para o sucesso de Suga na arena internacional será o resultado das eleições norte-americanas.

    "A relação entre EUA e Japão é importante para ambos os países, mas com a ascensão do [presidente dos EUA, Donald] Trump a situação ficou um pouco tensa", disse Uehara.

    Gabinete liderado pelo novo primeiro-ministro Yoshihide Suga em sessão de fotos na residência oficial do premiê, em Tóquio, 16 de setembro de 2020
    © REUTERS / Yoshikazu Tsuno
    Gabinete liderado pelo novo primeiro-ministro Yoshihide Suga em sessão de fotos na residência oficial do premiê, em Tóquio, 16 de setembro de 2020

    Trump pressionou o Japão para que arcasse com a parte maior dos custos de manter militares dos EUA em seu território, "aumentando o custo dessa relação para o Japão. Mas Abe conseguiu negociar isso bem", acredita o professor.

    Para ele, caso Trump ganhe as eleições, o Japão "pode ficar em maus lençóis".

    "Trump é muito oportunista, e caso ele perceba que o Suga não tem muita disposição para o confronto e para uma conversa mais dura, o Japão vai sair prejudicado", apontou Uehara.

    E o Brasil com isso?

    As relações entre o Brasil e o Japão parecem ter arrefecido nos últimos anos. Entre 2011 e 2018, as trocas comerciais sofreram queda de cerca de 50%, de acordo com dados da Secretaria de Comércio Exterior (SECEX).

    Para Uehara, um dos motivos da queda é a "demanda da China, que acabou substituindo o Japão" como destino das exportações brasileiras.

    Mas "o principal elemento foi a queda nos preços das commodities", que fez com que houvesse uma "queda significativa das exportações brasileiras para Japão em faturamento, ainda que não necessariamente em volume", disse Uehara.

    "Além disso, temos que considerar que a economia brasileira passou por momentos econômicos ruins durante a última década", lembrou o professor.

    "Os produtos importados do Japão para o Brasil são muitas vezes ligados a peças e componentes da indústria automobilística. [...] Há uma redução em valor e em quantidade nas importações pela queda da demanda brasileira", explicou Uehara.

    Cartaz em centro comercial em que está escrito Yoshihide Suga, parabéns por assumir o cargo de primeiro-ministro, em Yokohama, Japão, 21 de setembro de 2020
    © AP Photo / Koji Sasahara
    Cartaz em centro comercial em que está escrito "Yoshihide Suga, parabéns por assumir o cargo de primeiro-ministro", em Yokohama, Japão, 21 de setembro de 2020

    Miyazaki acrescenta que "o Japão tem firmado acordos de comércio com outros países" concorrentes do Brasil.

    "Assim, pode ter havido o desvio de comércio, substituindo as compras que faziam do Brasil para outros países", explicou Miyazaki.

    Acordo Mercosul–Japão

    Para solucionar esses problemas, uma boa saída seria a conclusão das negociações do acordo comercial entre Mercosul e Japão, "que ainda não saiu do radar", acredita Dantas.

    Para Uehara, um dos fatores que atrasam as negociações é que "o Japão tem receio de setores bastante competitivos do Brasil e da Argentina, como as carnes e outros produtos agrícolas".

    Apesar disso, Miyazaki e Dantas estão confiantes de que um acordo é possível.

    "Creio que há, sim, perspectivas. No ano passado a Confederação Nacional da Indústria (CNI) do Brasil e o Keidanren [Federação das Indústrias do Japão] promoveram um encontro em São Paulo [...] no qual entregaram uma carta para que houvesse negociações para um acordo", relatou Miyasaki.

    "A Argentina deu de certa forma o aval, uma vez que deixou o Brasil livre para conduzir as negociações", disse o professor.

    Dantas também observa tendência positiva, uma vez que a "conclusão do acordo Mercosul–União Europeia instiga a possibilidade de novas negociações".

    Durante as negociações com a Europa, o Mercosul se mostrou mais flexível nas suas demandas por acesso a mercado para produtos agrícolas. Uma postura similar por parte dos parceiros sul-americanos poderia favorecer as negociações com o Japão.

    Deputados japoneses assistem a sessão extraordinária do Parlamento, na capital do país, Tóquio, 17 de setembro de 2020
    © REUTERS / Issei Kato
    Deputados japoneses assistem a sessão extraordinária do Parlamento, na capital do país, Tóquio, 17 de setembro de 2020

    Para Uehara, o Brasil precisa mostrar mais "entusiasmo nas negociações":

    "Existe interesse do setor privado, mas eu nunca vi um debruçar sobre essa negociação por parte do governo brasileiro", disse.

    "Durante a campanha, Bolsonaro disse que iria dar mais atenção para a Ásia, principalmente ao Japão, o que, na retórica, foi bem recebido pelo governo japonês. Mas na prática ainda não vejo nada concreto", concluiu o professor.

    No dia 16 de setembro, o novo líder do PLD, Yoshihide Suga, foi escolhido primeiro-ministro do Japão após renúncia do seu antecessor, Shinzo Abe, por problemas de saúde.

    Neste domingo (20), Suga e o presidente dos EUA, Donald Trump, realizaram conversa telefônica para debater a aliança entre os países e maneiras de fortalecer a economia global, informou a Casa Branca em comunicado.

    As opiniões expressas nesta matéria podem não necessariamente coincidir com as da redação da Sputnik

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    premiê, acordo, Mercosul, Brasil, Japão
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