06:05 25 Outubro 2020
Ouvir Rádio
    Análise
    URL curta
    280
    Nos siga no

    As eleições municipais podem ter um recorde de número de candidatos às prefeituras, com mais de 300 nomes aprovados nas convenções partidárias. Para explicar essa situação, a Sputnik Brasil ouviu o cientista político Antonio Marcelo Jackson Ferreira, que diz que o olhar dos partidos já está em 2022.

    As convenções partidárias das eleições municipais de 2020 aprovaram 311 candidatos às prefeituras. Com isso, o número de candidatos a prefeito no país pode ser o maior em duas décadas, a depender do resultado da aprovação das candidaturas pela Justiça Eleitoral e de possíveis desistências.

    O recorde anterior ocorreu em 2016, quando foram registradas 209 candidaturas, segundo levantamento publicado pelo portal G1, com bases nos números da Justiça Eleitoral, que receberá as solicitações de registro de candidatos pelos partidos até o dia 26 de setembro. O primeiro turno das eleições municipais está marcado para o dia 15 de novembro.

    Para Antonio Marcelo Jackson Ferreira da Silva, cientista político, professor do Departamento de Educação e Tecnologias (DEETE) da Universidade Federal de Ouro Preto (UFOP), o número de candidatos seria motivado tanto pela "quantidade excessiva" de partidos no país, quanto pelas mudanças nas regras eleitorais, como a chamada cláusula de barreira. Para o professor, porém, outro motivo pode estar por trás desse aumento.

    "Agora também não nos esqueçamos que a eleição para prefeito e câmara de vereadores sempre foi uma espécie de plataforma para a eleição geral de ali a dois anos. Ou seja, o que muita gente deve estar querendo, e eu não estranharia isso, é fazer uma espécie de palanque, uma espécie de propaganda da sua pessoa, da sua personagem, pensando não necessariamente na eleição de prefeito agora, mas pensando na eleição para deputado federal ou deputado estadual daqui a dois anos", avalia o pesquisador em entrevista à Sputnik Brasil.

    Ainda segundo o levantamento do G1, Belo Horizonte, Curitiba e Porto Velho são as capitais com mais candidatos aprovados nas convenções, com 16 nomes cada. Logo em seguida vêm Campo Grande, com 15, Goiânia, São Paulo, Rio de Janeiro, Natal e João Pessoa, com 14, e Teresina, Porto Alegre e Palmas, com 13.

    Em Brasília, uma urna eletrônica mostra a palavra Fim em uma seção eleitoral dois mesários ao fundo, em 28 de outubro de 2018.
    © AP Photo / Eraldo Peres
    Em Brasília, uma urna eletrônica mostra a palavra "Fim" em uma seção eleitoral dois mesários ao fundo, em 28 de outubro de 2018.

    O professor da UFOP explica que a entrada de um grande número de candidatos também pode estar ligada ao fundo eleitoral. Essa fonte de recursos, diferente do fundo partidário - que serve à manutenção dos partidos - é paga para custear as campanhas e tem repasse relacionado ao número de representantes no Congresso Nacional.

    "Esse número excessivo de candidatos a vereador, a prefeito, é lógico que passa pela discussão da cláusula de barreira, passa pela impossibilidade de coligações para a eleição para vereador. Agora não nos esqueçamos que, na medida que um partido não participasse do pleito, ele não teria direito ao fundo eleitoral", salienta.

    Quantidade de partidos e olho em 2022

    Marcelo Jackson também critica a quantidade de partidos políticos existentes no Brasil, afirmando que essa é uma realidade pouco vista mundo afora. No total, o Brasil tem 33 partidos políticos atualmente, conforme os dados do Tribunal Superior Eleitoral (TSE).

    "Não tem como sustentar um argumento que justifique, que explique, a existência de tantos partidos políticos. Isso é simplesmente inimaginável em qualquer lugar do planeta. E é óbvio que a pura e simples existência de tantos partidos faz com que, ainda mais em um sistema político como o nosso, o chamado presidencialismo de coalizão, ele simplesmente inviabiliza o funcionamento do país, porque o presidente, o prefeito e o governador é obrigado a negociar com um número muito maior de partidos para formar sua base parlamentar", ressalta.
    Em São Paulo, urnas eletrônicas aguardam ajuste de servidores da Justiça Eleitoral, em 14 de setembro de 2020.
    © Folhapress / Zanone Fraissat
    Em São Paulo, urnas eletrônicas aguardam ajuste de servidores da Justiça Eleitoral, em 14 de setembro de 2020.

    O cientista político também aponta se sente pessimista com a forma como as eleições se dão no Brasil e sublinha que as eleições municipais, em sua opinião, são usadas como "vitrines" para candidatos com ambições maiores.

    "Sim, é usado [como vitrine], não é como se as pessoas tenham uma vocação política assim, aliás, muito pelo contrário. O que está colocado desde a eleição de 2018, e vamos ver como nessa agora as coisas vão se comportar, é uma completa despolitização da eleição. A regra toda é saber como lidar com as chamadas redes sociais para ganhar uma eleição, ganhar voto. Olha, com toda a franqueza, eu tenho um pouco de pessimismo quanto a isso tudo. Mas, vamos ver o que acontece daqui a pouco mais de um mês na eleição", conclui.

    As opiniões expressas nesta matéria podem não necessariamente coincidir com as da redação da Sputnik

    Mais:

    'Silêncio' é aposta de Bolsonaro para 1º turno das eleições, diz cientista político
    Ibope: pandemia de COVID-19 deve influenciar eleições municipais brasileiras
    Cientista político: apoio de Lula ou Bolsonaro 'não é determinante' nas eleições municipais
    Tags:
    Departamento de Educação e Tecnologias da UFOP, UFOP, Justiça Eleitoral, Brasil
    Padrões da comunidadeDiscussão
    Comentar na SputnikComentar no Facebook
    • Comentar