23:44 30 Setembro 2020
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    Segundo especialistas, pressões internas e considerações políticas motivaram as decisões de Donald Trump sobre redução das cotas do aço brasileiro.

    O presidente dos EUA, Donald Trump, anunciou neste sábado (29) a redução da cota de importação de aço do Brasil. Ele justificou a medida citando a queda do mercado siderúrgico norte-americano em função da pandemia do coronavírus.

    O limite atual foi definido por um acordo com o Brasil em 2018, de modo a evitar que o país pagasse tarifa de 25% imposta a outras nações.

    Segundo o Instituto Aço-Brasil, a restrição deve representar uma queda nas vendas no quarto trimestre, passando de 350 mil toneladas para 60 mil toneladas. Segundo o sistema de cotas atuais, o Brasil exportaria 3,5 milhões de toneladas por ano.

    O presidente do Instituto Aço Brasil, economista Marco Polo de Mello Lopes, destacou que a decisão de Donald Trump repercute o resultado de um longo processo de negociação entre Brasil e Estados Unidos, que dura desde o início de junho.

    "A redução do mercado americano na verdade ocorreu, como nos demais países, por conta da pandemia. No Brasil também tivemos a redução do nosso mercado. A siderurgia brasileira opera com 40% de ociosidade e no pico da crise, em abril, chegamos a operar com 42% da capacidade instalada. Portanto é legítima a preocupação por parte do governo americano", explicou Marco Polo de Mello à Sputnik Brasil.

    Para ele, a decisão de Trump é "resultado da pressão de algumas poucas usinas siderúrgicas americanas" que, com a queda do mercado interno, passaram a ficar ociosas e passaram a ter capacidade de ofertar placas semiacabadas de aço, tradicionalmente importadas do Brasil.

    "Elas, obviamente, tentaram alijar o fornecedor tradicional dessas placas, que é o Brasil. Faz parte do jogo. É o governo americano atendendo as demandas e pressões das empresas siderúrgicas americanas", disse o economista.

    Marco Polo de Mello explicou que o Brasil exporta para os Estados Unidos uma cota de 3,5 milhões de toneladas de placas semiacabadas de aço por ano. Essa cota vem sendo cumprida desde 2018, como o valor total de produtos de aço brasileiro aos EUA somando aproximadamente U$ 2,6 bilhões.

    "É importante ressaltar que dentro desse regramento o Brasil só pode exportar 30% dessa cota global no primeiro trimestre, 30% dessa cota no segundo trimestre, 30% no terceiro trimestre e 10% no último trimestre, perfazendo 100% da cota. O resultado que temos no momento é que o Brasil já exportou 90% de sua cota, vai exportar mais 60 mil toneladas referentes ao que seria parte de sua cota do quarto trimestre. E ficam pendentes 290 mil toneladas, que vamos discutir com o governo americano, o tratamento que vai se dar, em dezembro deste ano", explicou o presidente do Instituto Aço-Brasil.

    Decisão política

    Para o empresário José Augusto de Castro, presidente da AEB (Associação de Comércio Exterior do Brasil), a decisão do governo norte-americano seria exclusivamente de cunho político e visa as eleições.

    "Não tem amparo legal, mas nesse momento Trump adota a medida que mais interessa a ele", disse José Augusto de Castro à Sputnik Brasil.

    "É uma medida típica protecionista, não necessariamente protegendo a indústria americana, como ele alega. Porque no fundo ele vai suspender as importações, a cota de importações diminui, e os importadores americanos vão ter menos matéria prima para produzir seus produtos", acrescentou o empresário.

    O presidente da AEB, lamentou a medida anunciada pelo candidato do Partido Republicano, ainda mais que as vantagens políticas decorrentes da decisão seriam poucas e incertas.

    "No fundo ele vai reduzir os índices de produção local, fazendo com que não haja geração de emprego. O Brasil, por sua vez, vai deixar de exportar o produto e vai gerar desemprego", afirmou José Augusto de Castro.

    O empresário acredita que a tática de Donald Trump demonstra sua falta de confiança na própria candidatura e que o político está buscando alternativas políticas para se afirmar.

    "Vejo essa decisão mais como um desespero político, do que uma decisão economicamente forte", concluiu.

    As opiniões expressas nesta matéria podem não necessariamente coincidir com as da redação da Sputnik

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    Tags:
    relações bilaterais, importações, aço, EUA, Brasil
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