05:41 29 Setembro 2020
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    Analistas norte-americanos referiram a atual tensão entre os EUA e a China, citando o crescente poder chinês e a época das eleições norte-americanas como principais razões.

    As tensões EUA-China estão longe de diminuir, com Washington voltando a apertar o "dragão" com ataque ao popular aplicativo chinês TikTok por preocupações de segurança nacional. A mais recente proibição veio em meio a uma série de medidas anti-China, incluindo sanções contra altos funcionários de Pequim e um encerramento abrupto do Consulado-Geral da China em Houston.

    O jornal The Economist observa que, embora a China e os EUA "não estejam prestes a atacar um ao outro", os pontos de atrito e mal-entendidos estão se acumulando, ameaçando acabar em um resultado prejudicial para ambos os lados. "À medida que se aproxima uma eleição presidencial, cresce o potencial para erros de cálculo perigosos", adverte a mídia.

    Razão da repressão dos EUA contra China

    A atual administração norte-americana tem exercido pressão sobre Pequim desde o primeiro dia da presidência de Donald Trump.

    No entanto, anteriormente, as fricções entre os EUA e a China eram principalmente sobre o déficit comercial, manipulações aparentes da moeda e o setor de telecomunicações chinês. Após o início da pandemia da COVID-19, os laços entre os EUA e a China atingiram um novo mínimo. Tanto os democratas quanto os republicanos estão pedindo para coagir a República Popular da China.

    Em declarações à Sputnik Internacional, segundo dizem especialistas, o que importa é a eleição de novembro.

    "Há certamente questões importantes como a manipulação da moeda chinesa para aumentar o comércio e também as reivindicações territoriais no mar do Sul da China, mas a verdadeira razão é que este é um ano eleitoral, e é boa política um candidato parecer forte contra concorrentes e 'inimigos' estrangeiros", acredita Philip Giraldi, um antigo especialista em contraterrorismo da CIA e responsável da inteligência militar.

    "Foi também o que aconteceu contra a Rússia em 2016. Tanto os republicanos de Trump como os democratas estão fazendo a mesma coisa para serem 'duros', e a China é o alvo conveniente."

    Curiosos observam operação de fechamento do consulado dos EUA em Chengdu, na China
    © REUTERS / Thomas Peter
    Curiosos observam operação de fechamento do consulado dos EUA em Chengdu, na China

    De acordo com o dr. Paul Craig Roberts, economista norte-americano e ex-secretário-assistente do Tesouro para a política econômica do presidente Ronald Reagan (1981-1989), a tentativa de Trump de fazer da China o bode expiatório faz parte de sua estratégia para lidar com a pressão crescente da sua oposição.

    "Trump foi impedido pelo sistema norte-americano durante todo o seu mandato de abordar as questões sobre as quais ele fez campanha", explica o dr. Roberts. "Trump [...] está alavancando o conflito com a China como prova de que ele está tentando fazer algo para trazer empregos para casa: coronavírus, 5G, qualquer coisa que possa ser atribuída à China é útil para apresentar Trump como lutando pelos Estados Unidos da América."

    Guerra das palavras não passará disso

    Nenhum dos observadores acredita que o aumento das tensões com Pequim trará quaisquer frutos positivos. Ao mesmo tempo, nenhum dos dois espera um potencial confronto direto entre as potências.

    No entanto, o ex-oficial de campo da CIA prevê que os EUA "certamente pressionarão fortemente a China para limitar suas reivindicações às ilhas Spratly, no mar do Sul da China".

    "Se chegar a uma guerra comercial, os EUA perderão porque a China produz muitos itens de consumo que atualmente são vendidos nos Estados Unidos da América, mas que não são mais produzidos aqui", admite Philip Giraldi. "Quando as prateleiras das lojas americanas ficarem vazias, a população vai exigir que o governo faça algo a respeito, o que significará voltar às relações normais."

    "A China não tem nada a temer de Washington", concorda o dr. Roberts. "Há tanta indústria americana localizada na China que se a China a nacionalizasse, Wall Street entraria em colapso."

    Estátua próxima a Wall Street, em Nova York, é alvo de ataque por manifestantes em favor do meio ambiente (foto de arquivo)
    © AP Photo / Ted Shaffrey
    Estátua próxima a Wall Street, em Nova York, é alvo de ataque por manifestantes em favor do meio ambiente (foto de arquivo)

    Além disso, se for levada além do limite, Pequim pode usar sua vantagem nos títulos e moeda norte-americanos, presume o economista.

    "Com o dólar americano caindo atualmente abaixo de seus níveis de apoio, a China poderia despejar os US$ 1 trilhão [R$ 5,32 trilhões] em títulos do governo americano que detém no mercado de títulos", observa.

    "Isto forçaria a Reserva Federal [banco central dos EUA] a proteger os preços dos títulos (e as baixas taxas de juro), imprimindo mais US$ 1 trilhão para comprar os títulos. A China poderia então despejar US$ 1 trilhão no mercado de moedas, e o dólar americano sofreria um grande golpe que poderia sinalizar o fim de seu papel de moeda de reserva."

    Improvável que aliados se unam contra China

    Quanto a uma muito discutida "frente unida" contra Pequim, muitos aliados dos EUA estão ignorando as exigências de bloquear empresas e investimentos chineses, aponta o veterano da CIA.

    "A questão é que a China está assumindo indústrias-chave para o crescimento, como as telecomunicações, que antes eram dominadas por empresas americanas e europeias", explica Giraldi. "Trump gostaria de inverter isso, mas a China tem uma grande vantagem tanto nas próprias tecnologias quanto no marketing."

    Em referência às tentativas de banir ou limitar a Huawei, dr. Roberts sugere que a China não deve se preocupar com a posição da União Europeia em longo prazo, já que a economia dos aliados europeus de Washington está caminhando para um declínio prolongado, assim como a dos EUA.

    "A Rota da Seda da China não está focada no Ocidente", sublinha o economista. "A China está concentrada na Ásia e na África. A Ásia, não o Ocidente, é onde está o futuro. Se a China e a Rússia formarem uma aliança estratégica, essa aliança vai dominar o mundo. O tempo do Ocidente já passou."

    Eleições podem virar a situação

    A relação EUA-China deverá voltar ao normal após as eleições de novembro, prevê Thomas Pauken.

    "A China entende que é rotineiro para os políticos americanos jogar a carta anti-China durante as eleições do país", considera.

    Secretário de Estado dos EUA, Mike Pompeo, discursa em Yorba Linda, Califórnia, EUA, 23 de julho de 2020
    © REUTERS / Ashley Landis/Pool
    Secretário de Estado dos EUA, Mike Pompeo, discursa em Yorba Linda, Califórnia, EUA, 23 de julho de 2020

    "Se Trump ganhar sua reeleição, ele vai se concentrar na recuperação econômica dos EUA. Ele precisa que a China desempenhe um papel mais cooperativo para impulsionar a economia dos EUA. É provável que ele se dê bem com Pequim para conseguir um acordo comercial muito melhor entre os EUA e a China, que será uma vitória para ambos os lados."

     

    Ao mesmo tempo, ele espera que Trump reordene o seu gabinete, "despeça neoconservadores anti-China da sua administração e inicie negociações rápidas com Pequim sobre um acordo comercial EUA-China".

    Assim, Pauken manifesta dúvidas de que "Pompeo servirá como secretário de Estado norte-americano para o segundo mandato de Trump".

    No entanto, se Biden assumir a Sala Oval, o comentador da Ásia-Pacífico não está certo de que "a paz prevalecerá", uma vez que "muitos líderes neoconservadores apoiaram a campanha de Biden" e estão prontos para apoiar sua campanha.

    "[A situação] vai ficar muito ruim neste ano antes que melhore, quando as eleições terminarem e as coisas assentarem em Washington", admite Philip Giraldi. "Nenhum dos partidos se beneficiaria de um estado aberto de hostilidade que continua por muito mais tempo, e todos sabem disso."

    As opiniões expressas nesta matéria podem não necessariamente coincidir com as da redação da Sputnik

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    Tags:
    Mike Pompeo, COVID-19, 5G, Huawei Device USA, dólar, CIA, Philip Giraldi, Donald Trump, The Economist, Ocidente, União Europeia, EUA, China
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