01:02 19 Setembro 2020
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    A recente reação de dois deputados democratas diante das suspeitas de favorecimento do embaixador dos EUA no Brasil, Todd Chapman, em prol do sucesso eleitoral do presidente republicano Donald Trump é justificável e esperada no contexto atual, de acordo com um especialista ouvido pela Sputnik Brasil.

    Em uma carta assinada pelos deputados Eliot Engel, presidente da Comissão de Relações Exteriores da Câmara dos EUA, e Albio Sires, presidente da Subcomissão para o Hemisfério Ocidental, Segurança Civil e Comércio, Chapman é questionado por supostamente estar usando o seu posto para ajudar na reeleição de Trump.

    Segundo o jornal O Globo, o embaixador estadunidense estaria fazendo lobby para reduzir as tarifas de importação de etanol. Com a medida, prosseguiu a publicação, produtores de milho do estado de Iowa seriam favorecidos e poderiam representar um impulso de votos em favor do atual presidente dos EUA.

    Para o diretor do Curso de Relações Internacionais da Universidade do Estado do Rio de Janeiro (UERJ), Paulo Velasco, a reação dos deputados democratas frente à ação de Chapman na área do etanol é justificável, sobretudo por ocorrer em um período eleitoral e envolver um tema que já trouxe muitos desencontros entre Brasil e EUA.

    "Se estabeleceu aí uma relação de causalidade entre as pressões que o Chapman tem feito para que o Brasil amplie as importações de etanol dos EUA, e é claro que isso traria dividendos político-eleitorais para o Trump, sobretudo em alguns estados como Iowa que se destacam na produção do etanol a partir de milho. Em outro cenário, em um contexto não-eleitoral certamente isso teria uma repercussão de um peso menor, talvez a postura do embaixador norte-americano passasse mais desapercebida", afirmou o docente à Sputnik Brasil.
    Agricultor Randy Miller se diz insatisfeito com o governo Trump em meio à redução na demanda por etanol a base de milho. 22 de agosto de 2019
    © AP Photo / Julie Pace
    Agricultor Randy Miller se diz insatisfeito com o governo Trump em meio à redução na demanda por etanol a base de milho. 22 de agosto de 2019

    Velasco reforçou que "nesse cenário, a poucos meses das eleições de novembro, vermos um embaixador norte-americano dedicado a uma causa que seria a melhora da imagem de Trump em um dos estados norte-americanos para facilitar, digamos assim, a sua posição eleitoral passa a ser alvo de questionamentos".

    O analista fez questão de ressaltar que "a posição dos embaixadores naturalmente é tentar avançar os interesses dos seus países de origem no governo junto ao Estado ao qual eles estão acreditados", e que não chega a surpreender que Trump veja o etanol como uma "moeda valiosa [...] junto a alguns estados como Iowa que podem fazer alguma diferença na sua reeleição".

    "Nos EUA também em período eleitoral vale quase tudo e é normal os lobbies se intensificarem nesse cenário, como a gente sabe inclusive na política externa norte-americana e os lobbies e grupos de pressão têm um papel muito importante, muito mais inclusive do que no Brasil. Lobbies de todos os tipos, dos mais variados setores econômicos no país se movimentam, se mobilizam mais ativamente no período eleitoral, seja nas eleições para a Casa Branca, seja nas eleições para o Parlamento norte-americano", pontuou Velasco.

    Interferência bolsonarista

    Na mesma carta, os deputados democratas declararam estar "extremamente desapontados" com as recentes declarações do deputado federal Eduardo Bolsonaro (PSL-SP), nas quais ele abertamente apoia Trump e pede até mesmo votos ao atual presidente dos EUA em favor da sua reeleição.

    "Apesar de [Eduardo] Bolsonaro ter direito à livre expressão, não é apropriado [...] promover campanhas para candidatos dos Estados Unidos", declararam os políticos norte-americanos.

    Instado pela Sputnik Brasil a avaliar a suposta interferência bolsonarista na corrida presidencial norte-americana, Paulo Velasco deu razão mais uma vez aos parlamentares democratas, enxergando também um envolvimento brasileiro na política dos EUA. De acordo com ele, o Brasil assim quebra uma tradição diplomática.

    "Há sim uma participação do Brasil que foge da tradição do país. O Brasil sempre se guiou pela orientação e pela diretriz diplomática de não se envolver em processos políticos domésticos de outros Estados soberanos, não interferindo em processos eleitorais, mas já vimos o governo Bolsonaro interferir nas eleições na Argentina [...] tentando interferir nas eleições do Uruguai. [...] Então isso significa o Brasil fugindo um pouco da sua tradição de se manter mais distante das eleições de países aliados, de vizinhos e de parceiros, e claro teve essa reação do Partido Democrata", analisou.

    O professor da UERJ complementou dizendo que o Brasil, embora possa fazer barulho, tem pouca importância nas eleições dos EUA. Assim, não terá qualquer peso determinante no resultado do pleito de 6 de novembro entre Trump e o candidato democrata Joe Biden, este atualmente liderando as principais pesquisas de opinião.

    "O Brasil não é uma China, o Brasil não tem a envergadura que têm os países europeus. [...] Dificilmente veremos os candidatos se prendendo ao tipo de relação que os EUA devem ou deveriam ter com o Brasil [...] O Brasil tem um peso marginal, historicamente sempre foi assim, não é uma peça que seja determinante nesse tabuleiro eleitoral, mas claro que a postura dos deputados democratas é justificável, na medida em que percebem um país estrangeiro tentando de alguma maneira se posicionar no jogo político eleitoral doméstico", explicou.

    Presidente brasileiro, Jair Bolsonaro, se encontra com o presidente americano, Donald Trump, em Miami
    Presidente brasileiro, Jair Bolsonaro, se encontra com o presidente americano, Donald Trump, em Miami

    Velasco acrescentou ainda com uma previsão do que pode acontecer no cenário que não agradaria ao clã Bolsonaro: uma vitória de Biden na corrida pela Casa Branca. O especialista adiantou que o momento não permite especulações, porém já é possível prever o que deveria ocorrer para o Brasil não se ver em maus lençóis em uma administração democrata.

    "Podemos dizer que o alinhamento entre Brasil e EUA não trouxe os resultados esperados, e a eventual ascensão de Joe Biden à Casa Branca pode dificultar ainda mais as relações bilaterais, embora, de novo, algumas questões sejam mais suprapartidárias mesmo, para além da ideologia, então pode ser que vejamos uma administração democrata com uma postura mais pragmática em relação ao Brasil no sentido de, bom, o que eles podem nos oferecer e passar por cima das diferenças ideológicas", afirmou.

    Todavia, os temas de maior embate, se este vier, já parecem estar na mesa. "Alguns temas são mais importantes para os democratas do que para os republicanos, a bandeira dos direitos humanos, a bandeira ambiental, então esses temas podem trazer mais constrangimento na relação com o Brasil", finalizou Velasco.

    As opiniões expressas nesta matéria podem não necessariamente coincidir com as da redação da Sputnik

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    Tags:
    política, interferência estrangeira, relações bilaterais, diplomacia, lobby, etanol, Eduardo Bolsonaro, Jair Bolsonaro, Eliot Engel, Joe Biden, Donald Trump, Estados Unidos, Brasil
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