19:22 06 Agosto 2020
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    O democrata Joe Biden segue à frente das pesquisas de intenção de votos nos EUA enquanto o presidente Donald Trump enfrenta uma crise sanitária, social e política. A Sputnik Brasil ouviu um analista da UERJ que acredita que Bolsonaro terá uma difícil adaptação pela frente caso Biden confirme o favoritismo.

    A perspectiva de uma eventual derrota de Trump tem pressionado o governo do presidente brasileiro Jair Bolsonaro, cuja diplomacia internacional tem focado na relação com o atual ocupante da Casa Branca. Na segunda-feira (27), o ministro das Relações Exteriores do Brasil, Ernesto Araújo, suavizou as preocupações em torno do tema, afirmando que, após "certos ajustes", Brasília poderá manter uma agenda "muito positiva" com Washington mesmo sob uma eventual Presidência de Joe Biden.

    Williams Gonçalves, professor de Relações Internacionais da Universidade Federal Fluminense (UFF) e da Universidade do Estado do Rio de Janeiro (UERJ), concorda que é possível realizar uma adaptação da política externa brasileira a uma alternância de poder nos EUA.

    "Essa adaptação pode ser feita. Nas relações entre os Estados nunca há ruptura definitiva, é sempre possível recomeçar. Evidentemente que o recomeço implica em adaptações. No caso de mudança do governo norte-americano se prevê que as mudanças serão bastante significativas e o governo brasileiro, portanto, deverá acompanhar com atenção e procurar, portanto, se inserir nesse novo contexto, nessa nova conjuntura a ser criada pelo governo democrata", afirma o pesquisador em entrevista à Sputnik Brasil.

    Apesar da avaliação de que é possível adaptar a política externa a um possível novo contexto, Gonçalves ressalta que o Brasil de Bolsonaro estabeleceu uma relação de submissão com Donald Trump que não tem contrapartida na ideia de America First [América Primeiro] promovida pelo norte-americano.

    "A proposta do America First é uma proposta antialianças. No entanto, o governo brasileiro se apresentou como um aliado submisso, um aliado servil. E isso se confirmou porque todas as vezes em que o Trump achou por bem tomar medidas que contrariavam os interesses brasileiros ele o fez sem qualquer escrúpulo, sem qualquer problema. Essa amizade, ou essa suposta amizade, ela tem uma mão única, que é a direção do Brasil para com os Estados Unidos", aponta o professor de Relações Internacionais.

    Multilateralismo e conflitos de valores com Bolsonaro

    Para Gonçalves, um eventual governo de Joe Biden buscará reposicionar os EUA na política externa, seguindo os passos do ex-presidente democrata Barack Obama, a quem Biden serviu como vice-presidente.

    "Creio [...] que os democratas vão retomar o curso que vinha sendo seguido pelo senhor Barack Obama, qual seja de recompor a posição dos Estados Unidos no cenário internacional, tentar defender o que os norte-americanos chamam de ordem internacional liberal", afirma.
    Candidato democrata à presidência dos EUA e antigo vice-presidente Joe Biden estende seu punho enquanto responde a perguntas de repórteres durante um comício no estado de Delaware, Wilmington, EUA, 30 de junho de 2020
    © REUTERS / Kevin Lamarque
    Candidato democrata à presidência dos EUA e antigo vice-presidente Joe Biden durante um comício

    Para o professor da UERJ, esse caminho deve se utilizar de vias abandonadas pelo atual presidente dos EUA, apontando para o restabelecimento do multilateralismo em face do isolacionismo adotado por Trump.

    "E isso tem que ser feito pelas vias multilaterais, qual seja restabelecendo os laços de cooperação e confiança com a Europa - que foram rompidos pelo Trump -, reforçar a sua relação com a América Latina, e retomar a relação com os aliados asiáticos que temem tanto a China como a Rússia", aponta.

    Com Biden na cadeira de presidente, os EUA deverão ter novamente a defesa de valores conflitantes com a linha política de Jair Bolsonaro, o que pode se tornar um problema.

    "Aí está um problema com o que o senhor Jair Bolsonaro e o seu ministro Ernesto Araújo terão que se defrontar. Ele [Biden] terá um governo que defende os direitos humanos, o direito das mulheres, dos homossexuais, defesa do meio ambiente – valores, portanto, completamente contrários, incompatíveis com os que são defendidos pelo governo brasileiro. Portanto essa adaptação deverá ser muito difícil", aponta, acrescentando que a eventual adaptação será um "movimento de contorcionismo muito interessante de se ver".

    Brasil pode ter problemas com Biden e a China ao mesmo tempo

    Nesse contexto, Gonçalves ressalta ainda que a relação brasileira com a China terá importância nesse processo e aponta que, em um cenário com Biden na Casa Branca, a retórica assumida por Bolsonaro pode criar problemas com os dois principais parceiros comerciais do Brasil ao mesmo tempo.

    "A sombra da China continuará a cobrir essa relação. Portanto o governo brasileiro deverá continuar mantendo uma retórica que ao fim e ao cabo é antichinesa e isso continua sendo um problema do governo brasileiro, uma vez que as relações econômicas do Brasil com a China são mais intensas do que com os Estados Unidos.
    Em Brasília durante encontro dos BRICS, em 13 de novembro de 2019, o presidente brasileiro Jair Bolsonaro (à esquerda) caminha ao lado do presidente chinês Xi Jinping (à direita).
    © AP Photo / Eraldo Peres
    Em Brasília durante encontro dos BRICS, em 13 de novembro de 2019, o presidente brasileiro Jair Bolsonaro (à esquerda) caminha ao lado do presidente chinês Xi Jinping (à direita).

    Apesar das declarações do chanceler brasileiro Ernesto Araújo garantindo adaptação caso Biden vença as eleições, Bolsonaro não esconde a preferência por Donald Trump, o que já declarou publicamente. Para Gonçalves, esse é um "erro primário".

    "As manifestações em relação ao processo político de outros Estados são um erro político primário, e mais do que isso, porque contraria a Constituição. E é também um erro diplomático primário", avalia.

    As opiniões expressas nesta matéria podem não necessariamente coincidir com as da redação da Sputnik

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    Tags:
    Barack Obama, Ernesto Araújo, Jair Bolsonaro, Casa Branca, Rússia, Brasil, EUA, Donald Trump, Joe Biden
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