00:05 29 Outubro 2020
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    Profundamente criticado por mais de 150 bispos brasileiros, o presidente Bolsonaro preferiu fugir da polêmica com os representantes da Igreja Católica por "estratégia de sobrevivência política", avalia cientista política ouvida pela Sputnik Brasil.

    Nesta semana, o vazamento de uma polêmica carta assinada por 152 bispos, arcebispos e bispos eméritos do Brasil com várias críticas ao governo do presidente Jair Bolsonaro gerou tensão no cenário político e religioso brasileiro. 

    ​No documento, publicado pela coluna da jornalista Mônica Bergamo, da Folha de S. Paulo, os líderes religiosos acusaram a atual administração de não ter capacidade e habilidade para enfrentar as crises pelas quais o país está passando, de se fundamentar em uma "economia que mata", de promover discursos antiéticos e imorais, fazer conchavos políticos visando à manutenção do poder e demonstrar desprezo pela educação, cultura, saúde e diplomacia, entre outras coisas.

    "O Brasil atravessa um dos períodos mais difíceis de sua história, comparado a uma 'tempestade perfeita' que, dolorosamente, precisa ser atravessada. A causa dessa tempestade é a combinação de uma crise de saúde sem precedentes, com um avassalador colapso da economia e com a tensão que se abate sobre os fundamentos da República, provocada em grande medida pelo Presidente da República e outros setores da sociedade, resultando numa profunda crise política e de governança", diz um dos trechos da "Carta ao Povo de Deus".

    Segundo Bergamo, o polêmico texto foi enviado ao papa Francisco, no Vaticano, e a dom João Braz de Avis, cardeal brasileiro que integra a Congregação para o Clero. Apesar da possível pressão extra que esse documento pode colocar sobre o governo, o Palácio do Planalto disse que não iria comentar o assunto. 

    Governo precisa rever suas ações e consertar trajetória

    De acordo com o senador Nelsinho Trad, do PSD de Mato Grosso do Sul, em política, todas as críticas deveriam servir para ajudar a consertar "eventuais equívocos" e "eventuais rumos inadequados" adotados por determinada administração. Em entrevista à Sputnik Brasil, o parlamentar explicou que, no seu entendimento, o governo Bolsonaro deveria "considerar essas críticas" e "procurar, pelo menos, ajustar aquilo que foi devidamente explícito no material assinado por quase 200 bispos". 

    "Eu entendo que é mais do que hora de o governo rever certas ações, no sentido de consertar o seu caminho e a sua trajetória", afirma.

    Para Trad, essas posições críticas à administração federal por parte de um grupo tão representativo da sociedade brasileira poderão, naturalmente, ter influência sobre as eleições municipais deste ano. E a melhor maneira de o governo se defender dessas críticas seria dialogando.

    "O que eu entendo que deve ser feito — e, se estivesse no lugar, faria: eu abriria um canal de diálogo para que se possa entender melhor todas essas críticas e tentar consertar rumos. Porque o governo está no seu segundo ano de gestão, ainda tem mais um grande tempo pela frente e a possibilidade de consertar caminhos que, por ventura, possam estar equivocados."

    Falando mais especificamente sobre esses equívocos, o senador menciona as crises administrativas nos ministérios da Saúde e da Educação, destacando que esses são problemas que precisam ser tratados com mais atenção.

    "Você não vê ninguém ganhar uma eleição dentro de um sistema democrático, no nosso país, sem falar em política de saúde e educação. E, até este momento, nós não estamos tendo condição de mostrar a que veio o atual governo", argumenta. 

    Presidente decidiu evitar conflitos em nome da sobrevivência política

    As 152 lideranças que assinam a "Carta ao Povo de Deus" e "postulam mensagens incisivas de crítica às ações do governo" têm capacidade de influência significativa sobre seus fiéis e podem representar um crescente descontentamento ou até rejeição ao presidente por parte de uma parcela importante da sociedade, acredita a cientista política Ariane Roder, professora da Universidade Federal do Rio de Janeiro (UFRJ).

    Também em declarações à Sputnik, a especialista afirma que a pandemia da COVID-19 escancarou a forma como Bolsonaro e aliados lidam com a ciência, com o meio ambiente e até com a vida.

    "Somadas a esses fatos, as denúncias envolvendo o clã Bolsonaro, a associação com partidos do centrão e as negociações de cargos para apoio ao governo são outros indicadores que demonstram contradição de argumentos e enfraquecem de forma crescente o governo frente à sociedade", diz Roder.

    De acordo com a acadêmica, no que diz respeito às recentes movimentações por parte dos bispos brasileiros em relação a esse governo, tudo indica que há internamente, na Igreja Católica, uma disputa em curso, entre alas progressistas e conservadoras, sobre o posicionamento dessa instituição diante das crescentes crises envolvendo a gestão Bolsonaro.

    "Vale ressaltar que esse embate político interno na Igreja Católica também é resultante do apoio ao governo anunciado por parcela do clero recentemente. Muitos alegam que esse apoio advém de benefícios, através de verbas publicitárias e apoio à radiodifusão. Esse fato traz um ingrediente adicional sobre como a CNBB [Conferência Nacional dos Bispos do Brasil] evitará um racha interno."

    Assim como o senador Trad, a professora também acha que a carta dos bispos, assinada por clérigos de diversas partes do Brasil, tem tudo para repercutir nas eleições deste ano.

    "O resultado do pleito municipal será um grande termômetro para evidenciar a força / fraqueza política do presidente em diferentes regiões do país, ou seja, vai nos possibilitar evidenciar se o apoio de Bolsonaro atrairá ou afastará votos de seus candidatos aliados." 

    ​Após um aumento das tensões há alguns meses, com vários choques entre os poderes, Roder observa uma tendência do chefe de Estado brasileiro de optar por uma postura de menos conflitos, visando, possivelmente à sua própria sobrevivência política. Um exemplo disso, segundo ela, é a busca do governo por pautas positivas junto ao Congresso Nacional, de maneira a "minimizar o clima de paralisia decisória que tem dominado o país em 2020".

    "No meu ponto de vista, a estratégia de sobrevivência política com uma postura menos conflitiva por parte do presidente é acertada neste momento. Mas o perfil imprevisível dele e de seus filhos (influenciadores digitais) nos impede de estabelecer prognósticos mais exatos sobre a permanência dessa estratégia no curto e no médio prazos."

    CNBB evita polêmica após vazamento de carta dos bispos

    A chamada "Carta ao Povo de Deus" estava programada para ser publicada no último dia 22, mas essa publicação foi suspensa para que o texto pudesse ser analisado pelo conselho permanente da Conferência Nacional dos Bispos do Brasil. Seu vazamento ocorreu em meio a temores dos signatários de que o documento fosse censurado por parte do setor mais conservador do órgão. 

    Procurada pela Sputnik Brasil, a instituição afirmou que "a carta mencionada e divulgada nos veículos de comunicação não foi feita pela CNBB", sendo de responsabilidade apenas dos signatários.

    "Portanto, não reflete o posicionamento da Conferência", afirmou a assessoria da CNBB.

    As opiniões expressas nesta matéria podem não necessariamente coincidir com as da redação da Sputnik

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    Tags:
    religião, Igreja Católica, igreja, sobrevivência, educação, saúde, novo coronavírus, pandemia, COVID-19, senador, política, governo, polêmica, carta, CNBB, bispos, Jair Bolsonaro, Brasil
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