04:08 04 Agosto 2020
Ouvir Rádio
    Análise
    URL curta
    Brasil na luta contra COVID-19 no final de julho (61)
    5313
    Nos siga no

    Os frequentes atos de desrespeito dos brasileiros das medidas de isolamento em meio à pandemia da COVID-19 possuem explicações históricas e até mesmo patológicas, de acordo com uma psicanalista ouvida pela Sputnik Brasil.

    No último final de semana, várias capitais litorâneas registraram forte fluxo de pessoas nas praias – mesmo com a conhecida proibição por parte das autoridades municipais e estaduais em alguns casos. O mesmo se viu em bares e restaurantes.

    As aglomerações são abertamente censuradas pelos governantes e profissionais da saúde, uma vez que a proximidade entre as pessoas é um dos elementos para disseminação do novo coronavírus, que já infectou mais de 16 milhões de pessoas em todo o mundo.

    De acordo com a psicóloga clínica e psicanalista Katia Quiala, a "transgressão das orientações das autoridades sanitárias no Brasil é resultante de um processo histórico", que remonta aos primeiros anos da República Velha no início do século XX.

    "Naquela época, o setor de saúde não era organizado em uma estrutura capaz de enfrentar os graves problemas de saúde, e os instrumentos de combate às pestilências como a varíola e a febre amarela, por exemplo, eram justamente campanhas de vacinação obrigatória, cuja condução foi considerada arbitrária devido a violência física e psicológica à qual a população foi submetida", relembrou ela à Sputnik Brasil.

    A especialista ainda comentou que há hoje uma situação mais definida, protagonizada pelo Sistema Único de Saúde (SUS), mas isso não significa uma possibilidade de maior esclarecimento e acesso a saúde e informação - em um país com quase 88 mil óbitos pela doença.

    Pacientes em hospital de campanha montado em ginásio da cidade de Santo André, na grande São Paulo, 9 de julho de 2020
    © AP Photo / Andre Penner
    Pacientes em hospital de campanha montado em ginásio da cidade de Santo André, na grande São Paulo, 9 de julho de 2020

    "Hoje, o setor de saúde é organizado, estruturado, porém encontra-se enfraquecido justamente pelo choque de interesses sociais, políticos e econômicos, que além de descredibilizar as autoridades, ainda influenciam negativamente a população no exercício dos seus direitos e deveres", afirmou.

    A psicanalista ouvida pela Sputnik Brasil reforçou a questão da informação para ajudar a compreender o desrespeito por parte de parte da população das orientações em prol da saúde e da vida. Segundo ela, o volume de dados e posições tem ajudado não a esclarecer, porém muitas vezes a desorientar os cidadãos.

    "A informação é importante, mas em um momento de crise mundial, o esclarecimento se torna essencial e nós vemos hoje uma população que deveria estar sendo orientada e esclarecida sendo alvo de informações, do excesso de informações, informações contraditórias, informações divergentes, no âmbito da saúde, no âmbito político, social e econômico", sentenciou.

    Questionada se o desrespeito do isolamento social poderia ser classificado como uma doença, Katia Quiala esclareceu que sim. De acordo com a psicanalista, muitos têm prazer em transgredir aquilo que está estabelecido como o correto, algo que possui um viés patológico.

    "Sim, existem estrutura psíquicas que reagem com prazer ao ato de transgredir, de infligir, de burlar as leis e isso pode ser sim considerado um transtorno e, portanto, patológico", concluiu.

    As opiniões expressas nesta matéria podem não necessariamente coincidir com as da redação da Sputnik

    Tema:
    Brasil na luta contra COVID-19 no final de julho (61)

    Mais:

    COVID-19: Rio de Janeiro cancela tradicional Réveillon de Copacabana
    Bolsonaro tenta 'enganar' brasileiros ao promover a hidroxicloroquina, diz pneumologista
    Entidades de saúde denunciam Bolsonaro por crime contra humanidade em Tribunal Internacional
    Tags:
    comportamento, desinformação, saúde, distanciamento, isolamento, Jair Bolsonaro, novo coronavírus, COVID-19, pandemia, Brasil
    Padrões da comunidadeDiscussão
    Comentar na SputnikComentar no Facebook
    • Comentar