11:16 26 Outubro 2020
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    O presidente norte-americano tem declarado algumas vezes ao longo de sua presidência que queria Moscou de volta no clube de potências mundiais, depois que foi expulsa do G8 em 2014.

    O presidente norte-americano Donald Trump disse nesta quarta-feira (3) que o "bom senso" exige a presença da Rússia no formato G7 por que metade dos encontros do clube são dedicados à Rússia e seria mais fácil resolver seus problemas se o lado russo estivesse presente.

    O G7 é um dos mais importantes clubes de líderes de potências mundiais e atualmente é composto por representantes de sete países: os EUA, Alemanha, França, Itália, Japão, Reino Unido e Canadá, ou seja, sete países ocidentais, com a exceção do Japão que, no entanto, tem sua política alinhada com Washington. No passado, este clube foi chamado de G8, quando a Rússia fazia parte dele.

    A história deste grupo de países remonta aos anos 70, quando primeiro foi formado o G6 e depois, com a entrada do Canadá, se tornou o G7. Após a dissolução da URSS e o surgimento da Rússia como um novo ator no cenário mundial nos anos 90, surgiu o formato G7+1, que ficou conhecido como G8.

    O formato permaneceu assim até 2014, quando os outros países expulsaram a Rússia do grupo por causa da incorporação da Crimeia no país.

    Durante o tempo em que Moscou participou deste clube, o formato funcionou mais eficazmente, ajudando a resolver vários problemas políticos e econômicos que surgiram no caminho para o desenvolvimento comum de seus membros. Além disso, este formato ajudou a manter o frágil equilíbrio de poder no mundo porque as potências internacionais conseguiram resolver as discrepâncias entre si através desta plataforma.

    Com a expulsão da Rússia, o confronto geopolítico entre Moscou e os países do grupo se agravou significativamente. Mesmo após a saída da Rússia, o G7 continuou discutindo questões diretamente ligadas à Rússia que são impossíveis de resolver sem sua participação, como a economia e comércio, a resolução de conflitos armados em diferentes países e assim por diante.

    O G8 costumava ser um órgão de gestão de problemas políticos e econômicos em nível global, enquanto o G7 se tornou um clube aristocrático de líderes de países ocidentais. Tendo em vista que a maioria das questões discutidas está ligada a Moscou, o formato sem a participação do país eurasiático se tornou ineficaz. Nos últimos anos, o G7 perdeu sua relevância. Ao mesmo tempo, outro formato, o G20, começou a ganhar importância.

    Forte resistência ao retorno da Rússia

    O desejo de Donald Trump de convidar a Rússia para a cúpula do G7, mesmo como país convidado e não como membro permanente, foi criticado por diferentes especialistas, políticos e jornalistas norte-americanos, algo que é pouco surpreendente porque o público norte-americano, em sua maioria, tem uma posição ruim e bastante tendenciosa em relação à Rússia.

    Presidente da Rússia, Vladimir Putin, e o presidente dos EUA, Donald Trump, em novembro de 2018.
    © Sputnik / Vladimir Astapkovich
    Presidente da Rússia, Vladimir Putin, e o presidente dos EUA, Donald Trump, em novembro de 2018.

    Quanto aos países do G7, as opiniões sobre o retorno da Rússia estão divididas, mas a maioria é contra. Entre eles está o Reino Unido, que quer que Moscou deixe de se comportar "de forma agressiva e desestabilizadora". O Canadá tem uma visão semelhante. Do ponto de vista de sua direção política, a Rússia ainda não respeita os padrões internacionais. Segundo o primeiro-ministro canadense Justin Trudeau, o G7 é um lugar de "diálogo entre aliados e amigos".

    A Alemanha, por sua vez, lembrou recentemente que a Rússia foi excluída do G8 por causa do que o país germânico considera uma anexação da península, que a Rússia rebate com o respeito pela vontade do povo da península de ser protegido.

    O porta-voz do governo alemão, Steffen Seibert, reiterou que a base para a decisão de excluir a Rússia ainda existe. Enquanto isso, o primeiro-ministro italiano Giuseppe Conte disse em 2018 que a Rússia deveria voltar ao formato do G8.

    O presidente francês Emmanuel Macron declarou em 2019 que readmitir a Rússia no G7 sem ter resolvido a crise na Ucrânia seria um "erro estratégico" e sublinharia a "fraqueza" do grupo, o que é contrariado pelo governo russo, que tem reiterado em inúmeras ocasiões que não está diretamente envolvido no conflito no leste de seu vizinho.

    Por outro lado, o presidente Trump há muito que defende o retorno da Rússia ao clube.

    O presidente norte-americano será anfitrião da cúpula em 2020, o que significa que pode convidar qualquer país, mas apenas como convidado. O retorno da Rússia como membro pleno exigiria consenso entre todos os sete participantes, mas o Reino Unido e o Canadá deixaram claro que não o permitiriam.

    G7 ou G20, qual seria mais eficaz?

    Donald Trump já apontou que não considera que os países membros do G7 tenham um bom entendimento do que está acontecendo no mundo. Do seu ponto de vista, este formato se tornou obsoleto. Como tal, o presidente dos EUA anunciou sua intenção de convidar a Austrália, Índia, Coreia do Sul e, o que é mais importante, a Rússia para a cúpula de outono. Também o Brasil informou que tinha recebido o convite.

    Estes convites podem servir como um apelo para alterar o formato de uma vez por todas.

    G7 em Biarritz, França
    © AP Photo / Ian Langsdon
    G7 em Biarritz, França

    Se esses países aceitarem o convite, eles participarão da reunião como convidados. Trump já deixou claro que quer que os representantes desses países participem o mais ativamente possível do processo de discussão. De fato, a reunião dos líderes do G7 pode se tornar a cúpula do G12 de forma não oficial. Não é a primeira vez que países convidados participam do evento, mas desta vez ele promete ser muito especial.

    O Brasil pode ter sido convidado por ter o maior PIB da América Latina, a Rússia como um país com enorme peso político nos assuntos internacionais, a Coreia do Sul a por ser uma grande potência econômica, a Índia por ser um dos maiores países da Ásia e a Austrália por servir de baluarte do Ocidente no oceano Pacífico.

    A China também poderia participar da cúpula por ser a maior potência asiática, mas nos últimos anos as relações entre a República Popular da China e os Estados Unidos têm deixado muito a desejar, havendo até uma guerra comercial entre os dois. As más relações de Trump com Pequim podem não ter permitido que Trump convidasse uma potência tão importante para a reunião do clube.

    A representante da chancelaria Russa, Maria Zakharova, saudou a decisão de convidar novos países para a cúpula, mas também enfatizou que é impossível realizar processos de importância global sem a participação da China.

    O formato G7 precisa ser modificado. Outras potências políticas e econômicas de diferentes regiões do mundo devem participar das reuniões multilaterais. Neste sentido, o formato G20 é muito mais eficaz que o G7 porque inclui a participação da Rússia, China e outros países importantes de outras partes do planeta, como Brasil, Argentina e México.

    Se no passado o G7 discutia questões políticas e o G20 tratava de questões econômicas, agora este último resolve tudo. É de esperar que com o tempo o G20 se torne muito mais importante, enquanto o G7 se torne gradualmente menos relevante.

    As opiniões expressas nesta matéria podem não necessariamente coincidir com as da redação da Sputnik

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    Tags:
    Emmanuel Macron, Giuseppe Conte, Steffen Seibert, Justin Trudeau, Canadá, Reino Unido, Japão, Itália, França, Alemanha, G8, G7, Donald Trump, TPP11, TPP, China, EUA
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