12:59 27 Setembro 2020
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    Especialista dos EUA escreveu um artigo sobre o que diz ser uma aliança comercial para produzir mísseis intercontinentais entre Pyongyang e Teerã, mas um analista russo critica o material.

    A Coreia do Norte está profundamente envolvida no programa de mísseis balísticos persas há décadas, disse Bruce E. Bechtol em um artigo para a revista The National Interest, observando que alguns especialistas que não têm informações suficientes dizem que essa cooperação diminuiu após os anos 90. Segundo diz, especialistas norte-coreanos estão presentes no Irã até hoje.

    De acordo com Bechtol, a história da maioria dos mísseis balísticos do Irã tem origem na proliferação e apoio técnico de Pyongyang. O colunista deu exemplos de mísseis iranianos que supostamente se assemelham aos norte-coreanos: a série norte-coreana Musudan e o míssil persa Khorramshahr, o primeiro estágio do veículo de lançamento iraniano Safir e o do míssil norte-coreano Nodong, as tecnologias utilizadas no ônibus espacial Unha e o míssil persa Simorgh.

    O autor do artigo diz que a Coreia do Norte está atualmente ajudando a atualizar a capacidade de mísseis do Irã, ao mesmo tempo que moderniza ainda mais sua própria capacidade. Bechtol prevê que no período de dois a cinco anos provavelmente haverá testes de novos mísseis persas, tirando a seguinte conclusão: "Se você os vir hoje na Coreia do Norte, você os verá amanhã no Irã."

    Evidência seria pouco conclusiva

    Yevgeny Kim, um especialista em assuntos da Coreia do Norte da Academia de Ciências da Rússia, não concorda com ele.

    Os mísseis norte-coreanos foram criados com base em mísseis soviéticos. A Coreia do Norte não comprou os mísseis soviéticos diretamente da URSS ou da Rússia, mas de outros países que os possuíam, como o Egito e o Iraque.

    Além disso, o país asiático adquiriu mísseis táticos de curto alcance. Os cientistas militares norte-coreanos modificaram esses mísseis aumentando seu alcance e mudando outras características chave, disse Kim em seus comentários à Sputnik Mundo.

    Quando alguém fala que os mísseis iranianos são semelhantes aos da Coreia do Norte, acaba por não dizer nada, afirma, por que as tecnologias para a criação de mísseis de diferentes alcances são semelhantes na maioria dos países, mesmo que sejam produzidos por fabricantes diferentes.

    Rampa de lançamento nº 175 das Forças de Mísseis Estratégicos da Rússia, sita no cosmódromo de Baikonur, pouco antes do disparo de um míssil balístico intercontinental RS-18 (variante do UR-100N)
    © Sputnik / Sergei Kazak
    Rampa de lançamento nº 175 das Forças de Mísseis Estratégicos da Rússia, sita no cosmódromo de Baikonur, pouco antes do disparo de um míssil balístico intercontinental RS-18 (variante do UR-100N)

    Como exemplo, o especialista cita o caso da própria Coreia do Norte, que no passado construiu um reator nuclear de cinco megawatts e depois montou uma fábrica para enriquecer o urânio.

    Pyongyang não adquiriu o equipamento para estas duas instalações da Rússia ou de qualquer outro país do mundo. As centrífugas de gás, por exemplo, foram compradas de um empresário paquistanês que, por sua vez, as havia comprado dos Países Baixos.

    "Este é um exemplo de como os iranianos, teoricamente, poderiam ter adquirido as tecnologias para seus mísseis, ou seja, através de intermediários. Há muitas pessoas no mundo que fazem esse tipo de negócio", disse Kim.

    De acordo com analista, a chegada dos norte-coreanos ao Irã é constantemente monitorada pela inteligência de outros países, por isso, se tivesse ocorrido cooperação militar, todos já teriam tomado conhecimento desse fato.

    Quando a Coreia do Norte lançou seus mísseis balísticos intercontinentais, houve rumores sobre a origem da tecnologia de seu propulsor, inclusive com suposições de que os norte-coreanos os tinham obtido da Ucrânia, mas é impossível verificar esta informação, segundo Kim.

    Pyongyang e Teerã: parceiros ou até aliados?

    Irã e Coreia do Norte têm muito em comum: ambos os países estão sujeitos a medidas econômicas dos EUA e contrariam o expansionismo militar norte-americano em suas respectivas regiões. As duas nações foram incluídas pelo presidente George W. Bush no chamado Eixo do Mal.

    Além disso, os dois países foram incluídos na lista de nações patrocinadoras do terrorismo internacional pelo Departamento de Estado norte-americano por motivos muito vagos.

    "A cooperação entre o Irã e a Coreia do Norte foi determinada, entre outras coisas, por sua filiação ao Movimento dos Não-Alinhados. Além disso, ambos os países tinham uma posição política anti-imperialista", disse o entrevistado.

    As relações entre Teerã e Pyongyang foram formalizadas no final dos anos 80, quando a República Islâmica estava dando seus primeiros passos na arena mundial. Com o tempo, o Irã e a Coreia do Norte se tornaram parceiros muito próximos.

    Algumas fontes afirmam que as relações entre os dois se solidificaram quando Pyongyang serviu como intermediário no fornecimento de armas a Teerã durante sua guerra com o Iraque, que durou de setembro de 1980 a agosto de 1988.

    Soldado iraniano com máscara de gás durante a Guerra Irã-Iraque
    Soldado iraniano com máscara de gás durante a Guerra Irã-Iraque

    Os laços entre a Coreia do Norte e o Irã foram fortalecidos com a dissolução da União Soviética, no início dos anos 90. Na época, a Coreia do Norte ficou sem o principal fornecedor de gás subsidiado. Nessa situação, Pyongyang viu Teerã como um parceiro importante, que poderia atender a suas necessidades energéticas.

    Segundo Yevgeny Kim, hoje os dois países poderiam de fato cooperar na área de abastecimento de petróleo, mas o principal problema é a distância. Mas, como pode ser visto no exemplo do fornecimento de petróleo persa para a Venezuela, este problema é resolúvel.

    A Coreia do Norte não tem petróleo próprio, recebendo uma pequena quantidade de petróleo bruto através de um oleoduto da China, e há também o fornecimento de hidrocarbonetos da Rússia.

    Mas as exportações de petróleo para o território norte-coreano estão sujeitas a sanções. Além disso, um país tão populoso como a Coreia do Norte, com cerca de 25 milhões de pessoas, precisa de muito petróleo, avisa Yevgeny Kim. Nesta situação, uma das opções seria iniciar o abastecimento a partir do Irã.

    Outras possíveis áreas de cooperação incluem a medicina. A Coreia do Norte tem desenvolvido e produzido diversas fórmulas farmacêuticas que têm mostrado resultados muito bons durante os testes, mas por causa das sanções ninguém quer comprá-las.

    O Irã poderia ser um dos primeiros países a importar medicamentos norte-coreanos. Teerã poderia procurar uma maneira de negociar mais ativamente com Pyongyang, concluiu.

    As opiniões expressas nesta matéria podem não necessariamente coincidir com as da redação da Sputnik

    Tags:
    EUA, The National Interest, Nodong, Safir, Khorramshahr, Musudan, Sputnik Mundo, Sputnik, George W. Bush, Movimento dos Não-Alinhados (NAM), Irã, Coreia do Norte
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