09:48 27 Maio 2020
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    Brasil luta com pandemia em meados de maio (78)
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    Com queda do PIB em função do coronavírus, governo ficará dividido entre "necessidade" de "expansão de gastos" e liberalismo de Paulo Guedes, disse à Sputnik Brasil a economista Esther Dweck.

    Estimativa do governo anunciada nesta semana aponta uma queda histórica do Produto Interno Bruto (PIB) de 4,7% em 2020. A projeção anterior, de março, era de alta de 0,02%.

    Além disso, o IBC-Br (Índice de Atividade Econômica do Banco Central), considerado uma prévia do PIB, registrou uma queda de 5,9% em março em comparação com o mês anterior.

    Para Dweck, professora do Instituto de Economia da Universidade Federal do Rio de Janeiro (IE-UFRJ), a estratégia para mitigar os efeitos da crise do coronavírus passa por políticas de transferência de renda para a população e de crédito para empresas, assim como ajuda para estados e municípios.

    Medidas que, se fossem propostas antes da epidemia para a equipe ultraliberal do ministro da Economia, Paulo Guedes, seriam rapidamente rechaçadas.

    "O governo vai estar numa sinuca de bico. Por um lado, vai perceber a necessidade de fazer algum tipo de medida de retomada da economia, o que significaria a expansão dos gastos. Por outro, existe a pauta pela qual o governo foi eleito, bastante liberal. E o governo depende do Guedes para se sustentar, porque ele é parte do apoio que o governo tem para aplicar reformas [como da Previdência, por exemplo]", afirmou a especialista.

    Caminho do ajuste fiscal

    Ao chegar à encruzilhada, Dweck aposta qual caminho o executivo irá escolher.

    "Umas das coisas mais graves anunciadas pelo Guedes é que para sair da crise vamos precisar de mais reformas, reformas que na verdade destroem todos os instrumentos que temos de desenvolvimento", disse a coordenadora do Grupo de Economia do Setor Público do IE-UFRJ.

    Além disso, ela lamenta que a equipe econômica do governo tenha se comprometido com a "retomada, a partir do ano que vem, da Emenda Constitucional nº 95", que estabeleceu um teto de gastos públicos durante 20 anos.

    O limite imposto pela lei, que segundo críticos praticamente congelou o investimento público em áreas como saúde e educação, está sendo inevitavelmente furado pela situação de calamidade gerada pela pandemia.

    De acordo com Dweck, esse caminho "vai trazer uma crise econômica forte" e a perda de "apoio" ao governo, o que pode levar Guedes a deixar seu cargo, seja por "conta própria" ou porque a situação ficou "insustentável".

    A especialista, que discorda "totalmente da ideia de que a economia brasileira estava decolando" antes da crise do coronavírus, devido à estagnação do "PIB per capita" e por apostar em uma "ideia errônea" de que o ajuste fiscal traria por si só um boom de investimento, coordenou estudo com três cenários pós-epidemia.

    Três cenários após a pandemia

    No mais otimista, o relatório prevê queda pouco maior de 3%, no intermediário e no pessimista, para ela os mais prováveis, as projeções são de queda de 6% e 11%, respectivamente.

    "Os três panoramas envolvem tanto fatores domésticos quanto externos. Em parte, o próprio governo vai determinar o tamanho dessa queda. Nos fatores domésticos, por um lado, o que mais conta é ter um isolamento social bastante eficaz, o que reduziria o tempo de isolamento, o que não é o que esta acontecendo hoje. Por outro, são as politicas de mitigação dos efeitos econômicos por meio da transferência de renda para a população e garantias de créditos para as empresas, além da transferência de recursos para estados e municípios", disse. 

    Já o economista Milton Pignatari, professor da Universidade Presbiteriana Mackenzie, acredita que a economia brasileira "estava em um processo de tentativa de recuperação", que embora fosse lento, era "sólido".

    Centro histórico de São Luís, no Maranhão, vazio devido ao lockdown decretado em função do coronavírus
    © Folhapress / Futura Press
    Centro histórico de São Luís, no Maranhão, vazio devido ao lockdown decretado em função do coronavírus

    Porém, a crise do coronavírus provocou uma "desestruturação", que fez a "retomada" ir por "água abaixo". Segundo ele, a situação "revela que nossa economia ainda é uma economia frágil".

    Guedes 'mantido' e 'forte'

    Pignatari julga que "é muito difícil saber o que vai acontecer, o caminho da economia está incerto", mas certamente "a expectativa de retomada vai ser prejudicada pelo endividamento da economia, pois as empresas vão se endividar mesmo com todos os benefícios que o governo deu".

    O professor avalia que o "grande problema" para a economia "é o prolongamento do isolamento", e o futuro "depende de até quando isso vai existir". Segundo ele, governadores e prefeitos estão fazendo uso "político" da situação.

    Pignatari considera que a saída de Guedes do governo neste momento seria uma "tragédia" e, mesmo com a crise, ele está "mantido", é hoje o ministro "mais forte" e sua política vai persistir após a pandemia, embora seu "liberalismo" vai "depender" das negociações das reformas com o Congresso.

    "A gente estava sentindo uma recuperação, percebendo que alguma coisa que estava sendo feita e essas politicas estavam dando resultado, mesmo que pequeno. Se a gente imaginar que a gente vem de uma recessão de vários anos, e começa uma recuperação, isso é um sinal de alento, é uma coisa que realmente faria uma diferença muito grande", disse à Sputnik Brasil.

    As opiniões expressas nesta matéria podem não necessariamente coincidir com as da redação da Sputnik

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    UFRJ, Esther Dweck, PIB, crescimento, Paulo Guedes, crise, recessão, economia, quarentena, lockdown, COVID-19, novo coronavírus
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