23:58 14 Agosto 2020
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    Professor de Harvard debate a possibilidade de uma depressão econômica, causada pela COVID-19, ocasionar uma nova guerra mundial.

    A Grande Depressão de 1929 é normalmente apontada como uma das responsáveis pela eclosão da Segunda Guerra Mundial. Será que esse cenário vai se repetir com uma depressão econômica gerada pela COVID-19?

    O professor de Relações Internacionais da Universidade de Harvard, Stephen M. Walt, acredita que os acontecimentos de 2020 colocam o ano como candidato para ser um dos piores da história da humanidade: pandemia, depressão econômica, praga de gafanhotos na África, praga de vespas nos EUA, retórica acirrada entre duas grandes potências mundiais – China e EUA, e, claro, a ameaça constante representada pelas mudanças climáticas.

    "A única coisa que pode piorar esse quadro é uma guerra", escreveu Walt na revista norte-americana Foreign Policy.

    No entanto, de acordo com o professor Barry Posen, do Instituto de Tecnologia de Massachusetts (MIT, na sigla em inglês), a pandemia de COVID-19 tem mais potencial de gerar paz do que guerra.

    Isso porque o novo coronavírus se mostrou capaz de enfraquecer todas as fontes de poder dos governos, tanto no curto quanto no médio prazo.

    Filho vela seu pai, policial norte-americano vítima da COVID-19, em Glen Ridge, estado de Nova Jersey, EUA, 14 de maio de 2020
    © REUTERS / Mike Seagar
    Filho vela seu pai, policial norte-americano vítima da COVID-19, em Glen Ridge, estado de Nova Jersey, EUA, 14 de maio de 2020

    Além disso, para conduzir uma guerra, é necessário aglomerar soldados em atividades de treinamento e combate, "o que não parece ser uma boa ideia durante uma pandemia", escreveu Walt.

    Poder político

    No entanto, governos malsucedidos no combate à pandemia podem procurar "bodes expiatórios" para desviar a atenção de seus cidadãos dos efeitos catastróficos da pandemia. Nos EUA, muitos acreditam que o presidente Donald Trump possa atacar a Venezuela ou o Irã justamente para isso, escreve Walt.

    Repórter com máscara protetora durante conferência de imprensa do presidente dos EUA, Donald Trump, na Casa Branca, em Washington, 11 de maio de 2020
    © REUTERS / Kevin Lamarque
    Repórter com máscara protetora durante conferência de imprensa do presidente dos EUA, Donald Trump, na Casa Branca, em Washington, 11 de maio de 2020

    Mas ele não acredita que isso possa, de fato, levar a uma guerra de grandes proporções.

    "A aposta é muito alta, e se a guerra der errado, será a última martelada no prego do caixão de Trump", escreveu o professor.

    Poder econômico

    Para Posen, a COVID-19 também deve diminuir o fluxo de comércio entre países. As trocas comerciais têm sido um dos principais pontos de atrito das duas potências contemporâneas, China e EUA. Portanto, a diminuição do fluxo de mercadorias deve diminuir a possibilidade de guerra entre esses países.

    Outra teoria que favorece o surgimento de guerras em momentos de depressão econômica é o "keynesianismo militar". A guerra gera demanda econômica e pode ser utilizada como instrumento de recuperação econômica por alguns países.

    "O exemplo óbvio neste caso é a Segunda Guerra Mundial, que, de fato, ajudou os EUA a escapar do atoleiro da Grade Depressão [de 1929]", explicou Walt.

    No entanto, o professor de Harvard não acredita que esse será um mecanismo viável para sairmos da crise econômica gerada pela COVID-19.

    Funcionária de fábrica produz roupas médicas e máscaras de proteção na região de Novossibirsk, na Rússia, 20 de março de 2020
    © Sputnik / Aleksandr Kryazhev
    Funcionária de fábrica produz roupas médicas e máscaras de proteção na região de Novossibirsk, na Rússia, 20 de março de 2020

    "O conflito teria que ter uma escala muito grande para gerar o estímulo [econômico] necessário, e é difícil imaginar um país preparado para iniciar uma guerra de larga escala, considerando que os níveis de endividamento já estão elevados", ponderou.

    Ele lembra que mesmo a tentação de grandes potências militares de "conquistarem países ricos em petróleo" deve se reduzir em função da COVID-19, que derrubou os preços da commodity a níveis negativos.

    Poder social

    No entanto, o professor concede que as ameaças sociais impostas pela COVID-19 podem, sim, levar a uma guerra de larga escala no longo prazo.

    "Uma depressão econômica consistente pode aumentar a probabilidade de guerra, caso fortaleça movimentos políticos fascistas ou xenofóbicos, que estimulem o protecionismo e o hipernacionalismo, o que dificulta a negociação entre os países", alertou.

    Sobrevivente do Holocausto se emociona durante evento dedicado aos 75 anos da Libertação do Campo de Concentração de Auschwitz pelo Exército soviético na Polônia
    © Sputnik / Aleksei Vitvitsky
    Sobrevivente do Holocausto se emociona durante evento dedicado aos 75 anos da Libertação do Campo de Concentração de Auschwitz pelo Exército soviético na Polônia

    No entanto, de acordo com o professor, não há motivos para apostarmos que a COVID-19 nos levará a uma guerra mundial. Por isso, poderemos focar os recursos da sociedade no combate à pandemia que, nesta sexta-feira (15), já deixou mais de 302 mil mortos e infectou 4.456.067 pessoas mundialmente, de acordo com a Universidade Johns Hopkins.

    As opiniões expressas nesta matéria podem não necessariamente coincidir com as da redação da Sputnik

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    Tags:
    economia, Segunda Guerra Mundial, guerra mundial, COVID-19, pandemia
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