03:05 24 Outubro 2020
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    A China apresenta maior dinâmica em termos de crescimento econômico e, mesmo com menor participação de empresas norte-americanas, poderá aproveitar o investimento de outros países do exterior.

    O investimento da China nos EUA atingiu um valor mínimo desde a crise de 2008. De acordo com o estudo The US-China Investment Project, em 2019 o volume de investimentos chineses nos EUA caiu para US$ 5 bilhões (R$ 29,2 bilhões).

    O investimento norte-americano na China, por sua vez, aumentou ligeiramente, mas a tendência pode mudar, dada a política da Casa Branca de limitar o investimento das empresas dos EUA na China.

    Em 2017, os EUA eram o principal mercado de atração de investimentos chineses: o investimento estrangeiro direto da China nos EUA atingiu US$ 29 bilhões (R$ 169,2 bilhões). No entanto, em 2018, após o início da guerra comercial, a entrada de capitais chineses diminuiu drasticamente e totalizou apenas US$ 5,4 bilhões (R$ 31,5 bilhões).

    As empresas chinesas têm sido colocadas na lista negra pelo Departamento de Comércio dos EUA e de repente se veem impedidas de cooperar com parceiros americanos. O Comitê de Investimentos Estrangeiros dos EUA (CFIUS, na sigla em inglês) está tentando fechar uma série de indústrias ao capital chinês usando a segurança nacional como justificação.

    O presidente dos EUA, Donald Trump, e o vice-premiê da China, Liu He, durante cerimônia de assinatura do acordo comercial entre os dois países na Casa Branca (foto de arquivo)
    © AP Photo / Evan Vucci
    O presidente dos EUA, Donald Trump, e o vice-premiê da China, Liu He, durante cerimônia de assinatura do acordo comercial entre os dois países na Casa Branca (foto de arquivo)

    Nessas circunstâncias, a China está procurando outros mercados para seus investimentos, por exemplo, na África. Os fundos chineses Qingliu Capital, Jiuhe Venture Capital e Shaka Ventures investiram na GONA da Nigéria, que está sediada em Lagos e oferece um serviço de pagamento cashless em transporte público.

    A fabricante chinesa de smartphones Transsion, que tem mais de 58% do mercado africano, investiu US$ 40 milhões (R$ 232,9 milhões) na empresa de pagamentos nigeriana PalmPay.

    As empresas norte-americanas também estão reduzindo sua atividade de investimento na China. Embora o investimento americano na China tenha aumentado ligeiramente, para US$ 14 bilhões (R$ 81,6 bilhões) em 2019, de acordo com a Rhodium Group LLC, isso foi apenas devido a grandes projetos de longo prazo, como a fábrica da Tesla em Xangai ou o complexo petroquímico da Exxon Mobil em Guangzhou.

    No primeiro trimestre deste ano, o investimento de capital de risco dos EUA na China foi de apenas US$ 600 milhões (R$ 3,5 bilhões), metade do investimento médio trimestral dos anos anteriores.

    Viragem na estratégia

    A política dos EUA em relação à China mudou drasticamente, sendo agora os dois países rivais estratégicos. A tendência de distanciamento um do outro continuará no futuro, previu à Sputnik China o especialista do Centro de Economia e Desenvolvimento Mundial do Instituto de Estudos Internacionais da China, Jiang Yuechun.

    "Eu acho que a principal razão é que houve uma mudança fundamental na política dos Estados Unidos em relação à China. Em dezembro de 2017, os EUA publicaram uma nova estratégia de segurança nacional, na qual a China foi reconhecida como um rival estratégico".

    "Enquanto antes as relações com a China se baseavam na cooperação com elementos de concorrência, agora, pelo contrário, se baseiam na concorrência com elementos de cooperação. A estratégia dos EUA em relação à China mudou em tais circunstâncias, tanto no plano político como no econômico, científico e tecnológico, sendo seguida uma política de 'desconexão'", constata.

    O "divórcio" com a China está forçando Washington a reconsiderar toda a política de investimento em relação à China. A administração de Trump apelou recentemente aos fundos de pensão americanos para que deixassem de investir em índices que possam incluir ações de empresas chinesas para supostamente excluir a possibilidade de financiamento de negócios chineses às custas dos contribuintes dos EUA.

    O Conselho Federal de Investimentos para Aposentadoria (FRTIB, na sigla em inglês) dos EUA decidiu, já em 2017, que os fundos de pensão serão orientados em suas decisões de investimento pelo índice mais amplo MSCI All Country World, que mede a capitalização ponderada de empresas de 47 países. Mas 7,5% do peso desse índice corresponde a empresas chinesas.

    Maturidade contra dinamismo

    No entanto, o índice CSI 300 da China mostra quase os melhores resultados do mundo neste ano, apesar da pandemia do coronavírus. Já aumentou 3% em 2020, enquanto os mercados acionários mundiais estão, em sua maioria, no vermelho.

    Painel com dados financeiros da Bolsa de Valores de Nova York (foto de arquivo)
    © AFP 2020 / SPENCER PLATT / Getty Images
    Painel com dados financeiros da Bolsa de Valores de Nova York (foto de arquivo)

    O índice S&P 500 norte-americano, por exemplo, perdeu 3% no mesmo período. O FTSE 100 de Londres está 1,6% mais baixo, enquanto as empresas chinesas estão em ascensão. Abandonar o investimento significa perder bons dividendos, por isso, uma "desconexão" de investimentos entre a China e os EUA poderia pôr os últimos em pior situação, diz o especialista.

    "Em uma economia globalizada, qualquer cooperação econômica entre países pode ser mutuamente benéfica ou, inversamente, trazer uma perda para todos. A única coisa é que o grau de influência pode variar.

    "Em uma situação de declínio dos investimentos recíprocos, os Estados Unidos provavelmente sofrerão mais danos. É sabido que a economia chinesa está em alta desde o início da política de reforma e abertura, e isso ainda não mudou", afirma.

    Na opinião de Yuechun, para economias maduras como os EUA é mais difícil competir com a China em potencial de crescimento econômico, assim, os dois lados poderiam beneficiar da cooperação devido ao desenvolvimento da economia chinesa.

    "Se a cooperação parar, é claro que haverá prejuízos", admite. "Mas do ponto de vista da China, mesmo que não haja investimentos dos EUA, continuaremos desenvolvendo a cooperação com outros países, e isso não afetará seriamente o desenvolvimento da economia chinesa como um todo."

    Repercussões em obrigações de dívida

    As ações dos Estados Unidos muitas vezes minam a confiança no seu próprio mercado, pois a China continua sendo o maior detentor da dívida pública norte-americana, aponta a Sputnik China.

    Quando a Casa Branca questiona se deve ou não desistir de todos os títulos do Tesouro que estão nas mãos da China, ela estraga em primeiro lugar a imagem dos Estados Unidos, que já foram considerados inquestionáveis em termos de cumprimento do serviço das suas obrigações devedoras, escreve a Sputnik China.

    Agora os investidores, não só da China, mas também de outros países, olham para os títulos do Tesouro dos EUA de uma nova forma e estão mudando lentamente para a dívida pública da China.

    A empresa Bond Connect Company, que administra o programa Bond Connect, um esquema de acesso mútuo ao mercado entre a República Popular da China e o exterior, revelou que os investidores estrangeiros, no final de março, detinham dívida pública da China no valor de 2,26 trilhões de yuans (R$ 1,87 trilhão).

    No primeiro trimestre deste ano, o investimento em dívida pública da China aumentou 28% em relação ao período homólogo do ano anterior.

    As opiniões expressas nesta matéria podem não necessariamente coincidir com as da redação da Sputnik

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    Tags:
    Departamento de Tesouro dos EUA, Sputnik China, Sputnik, China, EUA
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