14:14 04 Junho 2020
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    Nos últimos dias foi relatada a entrada de mercenários na Venezuela a partir da Colômbia. Seria uma nova tentativa da administração Trump de "mudar o regime" através de seu aliado?

    Na Venezuela está em andamento a Operação Gideon: uma incursão de mercenários venezuelanos e norte-americanos destinada a derrubar o governo de Nicolás Maduro. Vários deles já foram presos e mortos nas últimas 48 horas, relata a Sputnik Mundo.

    A ação mercenária estava prevista para começar em 10 de março. Os planos foram adiados porque a oposição local não conseguiu ativar o cenário de rua necessário. A chegada da pandemia e a quarentena interromperam os planos do ficou conhecido no domingo (3) como Operação Gideon.

    Na manhã desse domingo (3), um barco chegou ao litoral de La Guaria, na cidade de Macuto, próximo de Caracas. A embarcação era esperada por um destacamento da Polícia Nacional Bolivariana, das Forças de Ação Especial, do Serviço de Inteligência Bolivariana, da Direção de Contra-Inteligência Militar e da Marinha venezuelana.

    O barco em que vinham os mercenários abriu fogo. Era noite escura. A resposta das autoridades foi imobilizar os membros da embarcação, que entretanto tinha virado. Entretanto, barcos de patrulha e helicópteros com especialistas em combate noturno foram colocados ao longo da costa em busca do segundo barco.

    Como resultado, oito mercenários foram mortos, dois foram presos e o país despertou em estado de choque. Foram apreendidos telefones via satélite e veículos, bem como armas de grande calibre.

    A invasão continua

    Na segunda-feira (4) ocorreu a segunda ação de neutralização de outro grupo de mercenários, desta vez no litoral do Aragua, na cidade de Chuao, uma área ligada à capital do país através de montanhas. Nessa ocasião foram presos oito homens, entre eles dois norte-americanos, Luke Denman e Aaron Berry, ex-oficiais das Forças Especiais dos EUA.

    Entre eles estava um dos chefes da operação, o capitão fugitivo Antonio Sequea, que havia participado da tentativa de golpe de Estado de 30 de abril de 2019. No domingo (3), outro chefe da operação, o capitão fugitivo Robert Colina, vulgo Pantera, havia morrido no confronto.

    Nas horas seguintes, na segunda-feira (4), ocorreram mais duas detenções, desta vez de dois ex-policiais, Rodolfo Rodríguez e Yeferson Fernández, que carregavam materiais logísticos, tais como armas e coletes.

    Barcos das forças de segurança venezuelanas, depois que o governo da Venezuela anunciou uma incursão mercenária fracassada, em Macuto, Venezuela, 3 de maio de 2020
    © REUTERS / Manaure Quintero
    Barcos das forças de segurança venezuelanas

    Assim, menos de 48 horas após o início da Operação Gideon, o governo conseguiu capturar 12 mercenários, com oito mortes, todos eles saídos da península de La Guajira, Colômbia. A inteligência venezuelana sabia o que estava sendo planejado e tinha se preparado para lidar com isso. O nome dado pelo governo a essa ação de defesa foi Operação Negro Primeiro, Esmagamento do Inimigo.

    O que é a Operação Gideon?

    Caracas conseguiu as primeiras vitórias para desativar o plano de golpe. Segundo o presidente da Venezuela, Nicolás Maduro, entre 19 de abril e 3 de maio, parte da base de apoio mercenária dentro do país foi desmantelada: a Operação Gideon foi infiltrada.

    Na tarde de domingo (3), foi publicado um vídeo nas redes sociais em que dois homens assumiram a responsabilidade pela tentativa de golpe: o capitão fugitivo Nieto Quintero e o ex-militar norte-americano Jordan Goudreau, proprietário da Silvercorp USA, empresa de segurança na Flórida, EUA.

    Ambos afirmaram que a operação ainda estava em andamento e apelaram à FANB para aderir aos seus objetivos de capturar Maduro e a liderança da Venezuela.

    Goudreau deu uma entrevista à noite para contar sua versão dos eventos: o ex-membro das Forças Especiais dos EUA disse que estava encarregado de ações planejadas há meses a partir da Colômbia, e que essa operação havia sido inicialmente combinada com Juan Guaidó, com quem havia assinado um contrato de US$ 212 milhões (R$ 1,18 bilhões), mas que Guaidó nunca havia cumprido a sua parte.

    A existência desse contrato, que Goudreau demonstrou, havia sido desmentida por Guaidó em março, quando o ex-major-general Cliver Alcalá confessou que estava à frente de uma tentativa de incursão militar da Colômbia na qual Guaidó estava participando.

    Guaidó foi assim exposto no que Goudreau confirmou como sua participação inicial e depois traição. Tanto o autoproclamado presidente interino, quanto o setor de oposição que o cercava, negaram a existência da Operação Gideon e acusaram o governo de ter realizado uma montagem para encobrir as dificuldades do país.

    Assim, de acordo com a explicação do ex-militar norte-americano, e posteriormente dada por Quintero, a operação foi desenvolvida quase sem financiamento, sem o apoio do governo dos EUA, da Colômbia ou da oposição venezuelana. Teria sido, segundo Quintero, uma iniciativa mercenária autofinanciada que teria reunido, "cerca de 3.000 membros entre oficiais, suboficiais e tropas no exílio".

    A privatização da guerra

    Dois dias antes do início da Operação Gideon, foi publicado um artigo na agência Associated Press, no qual são feitas referências a Goudreau, se dá conta da sua relação com Cliver Alcalá e é explicada parte da trama mercenária. Ambos eram apresentados como atores isolados de um plano de incursão armada na Venezuela.

    Soldados venezuelanos usando máscaras faciais cercam um suspeito retirado de um helicóptero depois do que as autoridades venezuelanas descreveram como uma incursão mercenária, em um local desconhecido. Imagem obtida de um vídeo da TV estatal venezuelana, 4 de maio de 2020
    © REUTERS / Televisão Estatal da Venezuela / Handout
    Soldados venezuelanos usando máscaras faciais cercam um suspeito retirado de um helicóptero

    Assim, a tentativa de remover toda a conexão entre EUA, Colômbia e Guaidó começou antes da execução da operação. O objetivo seria libertar os principais atores políticos de toda responsabilidade por tal ação de guerra e de uma possível derrota.

    Assim, o ex-militar não teria qualquer ligação com o Governo americano e os campos de treinamento mercenários, denunciados em várias ocasiões por Maduro, teriam sido organizados na Colômbia sem que ninguém soubesse.

    O presidente venezuelano criticou esta versão dos acontecimentos na segunda-feira (4) à noite.

    A operação teria, na verdade, sido organizada pelos Estados Unidos e realizada através de sua agência antidrogas, o Órgão de Combate às Drogas (DEA, na sigla em inglês), em território colombiano, onde instrutores norte-americanos treinaram os grupos que entraram na Venezuela.

    Segundo Maduro, durante a última visita do presidente colombiano Ivan Duque à Casa Branca, em 2 de março, o presidente norte-americano Donald Trump lhe deu ordem para iniciar as ações que viriam a ser realizadas, após atrasos.

    Presidente da Venezuela, Nicolás Maduro, fala durante uma reunião com as Forças Armadas Bolivarianas no Palácio Miraflores, em Caracas, Venezuela, 4 de maio de 2020
    © REUTERS / Palácio Miraflores / Handout
    Presidente da Venezuela, Nicolás Maduro, fala durante uma reunião com as Forças Armadas Bolivarianas

    Quanto ao financiamento, a parte principal veio dos "cartéis da Alta Guajira colombiana", disse Maduro, a área onde estava localizada a maioria dos centros de treinamento militar. Eles também recorreram a gangues criminosas de vários estados venezuelanos, incluindo Falcón, La Guaira, Caracas e Miranda.

    Assim, ao contrário do que afirmaram Goudreau e Quintero (autofinanciamento mercenário motivado pelo altruísmo), as evidências indicam um formato implementado pelos Estados Unidos há muitos anos: a privatização da guerra.

    "O governo dos Estados Unidos delegou na DEA e na Silvercorp todo o seu planejamento operacional", denunciou Maduro.

    O esquema é o seguinte: Washington aperta o bloqueio econômico, coloca a cabeça de Nicolás Maduro e Diosdado Cabello a prêmio, reforça sua presença militar no mar do Caribe, anuncia um marco de transição, recebe apoio diplomático e trabalha as operações militares encobertas através da empresa de um ex-militar e desertores venezuelanos da retaguarda, no território da Colômbia.

    O presidente Donald Trump declarou na terça-feira (5), como era de se esperar, que não estava a par da operação e negou que seu governo estivesse envolvido.

    Seria uma guerra?

    Uma das fotografias que causou maior impacto foi a de um miliciano em trajes civis com uma arma na mão na frente do barco com mercenários em Chuao. O papel do que se chama inteligência popular tem sido central, como explicou Diosdado Cabello.

    O destacamento civil-militar venezuelano está em alerta máximo, pois a operação ainda não acabou. Segundo o governo, 56 mercenários tentaram entrar no país, 54 venezuelanos e dois norte-americanos, alguns deles acabariam por ser presos e outros mortos no confronto de domingo (3) de manhã.

    O objetivo desses grupos era atacar a Direção-Geral de Contrainteligência Militar, o Serviço Bolivariano de Inteligência Nacional SEBIN e o Palácio Miraflores.

    A estratégia de Caracas é neutralizar as ações antes que elas aconteçam, para evitar que os planos de golpe sejam executados. Até agora, muitas prisões antecederam a entrada dos mercenários, e também aconteceram na sequência da chegada de parte dos barcos.

    A Venezuela está enfrentando uma nova fase de cerco ininterrupto. A aposta dos Estados Unidos é conseguir que um conjunto de variáveis finalmente consiga derrubar Nicolás Maduro para que a estratégia de "mudança de regime" desenhada a partir de Washington possa começar.

    O governo enfrenta um cenário com três frentes simultâneas: a luta contra a pandemia, que está sob controle devido às medidas implementadas, a grave situação econômica, em grande parte devida ao bloqueio dos EUA, e a incursão mercenária da Operação Gideon.

    As opiniões expressas nesta matéria podem não necessariamente coincidir com as da redação da Sputnik

    Tags:
    Sputnik Mundo, Sputnik, Forças Especiais dos EUA, Juan Guaidó, Donald Trump, Nicolás Maduro, Colômbia, EUA, Venezuela
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