13:31 27 Outubro 2020
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    Situação em torno da pandemia de COVID-19 no fim de abril (140)
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    O crescente tom de crítica dos EUA e aliados à China por causa da COVID-19 seria sintoma do falhanço interno destes países na resposta à pandemia.

    Diversos aliados norte-americanos estão se envolvendo em uma campanha da Casa Branca acusando a China de suposta ocultação de informações sobre a epidemia de COVID-19.

    A Austrália pediu uma investigação global sobre as causas da pandemia sem a liderança da Organização Mundial da Saúde (OMS). A Alemanha pediu a Pequim transparência sobre a questão do surgimento do novo tipo de coronavírus.

    A ministra australiana das Relações Exteriores, Maris Payne, disse em entrevista à emissora australiana ABC no domingo (19) que Camberra insistiria em um relatório que abordasse, entre outras coisas, a resposta da China ao surto e a transparência das informações transmitidas.

    A alta responsável defendeu a criação de um mecanismo de investigação que possa ser verificado pela comunidade internacional. No entanto, ela não acredita que a investigação deva ser conduzida pela OMS.

    Maris Payne se recusou a responder diretamente à questão se ela acredita na China quanto à questão da pandemia, dizendo apenas que confia na China para trabalhar em conjunto.

    Ela acrescentou que o impacto da pandemia poderia mudar a relação entre a Austrália e a China "de alguma forma", porque sua preocupação com a transparência das ações de Pequim está agora "em um nível muito alto". A ministra disse que compartilha as mesmas preocupações que os EUA.

    Coro 'bem encenado'

    Em entrevista à Sputnik China, o professor Wang Guanglin, do Instituto de Línguas Estrangeiras de Xangai, explicou a solidariedade da Austrália com os EUA a esse respeito pela prática tradicional de Camberra ser obrigada de vez em quando a "imitar" Washington, por razões políticas e ideológicas.

    "Em termos do estado atual das relações internacionais, a Austrália tem de agir em uníssono com os Estados Unidos. No entanto, nos últimos anos houve um boom nas relações econômicas e comerciais entre a China e a Austrália".

    O acadêmico sublinhou que a comunidade chinesa na Austrália "tem contribuído muito para o desenvolvimento do país", e que seu nível de organização supera o da população local.

    Uma voluntária da igreja tem sua temperatura verificada como medida preventiva antes da distribuição de alimentos para pessoas necessitadas, aprovada como serviço essencial na igreja evangélica anglicana One1Seven em Sydney, Austrália, 17 de abril de 2020
    © REUTERS / Loren Elliott
    Uma voluntária da igreja tem sua temperatura verificada como medida preventiva em meio ao coronavírus

    "Na Austrália compreendem isso bem, mas não conseguem ou não querem dizer isso frequentemente em voz alta, porque não está de acordo com o que os EUA exigem da Austrália. Isso poderia decepcionar os americanos", expressou Guanglin.

    "Claro que no geral a Austrália não pode seguir os EUA em tudo, mas de vez em quando, por razões políticas, tem que demonstrar tal posição".

    No domingo (19) o ministro alemão da Cooperação Econômica e Desenvolvimento, Gerd Muller, também se pronunciou no espírito das acusações norte-americanas contra a China.

    Em entrevista ao grupo de mídia Funke, ele pediu à China que mostre total abertura nesta crise global, especialmente no que diz respeito à origem da infecção pelo coronavírus.

    Ação internacional anti-China

    O especialista e cientista político Oleg Matveichev, da Escola Superior de Economia de Moscou, sugere que o coro de tais vozes no mundo pode aumentar o apoio aos EUA, e diminuir o apoio à China:

    "Trump já tentou muitas vezes, por razões econômicas, criar uma coalizão contra a China. Agora ele acha que tem algumas razões morais para unir o mundo ocidental contra Pequim na questão da pandemia. Como é costume em tais situações, todos os satélites dos EUA começam a expressar uma posição idêntica à dos EUA".

    Depois da Austrália, é possível esperar que o Reino Unido, a Polônia e os países bálticos em particular se juntem à ação dos norte-americanos, por serem os "mais dispostos a imitar os EUA", sublinha Matveichev.

    "Eles podem até levar esta questão à ONU para tentar ganhar a guerra de informação contra a China, para incutir a toda a humanidade [a ideia] de que as autoridades chinesas são alegadamente culpadas pela epidemia, que esconderam algo ou disseram algo errado. Eles vão reinterpretar e deitar todas as culpas na China, diga ela o que disser", disse à Sputnik.

    O jogo virou

    Os países ocidentais, principalmente os Estados Unidos, estavam completamente desarmados perante a pandemia, observou o especialista. Os sistemas de saúde têm colapsado, causando pânico. Nesta situação, já começou a busca pelos culpados. Ao invés de tentarem perceber e resolver os seus problemas, eles começaram a apontar o dedo para a China.

    Agentes de saúde fazem um minuto de silêncio pela morte de colega, em Madri, na Espanha, 20 de abril de 2020
    © AP Photo / Manu Fernandez
    Agentes de saúde fazem um minuto de silêncio pela morte de colega, em Madri, na Espanha, 20 de abril de 2020

    Ao mesmo tempo, em fevereiro e início de março, quando o Ocidente não tinha tais problemas, todos elogiavam a China por suas ações rápidas e oportunas, pelas informações fornecidas sobre o vírus e por esta alertar todos os países sobre o perigo da doença.

    Os médicos chineses comunicaram os dados disponíveis para ajudar especialistas de outros países em seu trabalho, referiu Oleg Matveichev.

    A atual pressão política ocidental sobre a China começou a aumentar no momento em que esta começou a mostrar sucesso no combate ao vírus, e sua economia começou a se recuperar, enquanto os EUA e a Europa, pelo contrário, começavam a sentir uma forte subida de infeções e uma queda na economia devido à quarentena, mencionou o cientista político.

    Lucrar com o vírus

    Foi nessa situação que começaram se multiplicando os mitos em torno da responsabilidade da China por tudo o que está acontecendo no mundo. Vários senadores norte-americanos até pediram que a China fosse punida e sugeriram que os EUA não pagassem à China as obrigações de dívida norte-americanas.

    Eles exigiram uma indenização pela pandemia de US$ 1,2 trilhão (R$ 6,38 trilhões), exatamente o mesmo valor dos títulos norte-americanos detidos pela China. A politização é óbvia, disse Oleg Matveichev.

    "A ideia é clara, tentar também ganhar dinheiro com o vírus. Os EUA teriam deixado de ser eles mesmos se não o tivessem tentado. É muito difícil imaginar que, de alguma forma, os Estados Unidos venham a anular a sua dívida para com a China".

    "Isso também significaria um colapso completo da confiança nos títulos americanos, e nesse caso seria difícil para o dólar ser a moeda de reserva do mundo. Isso mudaria seriamente todo o sistema internacional em prejuízo dos Estados Unidos", afirma.

    No contexto da crise sanitária mundial, os países devem se unir em vez de se culpar uns aos outros, muito menos buscar reparações, disse o porta-voz do Ministério das Relações Exteriores chinês, Geng Shuang, na segunda-feira (20).

    Os EUA devem entender que seu inimigo é o vírus, não a China, disse o diplomata. Ele pediu aos EUA que parem com as constantes acusações e ataques contra a China. Denegrir outros países não vai recuperar o tempo perdido e as vidas perdidas, disse.

    As opiniões expressas nesta matéria podem não necessariamente coincidir com as da redação da Sputnik

    Tema:
    Situação em torno da pandemia de COVID-19 no fim de abril (140)

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    Abc.net.au, COVID-19, Sputnik, Sputnik China, OMS, EUA, Austrália, Alemanha, China
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