14:47 04 Junho 2020
Ouvir Rádio
    Análise
    URL curta
    14407
    Nos siga no

    Apesar de a queda econômica ter sido forte no primeiro trimestre, a recuperação da economia chinesa no resto do ano deverá não só melhorar o quadro geral, como também tornar o país motor mundial do crescimento.

    A economia da China contraiu 6,8% no primeiro trimestre deste ano como resultado da epidemia do coronavírus, sendo a primeira queda desde 1992. No entanto, o Fundo Monetário Internacional (FMI) espera que as economias de alguns países da região Ásia-Pacífico, e especialmente da China, voltem a crescer e se tornem motores da recuperação global.

    Especialistas entrevistados pela Sputnik China dizem que o país será capaz de manter seu próprio crescimento econômico, e criará uma demanda mundial que salvará muitos países da recessão.

    À primeira vista, os dados do PIB e outros indicadores econômicos do primeiro trimestre publicados pelo Escritório de Estatística do Estado da China não são brilhantes. O declínio da economia superou a previsão consensual de muitos economistas.

    Ao mesmo tempo, as vendas no varejo caíram 15,8%, e os investimentos em ativos fixos sofreram uma queda de 16,1%. No entanto, a produção industrial se mostrou muito mais positiva do que o planejado, contraindo apenas 1,1%.

    É preciso ter em mente que a China foi o primeiro país a enfrentar a epidemia do coronavírus. Na ausência de qualquer experiência, o país asiático teve que desenvolver medidas para enfrentar a nova ameaça, o que é sempre muito mais difícil do que seguir caminho já trilhado.

    Efeito econômico da pandemia

    Apesar disso, de acordo com as previsões do FMI, a situação econômica em outros países será ainda mais dramática. O PIB dos EUA pode cair quase 25% no segundo trimestre, e a expectativa é que a queda no final do ano seja de 5,9%. O PIB vai diminuir 9,3% na Itália em 2020, e 8% na Espanha.

    O FMI espera que quase todos os países desenvolvidos enfrentem inevitavelmente uma queda média de 6,1% na economia até o final do ano.

    Mas os países em desenvolvimento da região Ásia-Pacífico, e especialmente a Índia e a China, continuarão sendo os motores de crescimento, prevê a organização internacional.

    O crescimento anual da China este ano é estimado em 1,2%. O PIB da Índia deve incrementar ainda mais, em 1,9%. É esperado também que a Indonésia continue acima da linha de água, com mais 0,5%, sendo também esperado um pequeno crescimento nas Filipinas e Vietnã.

    Em média, como previsto pelo FMI, os países em desenvolvimento da região Ásia-Pacífico irão ter cerca de 1% do crescimento do PIB no final do ano. Por isso, os dados atuais do PIB trimestral na China não são a pior notícia.

    Chinesa abaixa máscara para tirar uma selfie, em Wuhan, capital da província de Hubei, na China, 13 de abril de 2020
    © AP Photo / Ng Han Guan
    Chinesa abaixa máscara para tirar uma selfie, em Wuhan, capital da província de Hubei, na China, 13 de abril de 2020

    Pelo contrário, é um sinal positivo o fato de as autoridades chinesas terem publicado tais estatísticas, o que significa que Pequim reconhece abertamente as dificuldades existentes, e comunica-as ao resto do mundo, preparando medidas adequadas para resolver os problemas, diz Aleksandr Gabuyev, diretor do programa "Rússia na Região Ásia-Pacífico" no Centro Carnegie de Moscou.

    "É bastante positivo que a China tenha comunicado honestamente a queda do PIB no primeiro trimestre. E é óbvio que a liderança chinesa entende os problemas e não está tentando encobrir a situação, embora haja algumas dúvidas sobre a magnitude do declínio em si", comenta.

    "Parece que se perderam pelo menos um mês e meio ou dois meses de atividade econômica, em grande parte devido às medidas de quarentena, a profundidade do declínio poderá ser maior".

    Redução da produção

    Para combater a propagação da epidemia, a liderança chinesa tomou a difícil decisão de colocar em quarentena cidades inteiras, incluindo 11 milhões de pessoas em Wuhan. Como a economia não funciona há bastante tempo, uma queda de 6,8% não é tão ruim assim, disse Huang Weiping, professor de Economia da Universidade Popular da China, em entrevista à Sputnik.

    Segundo ele, com a recuperação da produção, a situação econômica também vai melhorar, mas há obstáculos. A pandemia afetou muitos países, incluindo os principais mercados de produtos chineses, por isso o declínio da demanda global é um desafio sério para a China, disse o especialista.

    "No primeiro trimestre, muitos negócios não retomaram as operações ou não estavam totalmente operacionais. Além disso, o fechamento de cidades e estradas por causa da quarentena impossibilitou naturalmente a logística, o que contribuiu para uma queda significativa na demanda".

    Sinais da recuperação

    Weiping refere que os setores terciários do turismo, entretenimento e restauração foram todos muito atingidos, o que torna uma redução de 6,8% "bastante aceitável".

    "Desde a segunda quinzena de março a situação começou a melhorar, e a produção está crescendo passo a passo. Mas eu acho que há duas coisas que merecem atenção. Em primeiro lugar, o número de encomendas estrangeiras diminuiu significativamente devido ao impacto da epidemia na Europa e nos Estados Unidos. Como tal, é preciso aumentar a demanda interna".

    "Em segundo lugar, precisamos restaurar todos os laços da cadeia de abastecimento", adverte. "Não interessa qual o elo da cadeia que se quebrou, o mais baixo, o médio ou mais alto, [qualquer interrupção] dificultará o processo normal de produção".

    Como um raro dado positivo, Weiping menciona os novos créditos de 7,1 trilhões de yuans (R$ 5,26 trilhões), que "superaram as expectativas", diz, dando confiança relativamente às perspectivas de crescimento para os restantes trimestres do ano.

    Receitas para subir

    A China ainda está em alerta. Embora a propagação da epidemia no país tenha sido contida e o número de casos de transmissão interna minimizado, ainda há a possibilidade de um aumento de casos "importados", pois no resto do mundo a pandemia está longe de ter terminado.

    Prevenir uma segunda onda da epidemia é a tarefa mais importante da qual também vai depender o estado da economia em 2020, disse Aleksandr Gabuyev. Como tal, o país viverá em um estado de compressão-expansão.

    No entanto, há todos os motivos para acreditar que a China será um motor de recuperação do crescimento, se não de toda a economia mundial, pelo menos alguns de seus setores e de alguns países.

    Linha de produção de máscaras médicas para exportação na província de Jiangxi, na China, 8 de abril de 2020
    © REUTERS / China Daily
    Linha de produção de máscaras médicas para exportação na província de Jiangxi, na China, 8 de abril de 2020

    A deterioração das condições de vida de dezenas de milhões de pessoas que vivem nas grandes cidades por causa da perda de emprego poderia ser não só um problema econômico, mas também social e político, avisa Gabuyev.

    "Por causa disso, se a China não tiver incentivos suficientes para bombear o sistema financeiro, ela usará métodos comprovados para implementar grandes projetos de infraestrutura, talvez na área do ambiente, como a conversão de usinas elétricas, ou de edifícios que não atendem aos requisitos ambientais, ou modernizar edifícios", prevê.

    "[Tudo] isso vai ajudar a criar empregos, e significa que a demanda por uma série de produtos cotados em bolsa, principalmente metais, mas também hidrocarbonetos, vai diminuir pouco, ou talvez até permanecer no mesmo nível".

    A exportação ligeiramente crescente (em termos físicos) das empresas russas de metalurgia para a China incutem um otimismo cauteloso, se observando igualmente algum crescimento nos preços do níquel.

    "As empresas petrolíferas também não estão diminuindo seus volumes de vendas para a China, pelo menos segundo os resultados dos primeiros três meses. Eu acho que isso levará a uma grande reorientação das exportações de petróleo russo para a China, à luz do acordo da OPEP+".

    China como motor global

    A retomada da produção na China poderia apoiar o abastecimento das cadeias de abastecimento globais, o que seria algo muito benéfico para a economia global, disse Huang Weiping, lembrando que a China é responsável por cerca de um terço do crescimento econômico global anualmente.

    "Como resultado, a rápida recuperação da China também ajudará a recuperação global. É também muito possível que a contribuição da China para o crescimento global neste ano seja ainda maior do que antes".

    Os especialistas entrevistados pelo Sputnik confirmam a declaração feita por Mao Shengyong, representante oficial do Escritório Estatal de Estatísticas da China, quando anunciou as estatísticas atuais.

    Segundo ele, as autoridades introduzirão medidas de estímulo adicionais se for necessário, e se concentrarão no apoio à demanda interna. Shengyong estimou que a economia da China deva crescer em média mais de 5% nos próximos dois anos.

    As opiniões expressas nesta matéria podem não necessariamente coincidir com as da redação da Sputnik

    Tags:
    China
    Padrões da comunidadeDiscussão
    Comentar na SputnikComentar no Facebook
    • Comentar