14:30 03 Dezembro 2020
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    À medida que o surto do novo coronavírus sobe para outros patamares, o mundo sente mais claramente o poder do vírus também sobre as atividades econômicas, com consequências cada vez mais preocupantes para o mercado brasileiro.

    Nesta quarta-feira, a Bovespa suspendeu suas operações pela segunda vez na semana, devido a uma queda superior a 10% em seu principal índice, B3. O circuit breaker foi anunciado no meio da tarde, por volta das 15h20.

    No dia anterior, a bolsa de valores brasileira fechou em forte alta, com o Ibovespa avançando 7,14%, depois de uma queda de 12,17% na segunda-feira, a maior em mais de duas décadas.

    As oscilações no mercado brasileiro vêm acompanhando tendências do cenário internacional, afetado por um quadro de instabilidade generalizada em meio ao surto do novo coronavírus e a desvalorização do petróleo, provocada por uma decisão da Arábia Saudita, maior produtora mundial, de ampliar suas capacidades de produção.

    Após meses de preocupações mundo afora com os casos da COVID-19, a Organização Mundial da Saúde (OMS) decidiu declarar pandemia por conta dessa disseminação do novo coronavírus, que já infectou mais de 118 mil pessoas em 114 países, matando em torno de 4.300. A expectativa da organização é de que a situação piore nas próximas semanas. 

    ​Se o surto desse temido vírus realmente continuar subindo de patamar, há temores de que seu efeito sobre a economia mundial seja desastroso. Dados divulgados pela Conferência da ONU para o Comércio e Desenvolvimento (Unctad) no início da semana indicaram que, se o coronavírus não for parado, as perdas globais podem chegar a US$ 2 trilhões. Nesse contexto, o Produto Interno Bruto (PIB) do Brasil poderia apresentar uma taxa de apenas 1% em 2020 — hoje, a projeção oficial do governo é de 2,10%.

    "A grande notícia, agora, voltou a ser o coronavírus. A Organização Mundial da Saúde decretou aí uma pandemia e, então, os mercados ficaram com muito mais medo, por conta disso", declarou em entrevista à Sputnik Brasil o especialista Caio Fernandez, diretor da consultoria de investimentos Invest. 

    Para o analista, há, no momento, uma espécie de bola de neve que tende a aumentar no curto prazo, com a crise já afetando diversos setores, com destaque para empresas de viagens e de serviços, como bares e restaurantes. 

    "Com isso [restrições de deslocamento], você desaquece a economia. As pessoas têm o dinheiro no bolso, mas não vão gastar. Elas ficam em casa, com a família. Como as empresas dependem de lucro, e eu vou vender menos comida, vender menos serviço, menos passagem aérea, então, meu lucro deve diminuir. Uma bolsa [de valores] é uma expectativa, as ações são uma expectativa de valorização baseada no lucro. Então, você tem uma forte queda."

    Na opinião de Fernandez, as recentes quedas observadas na Bovespa, embora explicáveis, refletem também um certo exagero no mercado financeiro, que, em parte, pode estar ligado à maneira como a imprensa está divulgando os casos do novo coronavírus. Ele lembra que, em epidemias anteriores, com taxas de mortalidade maiores inclusive, "as coisas ficaram tudo OK".

    "É um exagero de: 'Vamos vender no olho do furacão, vamos vender no meio do susto'."

    Professor de economia da Universidade Presbiteriana Mackenzie, o economista Milton Pignatari aponta a redução das exportações como a primeira grande preocupação que o Brasil deve ter em mente no que diz respeito ao novo coronavírus, já que o principal parceiro brasileiro é justamente o país mais afetado pelo surto, a China. 

    ​Fora isso, segundo o especialista, é iminente também a paralisação de algumas cadeias produtivas, principalmente das que também têm forte ligação com a China.

    "Com esse problema de as empresas chinesas envolvidas não poderem mandar os seus produtos, isso vai afetar a cadeia produtiva de alguns setores, como já está afetando a de componentes eletrônicos principalmente", disse ele também em declarações à Sputnik. 

    Ainda para Pignatari, também é possível que ocorra uma importante queda das operações financeiras como um todo, justamente por conta das incertezas e da falta de perspectiva sobre os investimentos de curto prazo. 

    "Não se tem uma ideia de quanto, eventualmente, deixou de se investir, não só no Brasil — isso a gente sabe, que teve uma retração aí na casa de 20%. Em outros países, a gente não tem essa noção, porque ainda não tem esse impacto direto, claramente definido."

    Por último, o professor da Mackenzie destaca que a redução no número de viagens também deve causar um impacto bastante significativo sobre as economias, principalmente para países tipicamente turísticos. 

    "Você tem menos população para frequentar determinado lugar, consequentemente, você não vai ter a receita. Não tendo receita, você não vai repassar, não vai comprar coisas, não vai inovar. Então, a gente tem aí um reflexo também bastante considerável."

    As opiniões expressas nesta matéria podem não necessariamente coincidir com as da redação da Sputnik

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    Tags:
    OMS, mercado, surto, doença, pandemia, epidemia, novo coronavírus, vírus, economia, Ibovespa, Bovespa, Brasil, China
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