02:31 25 Novembro 2020
Ouvir Rádio
    Análise
    URL curta
    Por
    6121
    Nos siga no

    Para combater grupos terroristas, os EUA recorrem cada vez mais a assassinatos seletivos, eliminando membros da alta cúpula dessas organizações. Mas essa estratégia funciona? Pesquisadora norte-americana conversou com a Sputnik Brasil para tentar encontrar essa resposta.

    Líderes de organizações terroristas são frequentemente assassinados por operações especiais de potências como os EUA e demais países com capacidade militar global.

    Osama bin Laden, líder da Al-Qaeda (organização terrorista proibida na Rússia e demais países), foi assassinado em uma operação em 2 de maio de 2011. Recentemente, Abu Bakr al-Baghdadi, líder do Daesh (organização terrorista proibida na Rússia e demais países), foi morto na Síria.  

    A doutora em relações internacionais do Instituto de Tecnologia da Geórgia, Jenna Jordan, está em Moscou para apresentar o resultado de sua pesquisa sobre assassinatos seletivos de líderes de organizações terroristas.

    Líder da organização terrorista al-Qaida, Osama bin Laden, no Afeganistão, em foto de 1998
    © AP Photo
    Líder da organização terrorista al-Qaida, Osama bin Laden, no Afeganistão, em foto de 1998

    Jordan coletou dados sobre mais de mil operações de assassinatos seletivos, que ela chama de "decapitação", ao redor do mundo e concluiu que essa política não derrota o terrorismo internacional de maneira efetiva.

    "A decapitação leva a um aumento nas atividades de grupos terroristas ativos", declarou Jordan. "De uma maneira geral, não é uma estratégia produtiva."

    Segundo Jordan, após esse tipo de ataque, as organizações terroristas podem se radicalizar e receber mais apoio popular, "principalmente se essas organizações forem de cunho separatista ou religioso, defendendo interesses das comunidades locais". 

    Além disso, o sentimento de vingança que esses assassinatos seletivos geram também contribui para o aumento no número de ataques.

    "As comunidades locais que apoiam o grupo podem solicitar vingança, o que motiva as organizações a realizar ataques retaliatórios", disse Jordan à Sputnik Brasil.

    No entanto, apesar dos efeitos adversos dos assassinatos seletivos, os EUA continuam priorizando essa política em sua estratégia nacional de combate ao terrorismo.

    "Uma das razões pelas quais os países continuam realizando esses ataques é que eles fazem o público [interno] se sentir seguro. Faz o público sentir que o governo está o protegendo", argumentou Jordan. 

    Algumas organizações são mais resistentes à política de assassinatos seletivos. As organizações mais antigas, com mais de 20 anos de existência, são as mais resilientes, por terem uma burocracia mais organizada.

    Professora associada do Instituto de Tecnologia da Geórgia (EUA), Jeena Jordan, durante debate com seus colegas russos em Moscou, em 3 de março de 2020
    © Sputnik / Ana Livia Esteves
    Professora associada do Instituto de Tecnologia da Geórgia (EUA), Jeena Jordan, durante debate com seus colegas russos em Moscou, em 3 de março de 2020

    "Organizações burocratizadas têm o processo de sucessão de líderes facilitado. Sempre sabem quem será o próximo a assumir" o comando do grupo, explicou.

    Grupos que defendem causas separatistas ou religiosas também são mais propensos a resistir a ataques contra suas lideranças, uma vez que contam com apoio popular mais robusto. 

    "Quando um país usa as estratégias de assassinato seletivo contra uma organização que tem apoio popular, a comunidade se torna mais tolerante à violência. Logo, a organização terrorista pode aumentar a intensidade de seus ataques."

    Jordan se dedica aos estudos de estratégias de combate ao terrorismo desde os ataques de 11 de setembro de 2001 de Nova York.

    "Quando comecei a estudar Relações Internacionais, não poderia imaginar que uma organização não Estatal poderia mudar o mundo de maneira tão estrutural, como no caso do 11 de setembro", contou Jordan.

    Jordan está na Rússia para debater o tema com seus colegas do Conselho Russo de Assuntos Internacionais (RIAC, na sigla em inglês).

    "Existem muitas semelhanças nas estratégias aplicadas pelos diferentes países, em função da natureza transnacional de muitas organizações terroristas", explicou. "Por isso trata-se de uma área fértil para a cooperação internacional."

    Abu Bakr al-Baghdadi, ex-líder do Daesh (organização terrorista proibida na Rússia)
    © AP Photo / Militant video, File
    Abu Bakr al-Baghdadi, ex-líder do Daesh (organização terrorista proibida na Rússia)

    Essa não é a primeira vez que Jordan visita Moscou, que "é uma cidade muito bonita e interessante", contou. "Estudei russo durante um ano na universidade [...] e estou pensando em retomar."

    A doutora divulgou seu livro "Decapitação de liderança: alvo estratégico contra organizações terroristas" ("Leadership Decapitation: Strategic Targeting of Terrorist Organizations", no original), publicado pela editora Standford, em evento promovido pela RIAC, em 3 de março, na capital russa.

    As opiniões expressas nesta matéria podem não necessariamente coincidir com as da redação da Sputnik

    Mais:

    Terrorismo nacionalista e de extrema esquerda devem ganhar fôlego na próxima década, dizem analistas
    Su-24 russos atingem terroristas pró-turcos, ajudando Exército sírio a repelir ataque
    PF alerta que ministros do STF podem ser alvos de ataque terrorista, diz jornal
    Tags:
    antiterrorismo, terrorismo, EUA
    Padrões da comunidadeDiscussão
    Comentar na SputnikComentar no Facebook
    • Comentar