05:28 25 Setembro 2020
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    No auge do conflito sírio, vários países árabes uniram forças com a Turquia para fornecer apoio à oposição síria. Qual a posição deles agora que Ancara luta no último reduto rebelde na Síria?

    A Turquia sofreu recentemente baixas significativas na província rebelde de Idlib, onde enfrenta um Exército sírio com experiência redobrada e com apoio de uma superpotência militar, a Rússia.

    Os parceiros árabes de Ancara não expressaram apoio à ofensiva turca e aos poucos normalizam as relações com o presidente sírio, Bashar Assad.

    "Agora, ele [Erdogan] está sozinho, combatendo uma superpotência como a Rússia e um Exército sírio experiente [lutando] em território sírio", disse Adbel Bari Atwan, editor-chefe do jornal online Rai al-Youm. "A posição dele é crítica."

    Por outro lado, a reunião da OTAN solicitada pela Turquia, após sofrer baixas significativas em Idlib, não terminou com a promessa de auxílio concreto por parte da aliança militar.

    "Sete anos atrás, a Turquia era a ponta de lança de uma coalizão que incluía 65 países. Arábia Saudita, Emirados Árabes Unidos (EAU) e Qatar apoiaram Erdogan em sua intervenção política e militar na Síria", disse Atwan.

    Agora, o especialista acredita que somente o Qatar continua do lado da Turquia no conflito sírio. Os demais países árabes, pelo contrário, estariam buscando normalizar as relações com Damasco.

    Mudando de lado

    A Jordânia, que havia fornecido apoio aos rebeldes na Síria, anunciou em agosto de 2017 que as suas relações com Damasco estavam "indo na direção certa". Uma semana depois, a Arábia Saudita informou os líderes da oposição que estava se retirando do conflito sírio.

    Em dezembro de 2018, os EAU e o Bahrein anunciaram que iriam reabrir as respectivas embaixadas em Damasco. Em março de 2019, os EAU terminam a sua transição, anunciando formalmente o apoio à Assad.

    Membros de uma coalizão de grupos rebeldes chamada Jaish al Fateh, também conhecido como Exército Fatah, em um posto de controle na cidade de Idlib, na Síria.
    © REUTERS / Ammar Abdullah
    Membros de uma coalizão de grupos rebeldes chamada "Jaish al Fateh", também conhecido como "Exército Fatah", em um posto de controle na cidade de Idlib, na Síria.

    As informações acerca do atual posicionamento da Arábia Saudita no conflito sírio são menos claras. No entanto, o especialista lembra que o relacionamento entre Riad e Ancara ficou seriamente abalado desde o assassinato do jornalista Jamal Kashoggi.

    Correlação de forças

    Atwan acredita que os países árabes estão seguindo os passos dos EUA e retirando-se da Síria, adotando uma postura realista, considerando a mudança na correlação de forças no conflito.

    Essas mudanças teriam sido provocadas pela entrada da Rússia na guerra, pela derrota significativa do Daesh (organização terrorista proibida na Rússia e demais países) e pela radicalização dos grupos de oposição.

    Bombardeiro de longo alcance Tu-22M3 realizando um ataque aéreo na Síria contra posições do grupo terrorista Daesh (organização terrorista proibida na Rússia e em outros países)
    © Sputnik / Ministério da Defesa da Rússia
    Bombardeiro de longo alcance Tu-22M3 realizando um ataque aéreo na Síria contra posições do grupo terrorista Daesh (organização terrorista proibida na Rússia e em outros países)

    "Os EUA quase se retiraram do conflito e as fações revolucionárias passaram a ceder espaço para grupos islâmicos incluídos na lista de organizações terroristas de Washington", disse Atwan.

    Opções limitadas

    Atwan acredita que o presidente turco tem duas opções para sair da crise: ou a Turquia cumpre suas obrigações no âmbito do Acordo de Sochi de 2018, o que significa que ela deveria desarmar grupos terroristas na região, ou tem de se retirar de Idlib.

    "A interferência contínua de Erdogan na Síria é interpretada como uma invasão e ocupação e não poderá ser mantida no longo prazo", disse Atwan. "Um envolvimento mais profundo [nesse conflito] não irá o beneficiar e ele enfrenta crescente oposição interna, principalmente após a morte de mais soldados [turcos]."

    Além disso, caso a Turquia receba mais uma onda de refugiados, as tensões dentro da sociedade civil, que já estão altas, poderiam se agravar.

    Abrir as fronteiras e permitir que os refugiados sigam para a Europa pode fazer Ancara perder bilhões de euros que recebe como parte do acordo selado com a União Europeia para a recepção deste tipo de migrantes.

    O analista político turco Taha Odehoglu acredita que a Turquia ainda aposta em um acordo com a Rússia, reportou a DW.

    Presidente da Rússia, Vladimir Putin, observa seu homólogo turco, Erdogan, durante encontro em outubro de 2019
    © Sputnik / Aleksei Drujinin
    Presidente da Rússia, Vladimir Putin, observa seu homólogo turco, Erdogan, durante encontro em outubro de 2019

    "O revés sofrido por Ancara foi doloroso e qualquer passo em falso na sua reação pode ter repercussões sérias para a Turquia", disse Odehoglu. "Ela [Turquia] não quer perder a sua relação com a Rússia."

    "Sem dúvida, a Turquia sente que está isolada entre os árabes e os europeus, e mesmo em relação aos americanos [...] mas a porta ainda não está completamente fechada com a Rússia", acredita.

    As tensões na província síria de Idlib estão em alta, após 36 soldados turcos terem sido mortos e mais de 30 ficado feridos em consequência de um ataque aéreo.

    As opiniões expressas nesta matéria podem não necessariamente coincidir com as da redação da Sputnik

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    Tags:
    Recep Tayyip Erdogan, Turquia, Síria
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