20:40 31 Maio 2020
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    Apesar das ameaças turcas, o Exército sírio, com o apoio de Moscou, avança na província de Idlib e conquista novos territórios. A Turquia já teria poucas chances de forçar o Exército de Assad a retroceder, mas será que poderia pressionar a Rússia a atender às suas demandas?

    Analista do Centro Carnegie de Moscou, Aleksei Khlebnikov, avaliou em artigo publicado nesta quarta-feira (19) quais as perspectivas da aliança diplomática entre Ancara e Moscou sobreviver a mais esse desafio.

    Nas últimas semanas, o avanço das Forças Armadas sírias na província de Idlib, que retomaram centenas de povoados e cidades e o controle da rodovia M5, geraram a "mais aguda crise diplomática entre Moscou e Ancara desde 2015", quando a Turquia abateu um caça-bombardeiro Su-24 da Rússia.

    O presidente turco, Recep Tayyip Erdogan, ameaça lançar uma ofensiva contra a província "a qualquer momento". A Síria declarou, nesta quinta-feira (20), que considerará uma eventual operação de Ancara como "invasão" de seu território.

    Soldado turco caminha perto de veículos militares turcos perto de Idlib, na Síria, 11 de fevereiro de 2020 (foto de arquivo)
    © REUTERS / Khalil Ashawi
    Soldado turco caminha perto de veículos militares turcos perto de Idlib, na Síria, 11 de fevereiro de 2020 (foto de arquivo)

    A Rússia não pode deixar Damasco à mercê de Ancara, mas também não tem interesse em um confronto direto com as forças turcas, explicou Khlebnikov.

    As relações entre a Turquia e a Rússia avançaram significativamente nos últimos anos, e hoje englobam temas como energia nuclear, fornecimento de armamentos e o processo de paz na Líbia. Mas, para o analista, é na Síria que será definido o futuro dessa amizade.

    O que aconteceu?

    Em setembro de 2018, Moscou e Ancara selaram um acordo sobre a província de Idlib, segundo o qual a Turquia se comprometeu a discriminar os grupos oposicionistas, separando os grupos moderados dos radicais. Ancara também iria se abster de realizar ataques contra forças sírias e contra a base aérea russa de Hmeymim.

    Na ocasião as partes acordaram a criação de uma zona desmilitarizada e a retomada do tráfego nas rodovias M4 e M5, que ligam as duas maiores cidades da Síria, Aleppo e Damasco.

    Apesar do acordo de 2018 ainda estar em vigor, as "partes acusam-se mutuamente de descumprir suas provisões", escreveu o analista.

    Presidente da Rússia e da Turquia conversam durante abertura do novo gasoduto Corrente da Turquia, em Istambul, em 8 de janeiro de 2020
    © Sputnik / Aleksei Drujinin
    Presidente da Rússia e da Turquia conversam durante abertura do novo gasoduto "Corrente da Turquia", em Istambul, em 8 de janeiro de 2020

    A Turquia, assim como alguns países ocidentais, está insatisfeita porque, desde o início de 2019, Damasco realiza incursões na província síria de Idlib com o apoio da Força Aérea russa.

    Moscou afirma estar lutando contra grupos terroristas, que usam a região como base para realizar ataques contra forças russas e sírias.

    A Turquia também acusa Moscou de "não controlar o seu aliado, Damasco, que estaria agindo em violação das regras do cessar-fogo" na região.

    A situação se complicou ainda mais na virada do ano, quando surgiram informações sobre confrontos diretos entre Damasco e Turquia, deixando inclusive baixas do lado turco.

    Desafios Internos

    Para o analista, é improvável que a Turquia inicie um conflito direto de larga escala com as Forças Armadas sírias em Idlib. Isso geraria um aumento no fluxo de moradores da província para a Turquia, que já recebeu cerca de 3,5 milhões de refugiados.

    A questão dos refugiados já se tornou um problema econômico e social para Ancara. O governo de Erdogan também deve ser cauteloso, uma vez que sofreu um revés nas últimas eleições na maior cidade da Turquia, Istambul.

    Homem toca piano para participantes de protestos na praça Taksim em Istambul
    © Sputnik / Andrei Stenin
    Homem toca piano para participantes de protestos na praça Taksim em Istambul

    A administração Erdogan terá que pensar bem antes de iniciar uma terceira operação militar, uma vez que já conduz uma na Líbia e outra na região nordeste da Síria, onde luta contra forças curdas. Nesse contexto, Idlib pode não ser uma prioridade para Ancara.

    Pressão sobre Moscou

    Apesar dos desafios internos, a Turquia dispõe de alguns instrumentos para exercer pressão sobre Moscou. Sendo membro da OTAN, Ancara sempre tem a possibilidade de se voltar para o seu aliado, os EUA, e solicitar que "Washington desempenhe um papel de contrapeso na Síria".

    Caso apele à Casa Branca, Ancara poderia criar sérias limitações para o aliado de Moscou, Damasco. No entanto, a última visita do representante especial dos EUA, James Jeffrey, à Turquia não produziu resultados, lembra o especialista.

    Aviadores dos EUA ao lado de caças após visita do secretário de Defesa Ash Carter à base aérea de Incirlik, perto de Adana, na Turquia (foto de arquivo)
    © AP Photo /
    Aviadores dos EUA ao lado de caças após visita do secretário de Defesa Ash Carter à base aérea de Incirlik, perto de Adana, na Turquia (foto de arquivo)

    Outra opção mais arriscada seria a Turquia ocupar definitivamente a região norte da província de Idlib, para utilizá-la como moeda de troca em suas negociações com Damasco e Moscou. Neste caso, o analista acredita que só restaria a Moscou esperar que a Turquia não esteja disposta a acabar com anos de parceria por causa de Idlib.

    E agora?

    Existe uma grande probabilidade das Forças Armadas sírias, com o apoio da aviação russa, consolidarem o seu controle dos territórios ao longo das rodovias M4 e M5, restaurando assim a ligação entre as suas duas maiores cidades, objetivo mais vital do que o controle de Idlib.

    A Turquia também deve continuar a reforçar a sua presença militar na província, a fim de evitar que Damasco se aproxime de Idlib e, portanto, da fronteira com a Turquia.

    Membro do exército sírio dirige em vilarejos retomados ao sudeste da província de Idlib, em 25 de janeiro de 2020
    © Sputnik / Mikhail Voskresensky
    Membro do exército sírio dirige em vilarejos retomados ao sudeste da província de Idlib, em 25 de janeiro de 2020

    O analista alerta que é necessário considerar que as declarações mais acaloradas do presidente Erdogan são dirigidas ao público interno.

    Rússia e Turquia estão engajadas em diálogo constante para encontrar uma solução para a crise. "Uma delegação russa, chefiada pelo vice-ministro das Relações Exteriores, Sergei Vershinin, e pelo representante especial da Presidência, Aleksandr Lavrentyev, se reuniu com seus colegas turcos em três rodadas de negociações – em 8, 10 e 18 de fevereiro", informou o analista.

    Em crises anteriores, os presidentes da Turquia e da Rússia tomaram a dianteira e optaram por gerir esses momentos de crise aguda pessoalmente, lembrou Khlebnikov.

    Em 4 e 12 de fevereiro, os presidentes discutiram a situação na província por telefone e se comprometeram a implementar os acordos firmados em 2018.

    Para Khlebnikov, tudo indica que os presidentes irão se encarregar de resolver mais esta crise. O chanceler turco, Mevlut Cavusoglu, declarou após a sua mais recente visita a Moscou, em 18 de fevereiro, que, caso uma solução não seja encontrada, será necessário realizar uma reunião no mais alto nível.

    Presidente da Rússia, Vladimir Putin, observa seu homólogo turco, Erdogan, durante encontro em outubro de 2019
    © Sputnik / Aleksei Drujinin
    Presidente da Rússia, Vladimir Putin, observa seu homólogo turco, Erdogan, durante encontro em outubro de 2019

    A questão agora é em quanto tempo as partes poderão resolver o conflito. Os dois lados devem se "ajustar às novas realidades no terreno": uma nova zona de controle do Exército sírio demanda a delimitação de uma nova zona de desescalada.

    Rússia e a Turquia continuam a negociar, já que ambos têm interesse em selar um acordo e manter a parceria. Mas isso não significa que coordenar os interesses de ambos seja tarefa fácil.

    As opiniões expressas nesta matéria podem não necessariamente coincidir com as da redação da Sputnik

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    Tags:
    Aleppo, Idlib, conflito sírio, Síria, Rússia, Turquia
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