14:38 22 Fevereiro 2020
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    Analistas da Rússia e da China avaliam se a recente rescisão pelo presidente Rodrigo Duterte do Acordo das Forças Visitantes é um passo inexorável de viragem política do país em direção a Pequim.

    A influência militar da China nas Filipinas e na Ásia-Pacífico pode se tornar mais forte por causa do fim dos laços de defesa das Filipinas com os EUA, prevê o especialista da Instituto Internacional de Estudos Estratégicos (RISI, na sigla em inglês) Vladimir Yevseev em uma entrevista à Sputnik China.

    As Filipinas notificaram oficialmente na terça-feira (11) a Embaixada dos EUA em Manila sobre a rescisão do Acordo das Forças Visitantes, que deixará de ter efeito dentro de 180 dias.

    Na quarta-feira (12), o secretário de Defesa dos EUA, Mark Esper, considerou a decisão filipina como "um passo na direção errada" no desenvolvimento das "relações antigas" entre os dois países.

    O jornal The New York Times citou a opinião do secretário de Estado Adjunto para Assuntos Militares e Políticos, René Clarke Cooper, que relatou que o acordo define os procedimentos de até 300 diferentes atividades conjuntas anuais dos militares filipinos e norte-americanos.

    É o início do fim?

    Os observadores consideram as ações das Filipinas como o primeiro passo para acabar com os laços de defesa com os EUA. A rescisão do Acordo das Forças Visitantes pode ter sérias consequências para a implementação da estratégia militar dos EUA na região, disse em entrevista à Sputnik China o Dr. Jay Batongbacal, chefe do Instituto de Assuntos Marítimos e de Direito do Mar da Universidade das Filipinas:

    "Com o término da vigência do acordo, os EUA perderão o principal centro de apoio às suas bases militares avançadas no Sudeste Asiático e no mar do Sul da China, bem como de expansão das suas operações. A ausência de acesso fácil e de uma estreita parceria com as Filipinas limitarão a capacidade dos EUA de responder a qualquer imprevisto na Ásia Oriental de forma atempada, e empurrará o guarda-chuva de segurança dos EUA para o oceano Pacífico".

    "Os EUA procurarão ajustar sua estratégia regional, e é provável que busquem outros parceiros regionais para preencher as lacunas. Apesar de tudo, é pouco provável que algum deles proporcione as vantagens que as Filipinas têm em termos de localização, interoperabilidade, equipamento, logística e mecanismos de apoio", diz.

    Porta-aviões chinês Liaoning realizando exercícios no mar do Sul da China acompanhado por fragatas e submarinos (foto de arquivo)
    © AP Photo / Li Gang/Xinhua
    Porta-aviões chinês Liaoning realizando exercícios no mar do Sul da China acompanhado por fragatas e submarinos (foto de arquivo)

    Em entrevista à Sputnik China, Yevseev também acredita que a decisão das Filipinas colocará os EUA em uma situação difícil:

    "Para os EUA, que apostam na dissuasão da China na região da Ásia-Pacífico, este é um aviso bastante alarmante. Isto revela que mesmo na região que eles acreditam estar completamente sob seu controle, há Estados que discordam da política externa norte-americana. Além disso, eles estão sujeitos à influência da China. A luta entre os EUA e a China por influência na região irá se intensificar."

    Ao mesmo tempo, a confiança dos EUA em seus aliados, Japão, Coreia do Sul, Austrália e Filipinas, e as tentativas de incluí-los na luta dos EUA contra a China pela influência na região são pouco eficazes, aponta Vladimir Yevseev. O exemplo das Filipinas mostra que os EUA são incapazes de fazer dos seus aliados um instrumento de sua influência porque eles têm seus próprios interesses. Nenhum deles quer brigar com a China, porque isso levaria a perdas econômicas significativas.

    Vladimir Yevseev também prevê um maior fortalecimento da influência militar chinesa nas Filipinas em meio ao enfraquecimento dos seus laços com os EUA. Ao mesmo tempo, o especialista lembrou que "o Exército filipino está armado principalmente com armas norte-americanas, portanto a dependência das Filipinas dos EUA na manutenção e modernização das armas permanecerá".

    Opinião de especialista chinesa

    Por sua vez, Zhang Jie, especialista do Instituto de Estudos da Ásia-Pacífico e Estratégia Global da Academia Chinesa de Ciências Sociais, em Pequim, lembrou que os laços militares de Manila, seja com os EUA ou com a China, permanecem sempre um tema sensível na opinião pública filipina. Assim, ela acredita que não existe uma ligação obrigatória entre o declínio nas relações EUA–Filipinas e o aumento dos laços sino-filipinos:

    "Creio que ainda há muitas incertezas em torno da rescisão deste acordo. Devem passar 180 dias desde o aviso prévio até a rescisão. Durante este tempo, deve haver numerosas reuniões entre os militares dos EUA e das Filipinas, conversações de alto nível. Durante muitos anos, a aliança militar EUA–Filipinas tem tido uma base sólida na opinião pública das Filipinas".

    "Duterte anunciou a rescisão do acordo, mas várias mídias noticiaram que o secretário das Relações Exteriores das Filipinas, o secretário da Defesa e altos funcionários militares têm opiniões divergentes sobre a decisão. A oposição nas Filipinas ainda é muito forte. O presidente diz que as Filipinas precisam de independência na área da defesa, mas a assistência militar norte-americana que recebem é muito forte, então é possível que no curto prazo as Filipinas não consigam se livrar da dependência dos norte-americanos nessa área", segundo Zhang.

    Exercícios navais dos EUA e das Filipinas nas águas do Mar do Sul da China, em junho de 2014
    © AFP 2019 / NOEL CELIS/POOL
    Exercícios navais dos EUA e das Filipinas nas águas do Mar do Sul da China, em junho de 2014

    Na opinião da acadêmica, é necessário olhar com atenção para as características atuais das relações exteriores das Filipinas antes de anunciar previsões prematuras sobre o futuro.

    "Além disso, não existe uma ligação obrigatória entre o declínio das relações EUA–Filipinas e o aumento das relações sino-filipinas", diz a especialista. "De fato, a opinião pública nas Filipinas é variada quanto ao 'reforço da cooperação militar entre a China e as Filipinas'. É um tema muito sensível e até doloroso."

    "Desde 2016, a cooperação sino-filipina tem se concentrado mais na esfera econômica, ao mesmo tempo que não houve avanços claros na cooperação na área das ameaças tradicionais e segurança. Portanto, mesmo que o acordo seja rescindido, isso não significa que as relações sino-filipinas na área de segurança irão progredir rapidamente", conclui a analista chinesa.

    "Trump e outros estão tentando salvar o acordo. Eu disse que não quero isso", disse o presidente filipino, Rodrigo Duterte, em seu discurso em Manila na terça-feira (11), segundo citado pela agência Bloomberg.

    O acordo, que está em vigor desde 1998, fornece a base legal para o envio de unidades militares dos EUA para as Filipinas para exercícios conjuntos, bem como as regras para a rotação das tropas norte-americanas em bases militares filipinas.

    Duterte expressou sua vontade de cancelar completamente o acordo em 2021.

    As opiniões expressas nesta matéria podem não necessariamente coincidir com as da redação da Sputnik

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    Tags:
    Ásia-Pacífico, Rodrigo Duterte, EUA, China, Filipinas
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