15:31 01 Abril 2020
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    Cotado para assumir a Embaixada do Brasil em Tel Aviv, o general Gerson Menandro Garcia de Freitas é conhecido por seu posicionamento pragmático, coerente e equilibrado, afirmam especialistas ouvidos pela Sputnik.

    Órgãos de imprensa brasileiros informaram nesta semana sobre a escolha, pelo presidente Jair Bolsonaro, do general Gerson Menandro Garcia de Freitas, ex-conselheiro militar da Missão do Brasil junto à ONU, para chefiar a embaixada brasileira em Israel, país ao qual o governo brasileiro vem tentando se aliar desde o início da nova administração.

    A fim de demonstrar a importância de Israel para a nova política externa brasileira, Bolsonaro, mesmo antes de assumir a presidência, prometeu, a despeito da grande possibilidade de irritar importantes parceiros muçulmanos, mudar a Embaixada do Brasil no país de Tel Aviv para a cidade sagrada de Jerusalém, o que ainda não ocorreu. Na última vez em que falou sobre o assunto, disse que isso deve acontecer até o ano que vem.

    Caso Garcia de Freitas assuma realmente o cargo de embaixador — após a indicação, ele precisa passar por uma sabatina na Comissão de Relações Exteriores e Defesa Nacional e por uma votação no plenário da Casa —, essa questão da transferência da embaixada deverá ser um dos seus principais desafios no novo posto. Mas que tipo de postura esperar do general em relação a esse tema? 

    ​De acordo com Paulo Velasco, professor de Relações Internacionais da Universidade do Estado do Rio de Janeiro (UERJ) e pesquisador do Centro Brasileiro de Relações Internacionais (Cebri), em primeiro lugar, é preciso destacar que é pouco comum a escolha de um militar de carreira para exercer uma função diplomática de tamanha importância. Mas, ao mesmo tempo, ele explica que, nos últimos anos, o Brasil tem buscado reforçar o diálogo entre os ministérios da Defesa e das Relações Exteriores. 

    "Tem havido um empenho, de alguma maneira, para reforçar o relacionamento entre essas duas pastas, que são, sem sombra de dúvidas, as duas principais políticas de Estado de qualquer país", disse ele em entrevista à Sputnik Brasil. "Não deixa de ser, olhando por essa ótica, algo interessante [a escolha do oficial]."

    Velasco afirma que o governo Bolsonaro já vinha contemplando a indicação de um general para essa estratégica embaixada, justamente porque boa parte do diálogo atual entre brasileiros e israelenses está na área militar, na área de defesa.

    "Israel é uma referência absoluta em termos de armamento, de tecnologia, de inteligência militar, de defesa. Então, parece razoável a indicação de um militar para essa embaixada especificamente. Não foi uma escolha aleatória."

    O general Gerson Menandro Garcia de Freitas é tido, segundo o pesquisador, como um militar bastante pragmático e coerente nas suas posturas, gozando de grande prestígio nas Forças Armadas. Além disso, teve uma atuação importante e razoável no período em que esteve nas Nações Unidas, entre agosto de 2017 e agosto de 2019.

    "Ele não é alguém, de fato, que desconhece os temas internacionais", opina. "É uma pessoa, digamos assim, que tem uma vivência internacional também, o que, certamente, permitirá a ele exercer com propriedade um cargo tão sensível como o de embaixador do Brasil em um país que é, hoje em dia, elevado à condição de um dos parceiros prioritários do Brasil." 

    ​Leonardo Trevisan, professor de Relações Internacionais da Escola Superior de Propaganda e Marketing (ESPM) em São Paulo, acredita que, ao escolher Garcia de Freitas para a Embaixada do Brasil em Israel, o Palácio do Planalto evitou um problema maior, uma vez que estaria ocorrendo um esvaziamento do relacionamento entre o presidente e o embaixador Paulo César de Vasconcellos, diplomata de carreira que está há três anos em Israel.

    O motivo dessa deterioração na relação, segundo o especialista, seria justamente a pressão imposta por Brasília para acelerar os acertos para a troca da embaixada de Tel Aviv para Jerusalém. 

    "Todo o corpo diplomático brasileiro via com muita cautela essa mudança", disse ele também em declarações à Sputnik. "A nomeação do general Menandro é uma nomeação importante principalmente pelo cargo que ele exercia. O general Menandro, de agosto de 2017 a agosto de 2019, foi responsável, o encarregado brasileiro, adido brasileiro, na missão de paz da UNIFIL, na missão de paz da ONU em relação a Israel e ao Líbano."

    Trevisan afirma que o general conhece muito bem a realidade dessa região do planeta, estando, de alguma forma, próximo da posição das Nações Unidas, que é a de "um maior equilíbrio na tensa situação do Oriente Médio".

    "Em especial, na tensa situação que envolve a mudança da embaixada, com todo o distanciamento que isso vai proporcionar com os países árabes." 

    Em termos gerais, para o acadêmico, seria preferível que o Brasil seguisse com a tradição de nomear um embaixador de carreira para esse cargo diplomático, "natural do Itamaraty". Mas, nas atuais condições, ele "ousaria dizer que nós evitamos problemas maiores com a nomeação do general Menandro, com a experiência que tem".

    "A simples nomeação desse general, com o passado recente, com as funções recentes que ele exerceu, é um recado bastante explícito à comunidade internacional que a posição da ONU será levada em conta pela embaixada brasileira em Tel Aviv. Vamos frisar bem essa última frase: em Tel Aviv."

    As opiniões expressas nesta matéria podem não necessariamente coincidir com as da redação da Sputnik

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    Tags:
    relações internacionais, diplomacia, militar, general, embaixador, embaixada, Tel Aviv, Jerusalém, Oriente Médio, Líbano, Israel, Brasil
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