18:09 22 Setembro 2020
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    A decisão brasileira de seguir as linhas da diplomacia de Washington joga contra o Itamaraty e cria um "racha" dentro do governo de Jair Bolsonaro, avalia a professora de relações internacionais Cristina Pecequilo.

    Durante o mandato presidencial de Bolsonaro, o Brasil acumulou episódios em que adotou a mesma postura diplomática dos Estados Unidos: defendeu a mudança da embaixada brasileira em Israel para Jerusalém (plano que acabou suspenso pela pressão do mundo árabe), votou contra uma resolução da ONU que condena o embargo dos Estados Unidos a Cuba, reconheceu o autoproclamado Juan Guaidó como presidente da Venezuela, entre outras situações.

    "Pelo menos em termos retóricos, há um alinhamento automático com os Estados Unidos", diz Cristina Pecequilo, professora de relações internacionais da Unifesp (Universidade Federal de São Paulo), em entrevista à Sputnik Brasil.

    Entretanto, em temas com repercussões comerciais, Bolsonaro adota uma "política compensatória", diz a analista. Pecequilo ressalta a recente declaração do presidente brasileiro em defesa das trocas comerciais entre Brasil e Irã. A postura de Bolsonaro contrastou com a nota emitida pelo Ministério das Relações Internacionais, que classificou o assassinato do general iraniano Qassem Soleimani como um episódio da "luta contra o flagelo do terrorismo" e pediu "unidade de todas as nações contra o terrorismo em todas as suas formas".

    As autoridades iranianas convocaram a encarregada de negócios da embaixada do Brasil no Irã após a divulgação da nota para prestar esclarecimentos. 

    Ainda em 2019, o Brasil teve outro atrito com Teerã quando a Petrobras, por receio de sanções estadunidenses, se recusou a reabastecer dois navios do Irã que estavam no Paraná. O impasse durou dias e só terminou após o presidente do Supremo Tribunal Federal, Dias Toffoli, determinar o fornecimento de combustível. 

    Para a professora da Unifesp, essa dissonância resulta na perda de "credibilidade" do Itamaraty. 

    Pecequilo também refuta uma tese que é defendida com frequência por Bolsonaro, de que seu governo seria meramente técnico e desprovido de ideologia.

    "Não existe política sem ideologia, seja interna ou externa. Então sempre vai haver ideologia. O que aconteceu na política brasileira, e global, é que se tomou uma retórica de dizer que aquilo que não concordamos é ideológico", diz. "Na verdade, o que estamos vendo é só a substituição de uma ideologia por outra."

    O chanceler Ernesto Araújo acredita que as mudanças climáticas fazem parte de uma trama para "sufocar o crescimento econômico nos países capitalistas democráticos e favorecer o crescimento da China". Já o assessor especial da Presidência para assuntos internacionais, Filipe Martins, usou uma saudação franquista, cunhada pelos adeptos do ditador espanhol Francisco Franco, para cumprimentar o vereador Carlos Bolsonaro (PSC-RJ).

    Em entrevista à BBC Brasil, o ex-ministro da Secretaria de Governo, Carlos Alberto dos Santos Cruz, classificou a política externa brasileira como "profundamente ideológica" e afirmou que o Brasil tem um "alinhamento automático" com os Estados Unidos. 

    A discordância do ex-ministro bolsonarista demonstra um "racha" na gestão Bolsonaro, avalia Pecequilo: "O grupo dos militares passou a representar dentro do governo Bolsonaro um setor mais moderado em termos de política externa, e de defesa de maneira geral. Muitas dessas declarações pró-americanas e mais envoltas em messianismo religioso não são declarações e posturas desse grupo [militar]. Então, é um racha."

    As opiniões expressas nesta matéria podem não necessariamente coincidir com as da redação da Sputnik

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    Tags:
    Estados Unidos, Jair Bolsonaro, Ernesto Araújo, Itamaraty
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