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    Como foi 2019 e o que veremos em 2020 (12)
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    Este ano de 2020 será desafiador para o presidente dos Estados Unidos, Donald Trump, que, além de estar em corrida pela reeleição presidencial, terá também que enfrentar a reta final do processo de impeachment.

    No início de dezembro, a Câmara dos Deputados dos EUA, onde os democratas têm a maioria, votou o impeachment de Trump segundo dois artigos - abuso de poder e obstrução à investigação no Congresso. O caso deve ser enviado agora ao Senado, onde a maioria republicana pretende defender o presidente.

    No entanto, Nancy Pelosi, presidente da Câmara dos Representantes dos EUA, ainda não encaminhou formalmente o caso ao Senado nem nomeou o grupo de congressistas para representar a acusação no julgamento na câmara alta. Isto é visto como uma forma de pressão sobre os republicanos para que concordem com as exigências dos democratas quanto ao formato do julgamento de Trump.

    Os democratas afirmam que o presidente dos EUA bloqueou um auxílio militar à Ucrânia de quase US$ 400 milhões (R$ 1,6 bilhão), aprovado pelo Congresso, exigindo em troca os serviços políticos do presidente ucraniano Vladimir Zelensky, sob a forma de uma investigação contra o adversário de Trump na eleição de 2020, o pré-candidato democrata Joe Biden, cujo filho foi diretor de uma empresa de gás na Ucrânia.

    Vladimir Zelensky, presidente da Ucrânia, durante coletiva de imprensa em Kiev
    © AP Photo / Efrem Lukatsky
    Vladimir Zelensky, presidente da Ucrânia, durante coletiva de imprensa em Kiev

    Ao fazer isso, Trump excedeu sua autoridade e depois também impediu o Congresso de investigar, diz a resolução do impeachment. Por sua vez, o líder americano alegou que exigia das autoridades ucranianas apenas que combatessem a corrupção.

    Trump se tornou o terceiro presidente na história dos EUA a sofrer um processo de impeachment e dependerá do Partido Republicano para se salvar. No Senado, são necessários 67 dos 100 votos para que o presidente seja destituído, o que será um assunto complicado para os democratas já que os republicanos detêm 53 assentos na Câmara.

    Para o Partido Democrata, a decisão de destituição do presidente americano em ano eleitoral é cheia de riscos, porque o processo também pode dificultar a reeleição dos democratas para o Congresso nos círculos onde Trump é popular.

    Motivos dos democratas

    Perguntado pela Sputnik Brasil, o especialista Aleksei Pilko, diretor do Centro de Comunicação Eurasiática, opinou que a probabilidade de impeachment de Trump "é praticamente inexistente".

    "Assim que o processo de impeachment chegar ao Senado, ele vai morrer lá. Os democratas estão prorrogando o envio do processo pelo máximo de tempo possível porque o Senado conduziria rapidamente todos os procedimentos e interromperia o processo de impeachment. É vantajoso para eles que este tema seja discutido durante muito tempo porque, se for entregue ao Senado agora, morrerá imediatamente. Se for mais tarde, haverá um certo espaço de tempo para a campanha contra Trump", opinou o americanista Pilko.

    Os adversários do presidente norte-americano optaram por uma estratégia arriscada, mesmo sabendo que é pouco provável que o processo de destituição de Trump resulte em sua remoção. O especialista em assuntos dos EUA Dmitry Drobnitsky deu sua opinião à Sputnik Brasil sobre a decisão do impeachment pelos democratas.

    Porta-voz da Câmara dos EUA, Nacy Pelosi, conversa com o presidente da Comissão de Inteligência da Câmara, Adam Schiff (à direita), e com o presidente da Comissão de Relações Exteriores, Eliot Engel (à esquerda) e com o deputado Richard Nead (segundo à esquerda)
    Andrew Harnik
    Porta-voz da Câmara dos EUA, Nacy Pelosi, conversa com o presidente da Comissão de Inteligência da Câmara, Adam Schiff (à direita), e com o presidente da Comissão de Relações Exteriores, Eliot Engel (à esquerda) e com o deputado Richard Nead (segundo à esquerda)

    "O fato é que o impeachment de Trump na Câmara dos Deputados não foi uma decisão fácil para os democratas, resultando em uma séria luta interna no partido. Em primeiro lugar, entre a ala de extrema esquerda do partido e os liberais e outros antigos democratas em Washington. Obviamente, esta luta entre as duas alas do partido em 2020 é um bastante mais importante para os democratas do que até mesmo a retirada de Trump do poder", ressaltou o cientista político Drobnitsky.

    Como a situação pode se reverter para os democratas?

    Segundo uma matéria da Fox News de 24 de dezembro, os democratas americanos não descartam a possibilidade de adicionar novos artigos ao impeachment contra Trump, além das duas acusações já aprovadas.

    Recentemente, o presidente dos EUA exigiu o início imediato do processo no Senado, enquanto os democratas tentam adiar o envio do caso.

    O líder estadunidense fez a exigência no seu Twitter, afirmando que os democratas não têm quaisquer provas das acusações que fazem contra ele.

    ​Então, depois que os democratas não me concederam nenhum processo justo na Câmara, sem advogados, sem testemunhas, sem nada, eles agora querem dizer ao Senado como fazer o julgamento deles. Na verdade, eles [os democratas] não têm provas de nada, eles nem mesmo vão aparecer. Eles querem sair. Eu quero um julgamento imediato!

    Para Drobnitsky, o líder da maioria republicana no Senado, Mitch McConnell, quer que o processo seja apresentando rapidamente, mas como não há provas suficientes, o caso seria encerrado e o presidente absolvido. Segundo o analista, um julgamento mais longo do processo de exoneração teria mais tempo para encontrar "possíveis erros" não apenas de Trump, como também de seus adversários.

    Trump pode vencer as eleições de 2020?

    Perguntado sobre o desenvolvimento do processo em 2020 e quais as possíveis medidas a serem tomadas pelos dois lados, Pilko aponta para a possível vitória de Trump nas futuras eleições.

    "Se os democratas não encontrarem outro candidato, que não seja Joe Biden, Trump ganhará as eleições em novembro porque está gradualmente cumprindo suas promessas eleitorais, ele não tem uma má posição na sociedade americana, e, se os democratas não encontrarem uma figura jovem, enérgica e interessante e continuarem a apostar em Biden, Trump obterá outro mandato", destaca o especialista em assuntos americanos Aleksei Pilko.

    Na opinião de Drobnitsky, "é impossível reconciliar os dois lados".

    "Penso, antes de tudo, que haverá uma contra-investigação que trará realmente muitas coisas interessantes [...] Pode haver revelações sérias, outra questão é se elas virão antes das eleições, mas eu realmente não invejaria muitos antigos e provavelmente até mesmo alguns membros sênior da comunidade de inteligência americana e do Departamento de Estado", ressaltou.

    "Isso acontecerá a partir de janeiro de 2021, quando Trump provavelmente será reeleito para um segundo mandato, porque toda essa saga […] revelou o que é chamado na América de 'Estado profundo'. Isto significa que altos funcionários não eleitos, incluindo os das agências de segurança, estão jogando o seu jogo e não se importam com a vontade do povo americano, eles sabem o que é melhor e estão dispostos a cometer qualquer violação só para fazer o que pensam que deve ser feito. Tudo isso foi divulgado, e o presidente deve tomar algumas medidas para que haja um segundo mandato normal. Há um sentimento de que, de um modo geral, é impossível reconciliar os dois lados - alguém tem que ganhar. E ganhar duro, com confiança, talvez até com algumas prisões. Isto, é claro, também cria uma certa tensão, porque isto é quase uma guerra civil", concluiu Drobnitsky.

    As opiniões expressas nesta matéria podem não necessariamente coincidir com as da redação da Sputnik

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    Tags:
    Nancy Pelosi, eleições nos EUA, impeachment, Donald Trump, EUA
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