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    Como foi 2019 e o que veremos em 2020 (12)
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    Com a marcha das mudanças climáticas, o ano de 2019 foi recheado de acontecimentos que mostraram o avanço do aquecimento global e a importância da política ambiental. A Sputnik Brasil conta aqui alguns desses episódios.

    Brumadinho

    No Brasil, o ano começou com o acidente da Vale em Brumadinho. Em 25 de janeiro de 2019, a barragem da Mina do Feijão rompeu, causou a morte de centenas de pessoas e liberou cerca de 12 milhões de metros cúbicos de rejeitos. O material feriu o ecossistema da região e manchou o Rio Paraopeba, um dos afluentes do rio São Francisco.

    Este é o segundo acidente de grandes proporções da Vale em Minas Gerais em poucos anos. Em 2015, outra barragem da mineradora rompeu em Bento Rodrigues, distrito da cidade de Mariana, e causou 19 mortes. 

    "Uma coisa muito triste de se verificar é que, dentro da possível área que seria afetada pela ruptura da barragem, a Vale já sabia que estava ali o setor administrativo, o refeitório, ou seja, existia um laudo de agosto do ano passado que mostrava que a barragem estava muito insegura, da Tüv Süd, e as operações continuaram normalmente", afirma Pedro Luis Côrtes, professor do Programa de Pós-Graduação em Ciência Ambiental da Universidade de São Paulo (USP), em entrevista à Sputnik Brasil. 

    Ainda de acordo com o especialista, o incidente foi uma "tragédia anunciada" e com efeitos graves, como o desequilíbrio da cadeia alimentar, poluição da água, dificuldade de reflorestamento, já que o rejeito cobriu o solo orgânico em que sementes poderiam germinar, entre outros fatores. 

    Amazônia e óleo no Nordeste

    A disparada dos incêndios e do desmatamento na Amazônia teve repercussão ambiental, nacional e internacional. De acordo com o INPE (Instituto Nacional de Pesquisas Espaciais), o desmatamento na Amazônia Legal avançou 29,5% entre agosto de 2018 e julho de 2019, na comparação com igual período entre 2017 e 2018. Foram desmatados 9.762 km², a maior marca dos últimos 10 anos.

    Este número é do sistema de monitoramento chamado de Prodes e foi divulgado em dezembro, mas levantamentos feitos em meses anteriores já demonstravam o avanço das motosserras na maior floresta tropical do mundo. O presidente Jair Bolsonaro chegou a afirmar que tinha o "sentimento" de que as cifras poderiam estar erradas.

    O então presidente do INPE, Ricardo Galvão, afirmou que o presidente se comportava como se estivesse em um "botequim" e que havia tomado uma atitude "covarde". Galvão terminou afastado do cargo.

    O assunto ganhou manchetes internacionais e Alemanha e Noruega suspenderam repasses de R$ 288 milhões ao Fundo Amazônia, inciativa que já investiu mais de R$ 1 bilhão na conservação da floresta nos últimos 10 anos. O presidente da França, Emmanuel Macron, levou o assunto para a cúpula do G7 e Paris colocou em xeque o acordo entre União Europeia e Mercosul.

    Diante da repercussão internacional, Bolsonaro acabou assinando um decreto de Garantia da lei e da Ordem (GLO) para o uso das Forças Armadas na luta contra o fogo. 

    "Na prática, o governo deu uma espécie de carta branca para todos que desejassem se apropriar de terras da União por meio de grilagem", diz Côrtes. O professor da USP também avalia que Bolsonaro é "leniente" e com quem se apropria criminosamente de terras públicas.

    Sobre o vazamento de óleo que atingiu centenas de localidades, todos os nove Estados do Nordeste, e chegou até o Rio de Janeiro, Côrtes ressalta que a própria população tomou o problema em suas próprias mãos ao tentar limpar o estrago.

    "Desde Brumadinho, passando pelas queimadas, e mais recentemente com esse derramamento de óleo, o governo sempre demorou muito para agir. No caso de Brumadinho, o Governo Federal praticamente não se manifestou. O ministro [do Meio Ambiente] Ricardo Salles pouco falou a respeito dos impactos ambientais que ocorreram na região".

    Na avaliação de Côrtes, Salles se sustenta no cargo, apesar de ser condenado por fraudar mapas para beneficiar mineradoras, por seu alinhamento ideológico com Bolsonaro. 

    COP 25

    Em dezembro, foi realizada na cidade de Madri, na Espanha, a Conferência das Nações Unidas sobre Mudanças Climáticas (COP 25), um dos eventos mais importantes da política ambiental global e que serve para definir metas do Acordo de Paris. Apesar do avanço da perda de gelo, aumento das temperaturas e do nível do mar, o evento não produziu uma declaração final ambiciosa. 

    Mesmo com um atraso de mais de um dia na publicação da declaração final, a COP 25 falhou em definir as regras do mercado de carbono que foi previsto no Acordo de Paris. A questão deverá ficar para a próxima cúpula climática da ONU, que está prevista para acontecer em Glasgow, na Escócia, em novembro de 2020.

    Côrtes não faz uma avaliação positiva do evento e da participação brasileira nele: "Foi outra tragédia ambiental. Saímos de uma maneira muito triste e feia dessa COP. Esse prejuízo pode inclusive se estender para outras áreas, como as exportações agrícolas brasileiras."

    As opiniões expressas nesta matéria podem não necessariamente coincidir com as da redação da Sputnik

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    Como foi 2019 e o que veremos em 2020 (12)

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    Tags:
    Aquecimento global, meio ambiente, Jair Bolsonaro, COP25, Amazônia
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