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    Presidente Bolsonaro encontra o presidente Macri para almoço no Itamaraty em 16 de janeiro 2019

    Brasil e Argentina: inimigos no futebol, mas amigos contra os mesmos problemas

    © AP Photo / Eraldo Peres
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    Embora Macri e Bolsonaro tenham vencido as eleições, eles estão sofrendo perda de popularidade e seus países enfrentam transtornos parecidos.

    Líder brasileiro Jair Bolsonaro é aprovado por 33% da população depois de 6 meses de mandato. Este é o pior nível para este prazo nos últimos 30 anos. O presidente argentino Mauricio Macri, cujo primeiro mandato está prestes a terminar, sofre o mesmo problema.

    Mas como pode ser explicada tal tendência? O colunista da Sputnik Mundo Raúl Zibechi analisa a questão.

    Militares ganham força

    A imprevisibilidade é um problema comum no Brasil e Argentina. A insatisfação com as classes políticas e suas promessas não cumpridas também o é. Uma recente pesquisa do Datafolha revelou que 58% não acreditam nos partidos políticos, enquanto que as Forças Armadas aparecem no topo do ranking das instituições mais confiadas com 42%, contra os 19% que não confiam.

    O vice-presidente da República, General Hamilton Mourão durante sessão solene de abertura do Ano Judiciário de 2019 realizada no STF.
    © Foto / José Cruz/Agência Brasil
    O vice-presidente da República, General Hamilton Mourão durante sessão solene de abertura do Ano Judiciário de 2019 realizada no STF.

    No mesmo rumo segue o Uruguai, onde aparecem movimentos políticos mais militaristas, como o partido Cabildo Abierto, liderado por um general, e o Partido de la Gente, que exige mão dura contra a criminalidade.

    De acordo com Raúl Zibechi, as sociedades brasileira e argentina estão profundamente divididas, de forma estrutural, entre segmentos com histórias distintas desde o século XIX. Esta divisão pode ser analisada em diferentes aspectos.

    Coronelismo hereditário

    O primeiro deles é o fato destas sociedades terem sido herdadas do colonialismo, que separava a população entre uma oligarquia da terra e os sujeitados, gerando o coronelismo no Brasil. Embora este tenha sido historicamente vencido, sua cultura resistente está presente tanto em partidos conservadores como em progressistas nos dias de hoje.

    Sociedade em metades

    O segundo aspecto é seu modelo econômico extrativista, representado nas monoculturas, extração de hidrocarbonetos e mineração, que somado à especulação imobiliária nos grandes centros reproduz as relações sociais do período colonial, deixando marginalizada metade da população.

    Manifestação contra o FMI e o ajuste na Argentina
    © Sputnik / Francisco Lucotti
    Manifestação contra o FMI e o ajuste na Argentina

    Esta economia especulativa não produz, sendo orientada somente pelo capital financeiro. Enquanto isto, a sociedade se divide em metades: uma com emprego, outra sem; os que têm saúde paga de qualidade e os dependentes dos carentes hospitais públicos.

    A metade desfavorecida se torna alvo de políticas sociais ineficazes e está sob constante vigilância das polícias e cercada pelo crime. O índice de pessoas mortas aumentou desde a década de 1990, exatamente quando se fortaleceram as políticas neoliberais. Fica evidente que para governar uma sociedade, cuja metade não desfruta de direitos e se aprofunda na pobreza, é necessária a força.

    Religião e política

    O terceiro aspecto são as igrejas evangélicas e pentecostais que se transformaram em forças políticas influentes em toda a sociedade, criando bancadas políticas e tendo seus próprios partidos, fugindo do seu caráter religioso. Raúl Zibechi acrescenta que este fenômeno se observa principalmente na Colômbia e Brasil, onde as igrejas travam uma batalha a nível político contra movimentos sociais, em particular os movimentos feminista, LGBT e grupos indígenas.

    Sociedade coesa

    O quarto e último aspecto é a incapacidade destas sociedades em promover um crescimento que inclua a maioria da população. Os conflitos sociais se tornam inevitáveis, enquanto muitos analistas continuam a crer que uma sociedade coesa será o resultado de um crescimento econômico quando a realidade é o inverso. Primeiro se tem uma sociedade coesa, que compartilha objetivos comuns, em seguida teremos o crescimento econômico.

    A divisão social ameaça as liberdades econômicas, políticas e individuais, assim como a própria sociedade como um conjunto no qual os indivíduos se sentem parte de um mesmo coletivo, com valores compartilhados e condições mínimas de convivência. Nenhuma rachadura social poderá ser resolvida por governos enquanto os indivíduos desta sociedade não estiverem dispostos a conviver com as diferenças.

    As opiniões expressas nesta matéria podem não necessariamente coincidir com as da redação da Sputnik

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    Tags:
    Bolsonaro, Mauricio Macri, Argentina
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