10:31 18 Julho 2019
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    Norte-coreanos andam de bicicleta em uma das ruas de Pyongyang

    Fome na Coreia do Norte: ambições nucleares ou sanções desmedidas?

    © AP Photo / Dita Alangkara
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    A pior seca dos últimos 37 anos ameaça se transformar em um novo desastre para a Coreia do Norte. Segundo o último relatório do Programa Alimentar Mundial da ONU, atualmente até 10 milhões de norte-coreanos precisam urgentemente de auxílio alimentar.

    Desde janeiro, as rações diárias distribuídas pelo sistema centralizado de abastecimento da população caíram até 300 gramas, e elas podem ser reduzidas ainda mais de julho a setembro.

    Entretanto, as duras sanções econômicas impostas pela comunidade internacional, em resposta aos incessantes testes nucleares e de mísseis de Pyongyang, desempenharam um papel significativo na atual situação crítica. A proibição de comprar os principais produtos de exportação norte-coreanos colocou em risco todos os setores da economia e as pessoas envolvidas neles. A Sputnik explica o que está por trás da situação alimentar da Coreia do Norte e por que o mundo não está com pressa para ajudá-la.

    Quanto à falta de alimentos na Coreia do Norte, há duas opiniões divergentes: os defensores do diálogo exageram a crise real para iniciar a entrega de ajuda humanitária, criando um pretexto para o reinício das negociações entre os EUA e a Coreia do Norte. Os defensores da linha dura se opõem à ajuda, exigindo, pelo contrário, o agravamento das sanções para fazer com que Pyongyang se renda. Mas a verdade, como se sabe, está sempre algures no meio.

    "Nos últimos anos, a Coreia do Norte realizou obras de proteção do litoral em grande e em pequena escala, concentrando-se no controle de inundações em geral. Como resultado, a produção de grãos e de eletricidade aumentou (as usinas hidrelétricas produzem cerca de um terço da eletricidade na Coreia do Norte). Há um aumento na produção de fertilizantes e na produção agrícola. Entretanto, a estrutura de distribuição é desigual por todo o país, e as famílias dos trabalhadores da indústria de mineração, completamente dependente das exportações de carvão e outros minerais (que foram suspensas pelas últimas resoluções do Conselho de Segurança da ONU), pelo contrário, enfrentam uma crise alimentar", disse à Sputnik Park Jong Chol, professor da Universidade Nacional de Gyeongsang.

    Durante a governação de Kim Jong-un, a situação geral da economia norte-coreana está melhorando graças a uma série de reformas empreendidas, mas a velocidade das mudanças positivas varia muito segundo a região, empresa ou família. A diferença na produtividade do trabalho, o sucesso das reformas e as peculiaridades locais criam sérios desequilíbrios que causam problemas de segurança alimentar.

    "As sanções econômicas da comunidade internacional deram origem ao ‘paradoxo das sanções’, quando afetam não aqueles que desenvolvem as armas nucleares e mísseis, mas os pobres que enfrentam a falta de alimentos. Na economia norte-coreana se agrava a fragmentação, os desequilíbrios estão aumentando e os ricos estão cada vez mais ricos e os pobres estão cada vez mais pobres", explicou o especialista.

    Segundo ele, os dados de 2018 mostram que a demanda total por alimentos na Coreia do Norte é estimada em 5,2 milhões de toneladas, com uma escassez de cerca de 500 mil toneladas. O Programa Alimentar Mundial estima que a Coreia do Norte tem escassez de alimentos no total de 1,5 milhão de toneladas, por isso alguns meios de comunicação exageram um pouco, dizendo que a fome ameaça um terço da população. Entretanto, mesmo que se trate da falta de 500 mil toneladas, como declara a parte norte-coreana, isso representa 10% da demanda total, o que indica uma escassez significativa.

    "Levando em conta que na Coreia do Norte o setor agrícola é muito sensível às flutuações climáticas, por exemplo, 50-60% do volume de produção de alimentos pode ser estimada em função do clima, a situação alimentar é muito ruim", explicou Lim Eul-Chul, professor da Universidade de Kyungnam (Coreia do Sul).

    Danos autoinfligidos

    Quando surgiram informações sobre uma seca severa, Seul começou a apelar às organizações internacionais para prestarem ajuda humanitária à Coreia do Norte. Contudo, Pyongyang considera isso como uma “armadilha do imperialismo destinada a submeter o país através da criação de uma economia dependente da ajuda externa”.

    "Mesmo que a Coreia do Norte concorde aceitar ajuda alimentar, ela quer recebê-la exclusivamente da comunidade internacional. Isso se deve à longa história das relações entre o Sul e o Norte e, em particular, à rivalidade entre os dois sistemas", disse o professor Kwak Tae-Hwan, ex-diretor do Instituto Coreano para Reunificação Nacional.

    Entretanto, há quem que acredite que a própria Seul apoia o envio de ajuda alimentar através de organizações internacionais, temendo uma reação negativa tanto no país quanto no exterior, embora os fornecimentos de ajuda humanitária não estejam sujeitos a nenhuma sanção.

    "O governo sul-coreano pode ser criticado por agir não a partir da posição dos interesses sul-coreanos, mas desde a posição dos funcionários das organizações internacionais. Prestar assistência através de organizações tem suas vantagens no que se refere a acalmar os conservadores radicais. Mas é indesejável fazer isso, porque isso significa a redução da presença e da posição da Coreia do Sul no processo negocial entre os EUA e a Coreia do Norte", disse Park Jong Chol.

    "A Coreia do Sul está procurando oportunidades para começar a fornecer ajuda alimentar diretamente para o Norte, e para a Coreia do Norte também não seria vergonha aceitar ajuda do Sul no momento certo. Mas apenas quantidades suficientes de ajuda alimentar podem resolver o problema da escassez de alimentos entre segmentos socialmente vulneráveis da população", disse o professor Lim.

    Sem concessões não há comida

    "É óbvio que a Coreia do Norte não vai abandonar suas armas nucleares devido à escassez de alimentos, portanto a opinião das forças conservadoras dentro da Coreia do Sul e dos falcões norte-americanos, que abordam a situação alimentar na Coreia do Norte a partir de posições ideológicas, não prevaleceria. Mas o fato de que a Coreia do Sul não conseguiu usar o orçamento de seis a oito milhões de dólares destinados ao fornecimento de ajuda humanitária ao Norte fala de uma atitude demasiado cautelosa em relação aos EUA", disse o professor.

    Enquanto isso, Donald Trump, apesar da situação política interna, mencionou várias vezes a possibilidade de prestar ajuda humanitária à Coreia do Norte. Portanto, em caso de haver uma maior determinação, Seul também poderia superar a resistência dos conservadores, pelo menos na questão do fornecimento de alimentos ao seu vizinho. O problema é que, mesmo que seja reconhecido que a ajuda humanitária pode contribuir para a retomada do diálogo entre os EUA e a Coreia do Norte, nem todos apoiam essa solução.

    "O presidente Trump, como se tornou conhecido, ficou muito irritado com as declarações do [assessor de Segurança Nacional dos EUA John] Bolton e outros representantes da linha dura sobre a necessidade de aumentar as sanções contra a Coreia do Norte. Na sociedade americana, os interesses da burocracia têm uma influência significativa – ela quer limitar o uso da abordagem pessoal para resolver problemas por parte de Trump. Portanto, a política em relação ao Norte, e especificamente a questão da ajuda alimentar, dependerá do complexo entrelaçamento de interesses políticos", concluiu o professor Park Jong Chol.

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    Tags:
    ajuda humanitária, crise humanitária, Coreia do Sul, fome, EUA, Coreia do Norte
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