10:29 18 Junho 2019
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    Cataratas do Iguaçu

    Crises hídricas no Brasil: falta de chuva ou de gestão?

    Cataratas do Iguaçu/ Fotos Públicas
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    Por que um país com bacias hidrográficas tão vastas ainda sofre as chamadas crises hídricas, como as que afetam a cidade de São Paulo? O que falta no Brasil: chuvas ou gestão? Sputnik Brasil conversou com especialista para esclarecer essas questões.

    Relatórios de organismos internacionais, inclusive da OCDE, revelam a inoperância dos planos de gestão das águas no país. Neste Dia Mundial da Água, o governo Bolsonaro, através do Ministério do Meio Ambiente, lança a primeira etapa da Agenda Ambiental Urbana, com destaque para o combate ao lixo no mar. 

    Para comentar a atual situação dos recursos hídricos no país, Sputnik Brasil conversou com David Zee, engenheiro ambiental e oceanógrafo, professor da UERJ.

    Ele alertou para uma crescente urbanização do país, no qual mais de 85% da população já vive em grandes cidades, e as grandes cidades ficam cada vez maiores. Segundo o especialista essa superpopulação concentrada cria desafios para escoamento de lixo e de esgoto, afetando os rios, as lagoas e o mar.

    Por isso, é de extrema importância tomar cuidado com resíduos sólidos. E o plástico é o mais perigoso dele. A fragmentação do plástico entra na cadeia alimentar dos organismos marítimos e hoje em dia se observa microplástico em organismos marítimos e mamíferos. 

    "O Brasil tem uma tradição na proteção do ambiente, é protagonista nessa questão, tendo inclusive sediado duas conferências mundiais aqui no Rio de Janeiro. Então, mais do que nunca, a representatividade do país traz uma carga de responsabilidade maior", afirmou Zee. 

    O oceanógrafo acrescentou que, para solucionar os atuais problemas é necessário pensar em abordagens novas.

    "Precisamos começar a desenvolver mecanismos para a retirada desse plástico dos oceanos e cuidar dos nossos resíduos principalmente nas áreas urbanas".

    Além disso, segundo o engenheiros ambiental, a gestão é de extrema importância. "Precisamos administrar melhor os nossos recursos hídricos". E focar na prevenção.

    "Prevenção é muito mais barata, do que a limpeza".

    Ele também notou que as cidades brasileiras apresentam grande desigualdade e que áreas imensas ocupadas por comunidades de baixa renda são controladas por milícias ou pelo tráfico. Assim, o Estado não consegue se fazer presente nessas regiões para administrar os recursos.

    "Se não há segurança, se não há acessibilidade, como instalar uma rede de esgoto? Como fazer a manutenção dessa rede de esgoto?". 

    Abastecimento e qualidade

    Até o momento a qualidade das águas nas cidades brasileiras é boa, informou o professor. No entanto, o especialista alertou para o perigo das contaminações químicas, cujo risco é cada vez maior, em função da alta contaminação.

    Por isso, mais uma vez, é importante atualizar o sistema de reserva de água. "A água desses mananciais não pode estar contaminada". Ainda mais que a maior parte dos recursos hídricos brasileiros se localiza longe das maiores concentrações populacionais. 

    "Apesar do Brasil ser um dos países com maior concentração de água doce disponível no mundo, a gente tem um paradoxo, pois essa água está disponível onde tem menos gente morando, que é a região norte. Enquanto isso, no sudeste e no sul, onde há a maior concentração de população, os nossos mananciais são reduzidos".

    Por outro lado acesso à água e ao saneamento é reconhecido internacionalmente como um direito humano. Ainda assim, mais de 2 bilhões de pessoas não dispõem dos serviços mais básicos.

    Lançado às vésperas do Dia Mundial da Água, o último Relatório Mundial das Nações Unidas sobre Desenvolvimento dos Recursos Hídricos explora os sinais de exclusão e investiga formas de superar as desigualdades.

    "Muitos países, carentes de recursos financeiros, também são carentes de recursos naturais", isso explica a falta de água em países subdesenvolvidos. Isso leva a grandes problemas no saneamento básico e na higiene. Os esforços para solucionar esse problemas devem partir da comunidade internacional. No entanto, segundo David Zee, não devemos esquecer das nossas responsabilidades individuais.

    "No dia mundial da água vamos refletir um pouco no que podemos fazer para contribuir para ter mais água no planeta com qualidade para todos", concluiu.

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