16:30 18 Novembro 2018
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    Como recusa de Londres de devolver ouro venezuelano afeta interesses da Rússia

    CC BY 2.0 / Bullion Vault
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    Em meio às sanções americanas, o governo venezuelano pretende repatriar 14 toneladas de barras de ouro no valor equivalente a US$ 550 milhões do Banco da Inglaterra. Mas Londres não tem pressa em atender o pedido do país latino-americano. Analista indica como a recusa do Reino Unido de devolver o ouro venezuelano ameaça os interesses russos.

    Enfrentando uma situação econômica difícil, Caracas tem vendido suas reservas de ouro, que diminuíram nos últimos anos em mais de 200 toneladas e continuam a se reduzir.

    Parte do ouro venezuelano permanece guardado no Reino Unido. O pedido de repatriar o metal precioso foi transmitido ainda pelo ex-presidente Hugo Chávez, e o Reino Unido devolveu a maior parte das barras de ouro, mas nos últimos meses começaram os problemas, sublinha Anton Krylov, colunista do jornal russo Vzglyad.

    O governo de Nicolás Maduro tentou recuperar o ouro antes de serem introduzidas novas sanções americanas, mas não deu certo. Em 1º de novembro, Donald Trump anunciou uma nova rodada de sanções contra a Venezuela, proibindo pessoas físicas e jurídicas americanas de comprarem ouro do país latino-americano. Agora o Banco da Inglaterra exige que o país explique como irá usar o metal precioso.

    "As chances de a Venezuela receber de volta suas 14 toneladas de ouro […] parecem uma miragem. O Reino Unido bem poderá se referir aos objetivos [para uso do ouro] pouco claros como pretexto e se recusar a devolver o ouro até uma mudança do poder", comenta Krylov.

    Mesmo que à primeira vista não haja correlação, a recusa de Londres afeta diretamente a economia russa, opina o autor do artigo.

    Primeiro, a Rússia é um dos principais compradores de ouro no mundo, inclusive de ouro venezuelano. No terceiro trimestre deste ano o Banco Central da Rússia adquiriu um recorde de 92,2 toneladas de ouro, tendo suas reservas ultrapassado pela primeira vez as 2.000 toneladas, lembra o analista.

    Ultimamente, o ouro tem sido procurado pelos países mais diversos do ponto de vista econômico e geográfico como, por exemplo, a Turquia, Cazaquistão, Índia, Polônia e Hungria, que também adquiriram ultimamente grandes quantidades deste metal precioso.

    A segunda razão pela qual as sanções contra Venezuela e a recusa de Londres de devolver seu ouro afetam a Rússia é a estreita cooperação econômica entre Moscou e Caracas, indica Krylov.

    Assim, desde 2014, a estatal de petróleos venezuelana PDVSA recebeu pagamentos adiantados da empresa petrolífera russa Rosneft pelo fornecimento de petróleo e produtos petrolíferos no valor de 6,5 bilhões de dólares (R$ 24,48 bilhões).

    No terceiro trimestre de 2018, a dívida da Venezuela perante a Rússia diminuiu para 3,1 bilhões de dólares e o país está interessado em que Caracas se mantenha apta a pagar. Por isso, enfatiza o autor, quaisquer ações dirigidas contra a economia venezuelana ameaçam os interesses russos.

    Por fim, o próprio fato de o Reino Unido pedir à Venezuela para justificar a necessidade de recuperar o ouro pode dificultar a cooperação econômica internacional, acrescenta Krylov.

    "Daí, da próxima vez a Inglaterra, por exemplo, poderá se recusar a pagar pelo gás russo até que a [gigante do gás russa] Gazprom preste explicações sobre como irá gastar o dinheiro pago", ironiza o colunista.

    Recusando devolver 14 toneladas de ouro venezuelano, Londres rejeita os princípios do comércio internacional que se formaram há muito tempo, conclui a matéria, podendo criar dificuldades para a própria economia britânica.

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    Tags:
    economia, petróleo, sanções, repatriação, ouro, Donald Trump, Nicolás Maduro, Hugo Chávez, EUA, Reino Unido, Rússia, Venezuela
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