13:21 14 Novembro 2018
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    Armas de fogo de artilharia do exército saudita em direção às posições houthis da fronteira saudita com o Iêmen.

    Cessar-fogo no Iêmen se torna possível com retirada do apoio dos EUA à coalizão saudita

    © REUTERS / Faisal Al Nasser
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    A decisão do secretário de defesa dos EUA, James Mattis, de pedir um cessar-fogo no Iêmen está relacionado ao colapso do apoio norte-americano à Arábia Saudita, após o recente assassinato do jornalista saudita Jamal Khashoggi, disse à Sputnik Gareth Porter, historiador e jornalista investigativo.

    Nesta terça-feira, Mattis disse que todos os lados envolvidos na guerra do Iêmen precisam realizar passos significativos para um cessar-fogo e se reunir para negociações dentro de um mês.

    "Temos que nos mover em direção a um esforço de paz aqui, e não podemos dizer que vamos fazer isso em algum momento no futuro", disse Mattis. "Precisamos fazer isso nos próximos 30 dias".

    "Isso tem que acabar, temos que substituir o combate pelo compromisso… é hora de parar com isso", acrescentou.

    O secretário de Estado dos EUA, Mike Pompeo, fez coro ao chefe do Pentágono e disse em uma declaração na terça-feira que todas as hostilidades entre as partes do conflito no Iêmen precisavam chegar ao fim. Potenciais conversas de paz seriam lideradas pelo enviado especial da ONU, Martin Griffiths.

    Porter disse à Radio Sputnik, na quarta-feira, que a retirada do apoio dos EUA às atividades da Arábia Saudita ao Iêmen é um sinal claro de mudanças no cenário internacional.

    "O apoio político da elite política dos Estados Unidos colapsou para o regime de Bin Salman [Mohammed bin Salman], bem como para a posição saudita no Iêmen especificamente", disse Porter à Sputnik.

    "O fato principal é que, no Congresso [dos EUA], agora há muita mais disposição para basicamente suspender o apoio dos EUA aos sauditas no Iêmen e pressionar para que os EUA cessem seu envolvimento ativo na guerra da coalizão saudita no Iêmen. E claro, [pressão para] suspender o esforço continuado… para impedir que os bens humanitários fluam para o Iêmen, o que é ainda mais devastador do que o bombardeio de civis pela coalizão saudita".

    Em abril de 2017, Porter escreveu um artigo para Truthout, intitulado "A cobertura fornecida pelos EUA para a estratégia de fome saudita no Iêmen". Nele, o jornalista investigativo discute como o governo Obama ofereceu seu apoio à Arábia Saudita no Iêmen, apesar de saber que o Reino da Arábia Saudita estava impedindo que a ajuda humanitária fosse encaminhada para o povo iemenita.

    "Isso é realmente crucial para entender. Porque eu acho que geralmente não se entende quão fortemente o governo Obama apoiou o esforço militar saudita no Iêmen", disse Porter à Sputnik. "O que foi menos compreendido foi que eles estavam isolando as populações do Iêmen das remessas internacionais de mercadorias que não eram apenas vitais para lidar com problemas humanitários por causa da guerra, mas basicamente para manter a economia funcionando".

    "O Iêmen depende do comércio internacional de alimentos para 90% de sua economia. E o que os sauditas estavam fazendo conscientemente era impedir que o Iêmen conseguisse o alimento necessário para sustentar sua população, e os Estados Unidos sabiam disso perfeitamente, mas forneciam a cobertura diplomática… que era realmente necessária para os sauditas se safarem", continuou ele.

    Quando perguntado sobre quem seria a parte vencedora caso o cessar-fogo acontecesse, Porter observou que é um pouco incerto, considerando que as negociações do passado acabaram paralisadas.

    Em meio aos apelos dos EUA por um cessar-fogo, a coalizão liderada pela Arábia Saudita reuniu milhares de soldados perto da cidade portuária de Hodeidah no Iêmen, informou a AFP na terça-feira, citando autoridades do governo iemenita. As manobras foram realizadas no âmbito de uma ofensiva que a coalizão supostamente espera lançar na cidade controlada pelos rebeldes "em poucos dias".

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